Tínhamos chegado a casa, após a viagem desde a vivenda do Manuel e da Piocha na Atalaia, quando o telemóvel tocou. Era o Manuel, perguntando pela viagem, mas na verdade excitado e ansioso por contar uma história. Tinha a ver com o Lucas, que como sempre correra atrás do nosso carro à saída, bem para lá do portão da casa, até que acelerei para ele desistir e deixámos de o ver. Desta vez, porém, não voltara para casa no prazo habitual, pelo que a certa altura o Manuel teve de sair à sua procura. Primeiro a pé, depois de carro, quando percebeu que ele não estava por perto. “E sabe onde o encontrei? No viaduto sobre a auto-estrada, a olhar no sentido do Norte. Estava a olhar para a estrada que vocês tinham tomado e estava ali parado. Não é incrível?” Concordei, claro, assombrado mais uma vez com o Lucas, e fui contar à Carolina, que ficou tão comovida como eu e como o Manuel.
O episódio que desejo agora acrescentar, saltando uns anos, foi o telefonema do Manuel anunciando a morte do Lucas. Estava velho e alquebrado já na nossa última visita, o passeio que fazíamos os dois ao fim da tarde por alguns quilómetros já lhe custava, parava muitas vezes e bebia água onde e sempre que podia. Continuava a desaparecer da vista de vez em quando, suponho que para perseguir algum coelho ou apenas e só a sua memória olfativa. Naquele dia o Manuel estava abalado, deu-me a notícia da eutanásia do Lucas por meias palavras, fiquei sem saber o que dizer, acho que disse apenas “Que notícia tão triste, um grande abraço, Manuel”, ele tartamudeou alguma coisa, “Pois, pois”, desliguei e fui dizer à Carolina, ficámos abraçados a pensar no Lucas. Continue reading

















