A verdade da fantasmagoria

No criptopórtico do Museu Machado de Castro, está desde 17 de maio uma exposição a todos os títulos excecional, intitulada Insomnia.[1] No título oficial, a “Insomnia” segue-se o subtítulo descritivo: “José Luís Neto e utentes do Centro de Apoio Social do Pisão”. Do primeiro são as reproduções fotográficas, impressas em tecido, que se acolhem a certas reentrâncias do criptopórtico. Dos segundos, cujos nomes são elencados na folha de sala, são as centenas de cabeças em terracota, com intenção de autorretrato, que se dispõem sobre um suporte de madeira (portas de casas antigas) acima do solo. A exposição integra a programação convergente da Anozero’24, da Bienal de Arte de Coimbra e tem curadoria do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra.

Descer, perder, recodificar

Descer ao criptopórtico é algo que as crianças fazem em estado de antecipação febril, antes de se entregarem a correrias e jogos de esconde-esconde por entre as galerias do monumento romano. Escondem-se umas das outras, mas escondem-se sobretudo do medo que este vestígio soterrado do passado desencadeia, um medo que deve em partes iguais à escuridão dramaticamente iluminada do local e à sua topologia, que faz da experiência algo aproximável da perturbação de entrar numa cripta que, em função do efeito da iluminação vacilante sobre a nossa imaginação, facilmente devém mausoléu e cenotáfio. Por isso as crianças gritam ou sussurram excitadas, fazendo assim o exorcismo do medo do enterramento, ao passo que os adultos circulam em silêncio, pois reconhecem no subterrâneo não tanto a didática produzida pela arqueologia, mas algo como o rosto hipocrático do seu destino: acabarem debaixo de terra. A inteligência desta exposição começa, pois, na escolha de um local cuja frequência não nos deixa indiferentes, tratando-se da proposta de uma descida que é, em si, toda uma viagem e toda uma tropologia: uma descida às profundezas da alma, ou do inconsciente, ou do inferno – ou, se se preferir, ao outro lado do espelho de Alice, caindo sempre e sempre para o centro da terra, perdendo todas as referências no caminho. Continue reading


Eduardo Lourenço: Pensar / Escrever com o Outro

Quando o texto é mais extenso e o espaço o permite, reconhece-se uma chuva oblíqua de qq, pp, ff e gg alongados, sobretudo se a escrita recorre à caneta de tinta permanente, que parece libertar um ímpeto esvoaçante. Quando a margem é mais apertada, as abreviações dominam, o tamanho da letra encolhe, a mensagem triunfa sobre o meio, que perde autonomia e afirmação. O recurso, mais tardio, a esferográfica, concorre ainda mais para esse efeito. Já o recurso ao lápis situa-se num ponto intermédio, em termos de investimento caligráfico.

O objeto-livro, cuja veneração nos foi transmitida na escola, é aqui desrespeitado de forma ostensiva, já que o grau máximo de intervenção, ainda dentro dessa pedagogia escolar do livro, não é o lápis – por definição eliminável –, mas a caneta, que de facto se configura como um mínimo da relação com o objeto. O livro, tal como a biblioteca de Eduardo Lourenço revela, existe para ser intervencionado, desde o sublinhado até à anotação, mais ou menos ostensiva – e isso seria a sua maneira de respeitar o labor que em cada livro se manifesta. Lourenço lê escrevendo, fazendo proliferar notas que são, em boa verdade, o ficheiro que seguramente nunca teve. Num texto famoso, com o título “Da razão antropofágica: diálogo e diferença na cultura brasileira” (1980), o intelectual brasileiro Haroldo de Campos refere o labor dos “novos bárbaros” latino-americanos, esses intelectuais que devoram a Razão ocidental e a (res)sintetizam, descrevendo-os nos seguintes termos: “São bárbaros alexandrinos, aprovisionados de bibliotecas caóticas e de fichários labirínticos”. Descontando o “bárbaro” que o europeísta Lourenço nunca foi, não custa reconhecer nele o perfil alexandrino do sábio sumido na sua biblioteca caótica e nos seus ficheiros labirínticos, ficheiros que num certo sentido nunca descolam nem da biblioteca nem do caos produtivo que ela gera: tudo se passa dentro dos livros, nessa atividade de “lecto-escrita” (cito o grande pensador da situação tardia do livro que é Fernando Rodríguez de la Flor) que, para utilizar uma imagem de alguém próximo, Carlos de Oliveira, se expande como uma maranha da qual Lourenço nunca desejou sair. Continue reading


A fotografia, uma arte com cadastro, por Roberto Franco

Entre 1998 e 2001 o site Ciberkiosk, fundado e produzido em Coimbra – arduamente, dada a inexistência do que viriam a ser depois os templates, que permitem hoje dar por adquiridos uma série de requisitos que então tinham de ser gerados para cada texto e número do site-jornal -, mas com colaboradores por todo o país e, depois, pelo estrangeiro, com destaque para Espanha e Brasil, foi uma experiência inesquecível naquilo que era então o continente ainda misterioso da hiper-mediação proposta pelo mundo digital. O Ciberkiosk, ou simplesmente Kiosk para os mais próximos, aproximou gente de várias latitudes geográficas e intelectuais e marcou brevemente essa época em que o digital parecia apenas acrescentar possibilidades, coisa que entretanto percebemos não ser exata, já que a ecologia do digital se revelou também altamente destrutiva, como sucede com todas as revoluções. Na fase inicial do Ciberkiosk, quando os colaboradores ainda eram em número reduzido, assinei alguns textos com pseudónimos, distribuindo-os por várias disciplinas. Recupero aqui um desses textos, sobre fotografia, assinado por Roberto Franco (nome inspirado em Robert Frank, que uma tarde vi, incrédulo, na Rua Ferreira Borges, no contexto dos Encontros de Fotografia de então), no nº 1 do Ciberkiosk, de março de 1998.


1. No Porto, e após um longo folhetim «camiliano», o Centro Nacional de Fotografia estreou as suas actividades com duas exposições no edifício da antiga Cadeia da Relação, local que a partir de agora albergará regularmente as exposições promovidas pelo Centro.

O edifício da Cadeia da Relação é, como se sabe, um espaço mítico. Todas as cadeias o são, pelo que pressupõem da suspensão do tempo de que se faz o mito. A cadeia é a redoma em que a cidade preserva o inominável, preservando-se a si mesma (ou julgando fazê-lo) nesse gesto. Mas a cadeia é também um poderoso dispositivo hermenêutico das sociedades com que convive. Ela dá-nos a ler a historicidade da moral e dos valores, o relativismo da justiça e a naturalização da crueldade. De certo e inadmissível modo, necessitamos dela para nos conhecermos enquanto animais morais, sociais e políticos. Como se vê na regressão global do pensamento judicial contemporâneo em matéria prisional, nela se concentram o nosso optimismo ou, hoje, o nosso cepticismo sobre nada mais nada menos do que a natureza humana. A cadeia é, pois, o nosso mais impiedoso photomaton: ela fala por nós. Continue reading


Carlos de Oliveira: a parte submersa do iceberg

Foi inaugurada no dia 18 de março, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, a exposição do espólio de Carlos de Oliveira, de que sou curador. O título da exposição provém de um texto de Carlos de Oliveira, “O iceberg”, incluído no volume O aprendiz de feiticeiro. Nesse texto, o autor fala de tudo aquilo que a falta de liberdade, durante o salazarismo, o inibiu de viver e de escrever, denunciado desde logo na sua frase inicial: «Pensando bem, não tenho biografia». A sequência do texto esclarece essa afirmação:

Melhor, todo o escritor português marginalizado sofre biograficamente do que posso denominar complexo do iceberg: um terço visível, dois terços debaixo de água. A parte submersa pelas circunstâncias que nos impediram de exprimir o que pensamos, de participar na vida pública, é um peso (quase morto) que dia a dia nos puxa para o fundo. Entretanto a linha de flutuação vai subindo e a parte que se vê diminui proporcionalmente.

A imagem da parte submersa do iceberg adapta-se bem àquilo que define um espólio: um conjunto de papéis e documentos que acompanha, ao longo do tempo mas longe da vista do público, uma obra publicada. Contudo, tratando-se de um espólio bastante rico, foi necessário selecionar drasticamente o material a exibir, bem como distribuir tarefas, para o que contei com a ajuda de uma equipa que integra duas doutorandas do Programa em Materialidades da Literatura, Ana Sabino e Manaíra Athayde, além dos Professores Ricardo Namora e Rui Mateus, membros, como toda a equipa, do Centro de Literatura Portuguesa. Rui Mateus tratou a poesia, Ricardo Namora o “caso” Finisterra. Paisagem e Povoamento, obra tardia e maior, Ana Sabino explorou o espólio gráfico do autor, Manaíra Athayde estudou a questão do arquivo em Carlos de Oliveira. A exposição combina, pois, um percurso biobibliográfico, mais completo no caso da poesia, única área da obra percorrida na íntegra, com a eleição de núcleos temáticos fortes: a interação fotografia-texto no percurso que vai do “trabalho de terreno” levado a cabo pelo casal Carlos e Ângela de Oliveira na Gândara, no início dos anos 50, até à edição, em 1953, de Uma Abelha na chuva, às fotos produzidas por Augusto Cabrita para a edição ilustrada da obra na D. Quixote no final dos anos 60 e, por fim, ao filme de Fernando Lopes sobre o romance (1972); a contextualização do campo literário, cultural e político português no final dos anos 60, recorrendo-se para tal aos 8 volumes publicados dos diários de José Gomes Ferreira, Dias Comuns; o espólio de Finisterra, que revela a existência de uma “versão” abandonada de uma obra que não era ainda Finisterra, mas de que se viria a aproveitar alguma coisa para esse romance; e o trabalho de alguns grandes designers que desenharam capas e coleções para a obra de Carlos de Oliveira, bem como os textos, éditos e inéditos, que revelam uma aguda consciência do livro como objeto e suporte no autor. Continue reading