John Mercy & The Dead Beats: West of the American Night

Com este concerto, encerram-se as comemorações do centenário de Jack Kerouac protagonizadas pela Secção de Estudos Anglo-Americanos do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas desta Faculdade de Letras. E encerram-se deste modo porque a articulação de texto e música atravessa e define toda a Beat Generation, como pudemos ver mesmo no final do concerto no vídeo da espantosa leitura, pelo próprio Kerouac, da última frase de On The Road, com acompanhamento musical. Quando convidei o João Rui, aliás John Mercy, a fazer alguma coisa em torno de On The Road para este dia, a sua primeira reação, tenho de confessar, não foi muito entusiástica, tendo o João pedido uns dias para pensar no assunto. Passou quase uma semana e, de repente, comecei a receber sms e mails em catadupa. Nessas mensagens, e para resumir, John Mercy confessava não apreciar a modalidade hoje popular da spoken word ou da leitura com música, no fundo por ser essa uma modalidade, em seu entender, desprovida de forma. E como a forma por excelência da articulação entre texto e música é a canção, o que ele propunha era um conjunto de canções a partir do romance de Kerouac – um conjunto de canções que pudesse vir a dar um disco, a forma (e a duração) por excelência da música na era da reprodução. As mensagens vinham aliás acompanhadas de uma sinopse das canções a extrair do livro e também já do espetáculo. Como bónus, uma demo da primeira canção, “Holding On”, que achei belíssima.

Depois, a criança foi crescendo e confesso que fui ficando com medo de não ter meios para responder, o que foi e é um facto, valendo a colaboração do TAGV, que se veio a revelar decisiva para este espetáculo, que encerra da melhor maneira esta evocação do escritor Jack Kerouac, um escritor que ajudou tanta gente, eu incluído, a sonhar com uma outra vida, mais intensa e mais livre. Quero, pois, manifestar todo o meu reconhecimento, em nome do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas, a John Mercy, pela conceção de tudo isto, pela formação da banda extraordinária que o acompanhou hoje e, já agora, por gostar de livros e, em particular, de livros da literatura norte-americana (ou não tivessem, ele e a Daniela, um cão chamado Steinbeck). Tenho consciência de que o que John Mercy nos deu, aos leitores e aficionados de Kerouac, aos habitantes desta Faculdade e aos utentes deste teatro, não tem retribuição possível, pois este foi um ato de uma infinita generosidade. Por isso mesmo, o meu muito obrigado. Peço o vosso aplauso para John Mercy. Continue reading


Kerouac 100

I had intended to mention, briefly, in this opening, the nature of the debt I incurred with Jack Kerouac long years ago, when at the end of On the Road I read that qualification of  Dean Moriarty as “the father we never found”. Maybe because although my father is still alive, and in spite of the fact he was always a good and loving father, I have always felt that Dean Moriarty was, also for me, “the father we never found”, at that age when we all need a second father, preferably almost our own age, preferably someone who will lead us to the other side of the mirror and away from the meek life. Professional burdens and personal contingencies, however, have conspired to rob me of the time that would allow me to state the reasons why, as director of the department of languages, literatures, and cultures, I am wholeheartedly behind this event. But that’s okay, because I believe this conference will be enlightening enough in itself. Because to celebrate Kerouac’s work is to celebrate an idea of writing as a crossing of this vast and unsettled continent that we mistakenly call life, and that we can only endure because we know it is a journey with a thousand paths, but no destination. And that is what great literature teaches us, even, or especially, when it does not wish to teach us anything – and thank God for that.

On behalf of the Department of Languages, Literatures and Cultures I want to thank all the participants in this conference, as well as the musicians who will close it with a concert at the Paulo Quintela Theater. My special thanks go to my colleagues in the Anglo-American Studies Section directly involved in the organization, Professors Graça Capinha, Maria José Canelo and Susana Araújo. I would also like to thank the FLUC administration, in the person of our Director, for the support he has given us. I wish you all an excellent conference.

[This small text was delivered at the opening session of Kerouac 100, at the Faculty of Letters of the University of Coimbra, on October 28, 2022]


Conferência Paulo Quintela

Ao fundo deste palco, a projeção de uma foto de Paulo Quintela. É uma imagem solar, de alguém em plena maturidade, naquele momento em que corpo e espírito parecem estar ainda em perfeita sintonia, um pouco antes do envelhecimento que força à autonomização progressiva do espírito em relação ao corpo. É também uma imagem de confiança, de alguém que enfrenta o futuro na crença nas suas capacidades, mesmo se em tempos pouco favoráveis, que exigem um olhar avisado e perscrutador. E, como se constata pela indumentária, ou pela cigarrilha na mão direita, é a imagem de alguém confortável no seu papel, social e institucional, de alguém que, tudo somado, acredita na sua missão. Em resumo, esta é a imagem de um Mestre e é também para celebrarmos os nossos mestres que hoje nos reunimos aqui, estudantes e professores. Em Paulo Quintela, o Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas homenageia todos aqueles e todas aquelas que nos marcaram no nosso percurso escolar e académico nesta Faculdade e nesta Universidade, nas salas de aula e de seminário para começar, mas também nos gabinetes, nos corredores e outros espaços comuns e, em certas ocorrências, no próprio espaço público. Aqueles e aquelas que nos fazem dizer com reverência, com orgulho e, por vezes, com a nostalgia que é, em rigor, a nostalgia da nossa própria juventude, “Eu fui aluna de Maria Helena da Rocha Pereira”, “Eu fui aluno de José Gonçalo Herculano de Carvalho”, “Eu fui aluna de Ofélia Paiva Monteiro”, “Eu fui aluna de Maria Irene Ramalho de Sousa Santos”, “Eu fui aluna de Paulo Quintela”, “Eu fui aluno de Vítor Aguiar e Silva”.

O que todas estas pessoas têm em comum, para lá de terem sido estudantes e professores distintos desta casa, é que todas elas integraram áreas que hoje se encontram reunidas no Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas. Umas dedicaram-se às línguas clássicas, outras às modernas, umas dedicaram-se às línguas estrangeiras, outras ao Português, muitas estudaram e praticaram a tradução, umas dedicaram-se ao estudo das literaturas e culturas, outras à ciência da linguagem, chamasse-se ela filologia, gramática ou, por fim, linguística. O que aproxima todas essas pessoas é, na verdade, a crença de que (como nos recordará em breve o conferencista de hoje) no princípio está a palavra, na sua capacidade fundante, combinando nomeação, descrição e performatividade e traduzindo-se em textos, orais ou escritos, num processo infindável de significação e comunicação, que inclui também a resistência à significação e à comunicação, assim como inclui enunciados que produzem afirmações categóricas sobre o mundo a par de enunciados que suspendem essas modalidades de afirmação em favor daquilo a que chamamos ficção. É bem certo que todos os departamentos, como todas as tentativas para introduzir ordem no caos da realidade, contêm em si algo de ficcional. Mas nada há de errado nisso, desde que as ficções em que decidirmos acreditar tenham a capacidade para fazer mundo, o mesmo é dizer, para estabelecerem relações entre coisas mais ou menos afastadas, desenhando cruzamentos, travessias, sobreposições, enfim, pequenas ou grandes sociedades do conhecimento. É assim que vejo o Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas, como uma placa giratória assente sobre aquele tipo de livro que o grande escritor brasileiro João Guimarães Rosa considerava o livro dos livros, o Dicionário, o livro que aspirava publicar aos cem anos de idade e que seria, ao mesmo tempo, o seu melhor romance e a sua autobiografia. O dicionário, isto é, uma máquina sofisticada e poderosa de produção e tradução de linguagem e linguagens, um infatigável dispositivo de renomeação do mundo, um arquivo sempre em devir. Continue reading


Jornadas Literárias de Sharjah em Coimbra

O volume Lendas e Narrativas, de Alexandre Herculano, importante escritor português do período romântico, inclui um texto, intitulado “Destruição de Áuria – Lendas Espanholas (Século VIII)”, publicado pela primeira vez na revista Panorama em 1838. O texto abre com uma espantosa prosopopeia que unifica “as províncias de Espanha”, ou seja, toda a Península Ibérica, num grito de dor ante a invasão muçulmana: “Um som de queixume e pavor – um grito tremendo e doloroso se escutava em todas as províncias de Espanha. Desde os fraguedos de Gibraltar, até os distantes desvios das Astúrias, não se via senão desespero, aflição e luto. O império fugira das mãos dos Godos, o trono de Rodrigo jazia por terra, e estava fadado que a altiva Espanha sofresse o jugo do invasor muçulmano”[1]. Mais adiante, descrevendo as vagas da invasão da península, afirma-se que “Diante deles, o país parecia os jardins do Éden; atrás deles, um ermo despido”[2]. Alexandre Herculano, que foi também um importantíssimo historiador, sempre empenhado em usar a Razão para desfazer mitos historiográficos, cede aqui, como de resto em muitos outros passos da sua produção literária, à visão cristã do processo histórico, na verdade anunciada desde o século IX, quando se começa a produzir a narrativa que, definindo a Hispânia como essencialmente cristã, considera a presença árabo-islâmica “uma intrusão que cumpria à monarquia asturiana eliminar”[3]. Esta narrativa fundamentará depois a construção das monarquias hispânicas, incluindo a portuguesa, e justificará a descrição de todo o processo como “Reconquista”, uma imagem problemática, por muitas razões.

Um dos grandes problemas desta narrativa, como sabemos, é que a longa duração do al-Andalus se deveu sobretudo ao grande desenvolvimento urbano, à sofisticação da cultura material, ao cosmopolitismo intelectual, enfim, a um profundo processo de aculturação, sobretudo visível nas zonas de contacto. É o caso de Coimbra, zona de cultura moçárabe que, na descrição de José Mattoso, “preservava elementos importantes não só da civilização árabe, mas também do direito e da liturgia visigótica, de algumas instituições romanas, da língua latina e dos costumes populares vindos já desde o Baixo Império, os quais se podem opor, pela sua feição mediterrânica, à tendência cultural dominante no Norte” – que o historiador descreve como “de caráter guerreiro, campestre e rude”[4]. É certo que, por outro lado, enquanto zona de fronteira, Coimbra foi também zona de combate permanente. E, como nota ainda José Mattoso, “O papel que a guerra teve nesta fase fundacional marcou para sempre o país, do ponto de vista ideológico, por se tratar de uma guerra religiosa”[5]. Isto passou-se, contudo, há mais de oito séculos, pelo que, na perspetiva que é hoje a nossa – uma perspetiva crítica de todos os etnocentrismos, de todos os imperialismos e de todas as guerras, religiosas ou não –, cabe-nos acarinhar esse perfil moçárabe que, nas palavras de José Mattoso, veio a produzir um equilíbrio entre as culturas do norte e do sul daquilo que viria a ser Portugal, inscrevendo a herança árabe em estratos profundos da cultura portuguesa. Continue reading


Sobre o ensino da literatura. A partir de Paulo Franchetti

O elenco incompleto de livros de Paulo Franchetti expostos na mesa grande do IEB termina, neste momento, no pequeno volume Sobre o Ensino de Literatura, editado pela UNESP em 2021. Um volume pequeno, de pouco mais de 100 páginas, mas que percorre toda uma vida de dedicação a uma atividade que só parece ser dotada de uma justificação quando não pensamos nessa questão, o que de resto define a prática dos professores de literatura: fazem uma coisa em que acreditam, mas só até ao momento em que interrogam as razões da sua crença. A situação seria análoga à do estudante de teologia que, na descrição de Karl Popper, seria justamente aquele que o faz porque duvida da sua fé. Contudo, e como sabemos há muito, a dúvida, metódica ou não, tem uma produtividade própria, ainda que neste caso essa produtividade seja estranhamente assimétrica. De facto, a disparidade entre a prática definidora de uma profissão – o ensino da literatura – e o volume de reflexão sobre essa prática manifesta-se, desde logo, na escassez de produção sobre o assunto, quando confrontada com a abundância de escrita sobre literatura. Esse é, aliás, um tópico inicial deste mais recente livro de Paulo Franchetti, que também por essa razão funciona como fonte e pretexto para a jornada de debate que o Instituto de Estudos Brasileiros promove neste dia, aproveitando para homenagear o trabalho do autor (visita recorrente no IEB nos últimos anos) no domínio dos estudos brasileiros e portugueses.

No ensaio “O que fica do que passa. Sobre o estudo e o ensino da literatura”, com que o livro abre, Franchetti procede a uma reconstrução do panorama do ensino da literatura no Brasil desde a criação da Universidade de São Paulo, nos anos 30 do século XX, concluindo pela crise de uma série de legitimações: “Neste quadro, ensinar a literatura como parte ou lugar privilegiado da formação nacional deixou de fazer sentido. Quase tanto como a ideia de formação nacional” (p. 23) [1]. Sem qualquer ilusão, afirma em seguida que “Um ensino voltado à construção do repertório e capaz de instrumentar a leitura com dados da tradição literária começa a parecer pouco interessante, quando não improdutivo ou até mesmo inútil” (p. 23). Em vez da retração num ideal de profissionalismo estrito – “maior especialização do crítico e do professor, consubstanciada num discurso autorreferenciado e hermético” (p. 25) – o autor propõe que “A solução passaria, isso sim, pela busca de um lugar novo para a literatura, no âmbito de uma formação humanística ampla, cuja preocupação central não fosse a formação de professores de Português ou de Literatura” (id.). O argumento deixa vir à tona o lastro iluminista do autor, sempre dividido entre o apelo da sala de aula como local onde acontece aquilo que só na aula enquanto “espaço de interrupção” pode acontecer, e uma esfera pública na qual a aula seria sem paredes e o professor um “professor de leitura, um profissional capaz de obter o maior rendimento da leitura de um texto literário com vistas à formação de um público culto” (id.). Continue reading


REI ÉDIPO (1967), de Pier Paolo Pasolini

No texto do Rei Édipo, de Sófocles, que Pier Paolo Pasolini tratou com máxima liberdade no seu filme de 1967, após vazar os olhos Édipo afirma que o fez por ter deixado de ter prazer em contemplar os filhos, a cidade, com as suas muralhas, e as imagens sagradas dos deuses. E acrescenta que desejaria ter cortado também as orelhas se isso lhe garantisse deixar de ouvir. A frase é esta: “Houvesse ainda para a fonte dos sons uma barreira na senda dos ouvidos, e não me teria contido, sem aferrolhar o meu pobre corpo, para que fosse, além de cego, incapaz de ouvir; é doce para o espírito habitar longe dos seus males”[1]. O filme de Pasolini é a denegação, ponto por ponto, desta renúncia trágica ao mundo, já que, da infância à cegueira da velhice, o que permanece é o apelo da realidade primordial, ou melhor, e indo ao encontro do pensamento do cineasta, o apelo primordial da realidade. Esse apelo para cuja reprodução, como defendeu nos seus textos teóricos sobre o cinema, nenhuma linguagem existe mais bem apetrechada do que a linguagem do cinema, a que chamou “a língua escrita da realidade”, uma linguagem que “exprime a realidade com a realidade”[2]. A realidade primordial, neste filme, é a infância, o que é o mesmo que dizer, com Freud, autor que Pasolini leu toda a vida, o mundo turvo e perverso das origens ao qual, como se aprende lendo o Rei Édipo, é perigoso remontar. Como, a este propósito, Jocasta diz a certa altura a Édipo, respondendo à inquietação deste sobre a possibilidade de ter dormido com a mãe, “não vivas no temor das núpcias de tua mãe: é que muitos foram já os mortais que em sonhos a sua mãe se uniram. Mas quem destas coisas não cuida, a esse mais fácil lhe é suportar a vida” (op. cit, p. 258). Como é amplamente sabido, uma das pessoas que se dedicou a cuidar destas coisas (coisas como sonhos e como o desejo pela mãe) foi justamente Sigmund Freud, que nos ajudou a recuperar para os tempos modernos a peça de Sófocles, ainda que lendo-o com a falta de respeito que carateriza os grandes leitores. O filme de Pasolini é mais um daqueles elementos que nos faz perceber a que ponto é inútil tentar hoje ler o Édipo sem Freud, pois o filme, como toda a crítica percebeu desde o início, é de facto o resultado da sobreposição de três textos: o de Sófocles, muito amputado e modernizado na sua dicção, o da leitura de Sófocles por Freud e a autobiografia da revisitação da sua infância por Pasolini. Continue reading


Falar mau inglês a bem da paz perpétua

Duas colegas que muito prezo pediram-me para intervir na apresentação e debate deste livro na FLUC. Não entendi bem, confesso, um dos aspetos do pedido, que depois percebi quando no cartaz vi ao meu nome atribuída a função de “provocador”. Lamento desiludir quem aqui veio para assistir a uma provocação pública a um provocador nato, mas farei apenas aquilo que faço sempre, e que consiste em ler o livro que me foi proposto o melhor que sei. O que implica ler sem preconceitos, mas também sem receio de ofender a delicada sensibilidade do autor (todo o autor é por definição uma alma delicada).

Deixem-me então dizer a abrir que este livro, nas suas 520 pp., trata e não trata do tema que o título enuncia, e que logo na p. 19 se apresenta assim: “Todo este trabalho, toda esta pesquisa, todas estas páginas, resumem-se a uma ideia simples: o princípio de que quantas mais pessoas falarem a mesma língua, menos guerras haverá no mundo”. A minha restrição tem a ver com o facto de este ser um livro sobre isto que assim se descreve, mas ser também um livro sobre quase tudo, o que torna difícil a intervenção de quem tem, como é o meu caso, uma competência limitada e tem de selecionar apenas uma delgada fatia de um bolo com inúmeras camadas. Quanto ao trabalho, convém ser justo e admitir que foi muito. Embora, sendo igualmente justo, convirá confessar que o trabalho de campo do autor decorreu muitas vezes em resorts, hotéis, almoços e jantares na praia ou em lugares turísticos nos vários continentes, em inúmeros países e locais. Rodrigo Moita de Deus, esclareço, não beneficiou de uma generosa bolsa FCT (não estou, de resto, a apelar à denúncia por meio, sei lá, de um Alerta CMTV do tipo “Vejam para que serve o dinheiro dos contribuintes”). Beneficiou sim, e isso percebe-se ao ler o livro, de um inexcedível senso prático, que o levou a usar muito produtivamente as suas ocasiões de trabalho para ir pensando e escrevendo o livro, demonstrando assim mais uma vez como uma obsessão pode comandar e ordenar a nossa relação com o mundo. Quem fez uma tese sabe bem do que estou a falar: lê-se um artigo no jornal O Jogo, o único jornal desportivo que diz a verdade, e ele tem a ver com a tese; come-se iscas de cebolada e elas têm a ver com a tese; e compra-se uma t-shirt com a cara da Nicki Minaj porque ela tem a ver com a tese. É um pouco o que ocorre com este livro, que mistura ocasiões familiares, conversas com amigos, viagens de trabalho ou em turismo, sessões profissionais, com o obsessivo trabalho em torno da ideia central do livro, nas suas muitas ramificações, ou não estivéssemos a falar de um tijolão, como diriam os brasileiros. Continue reading


Desbundados e Porraloucas. A Contracultura Revisitada

Um colega estrangeiro (e residente no estrangeiro, embora nem sempre), a quem o meu convite para participar neste colóquio não seduziu o bastante, comentou por mail que o elenco de intervenientes era já bastante bom, sobretudo por incluir estudantes e recém-doutorados. E acrescentou: “Que os estudantes falem e que o debate se torne autobiográfico! ‘O que é que o Sr Doutor fez durante a primeira grande guerra cultural?’” [1] No meu caso, era demasiado jovem para fazer outra coisa do que dançar, com calças de boca de sino e sapatos de tacão alto, ao som de La décadanse de Serge Gainsbourg. Sem grande consciência de estar a participar na Primeira Grande Guerra Cultural, pois aquela era simplesmente a cultura em que me movia e respirava, na pré-adolescência.

Muito reveladoramente, o título deste colóquio suscita de imediato problemas que são filológicos por serem autobiográficos, ou ao invés. O título, esclareça-se, pertence ao reitor da Academia Alternativa Porralouca, Alcir Pécora, que respondeu ao meu pedido de ajuda em matéria de título com aquele que foi logo eleito (faço notar que a primeira palestra sobre “Contracultura, experimentalismo e desbunde na prosa brasileira dos anos 60 e 70” proferida no IEB pertenceu a Alcir Pécora, no dia 1 de outubro de 2014, tendo-se seguido outras). Quando, porém, me ocorreu traduzir o título nas línguas mais diretamente envolvidas no colóquio, rapidamente percebi que uma competência linguística, ainda que alargada, não bastava para responder satisfatoriamente às exigências colocadas pela tradução. O caso mais espetacular de dificuldade intransponível de tradução é o que ocorre, de resto, entre o português do Brasil e o de Portugal, já que não existe um termo ao qual, em registo autobiográfico, possamos remontar na nossa memória vivencial para traduzir “desbundado” ou “porralouca” para o português de cá. Se percorrermos o Houaiss, o dicionário dirá que porra-louca (com hífen pré-acordo ortográfico) é “aquele que age de maneira inconsequente, louca, irresponsável”. Quanto a desbundado, a lista é vasta, indo de extasiado, maravilhado, deslumbrado até “que adotou comportamento libertino” – o que a entrada desbundar esclarece que se pode dever a efeito de álcool ou drogas –, referindo ainda que se trata de alguém “que largou a atividade política; alienado” (o Aurélio, curiosamente, não menciona esta dimensão política). A tudo isto, menos o desbunde político, que em Portugal não mereceu investimento semântico equivalente, talvez por a situação política, ainda que identicamente repressiva, não ser idêntica (nunca o é), chamava-se por cá “freaks”, ou melhor, “friques”, o que significa que os problemas de nomeação foram resolvidos com um estrangeirismo que virou neologismo. A tradução, resumamos o problema, necessita de uma filologia “geracional” que recupere a gíria em causa para estar à altura do investimento existencial propiciado pela contracultura – já que a alternativa seria uma espécie de tecnocracia da tradução que perderia de visto esse assalto juvenil à linguagem que define a contracultura. Continue reading


A Tradução na Prática – A Prática da Tradução

Na conclusão de um famoso ensaio de 1952, “Filologia da Weltliteratur”, o grande filólogo romanista Erich Auerbach afirma: “De qualquer modo, a nossa pátria filológica é a Terra – a Nação já não pode sê-lo. É certo que a coisa mais preciosa e indispensável que o filólogo herda é a língua e a cultura de sua nação; mas é preciso afastar-se delas e superá-las para que se tornem eficazes. Temos de retornar, em circunstâncias diferentes, ao que a cultura pré-nacional da Idade Média já possuía: à consciência de que o espírito não é nacional” [1]. Estas palavras, escritas sete anos após o final da Segunda Guerra Mundial, num Festschrift dedicado a Fritz Strich, um dos grandes pensadores da goethiana Weltliteratur, ressoam com um dramatismo particular de novo neste ano de 2022. Mas não é tanto a nota kantiana, de apelo ao cosmopolitismo como condição da paz perpétua, que desejo realçar, e sim a implicação que elas carregam consigo dentro do paradigma filológico: pois admitir que a nossa pátria filológica é a Terra inteira exige de nós o imperativo de um poliglotismo ilimitado, única forma de fazer justiça a essa pátria babélica que é o mundo humano. Como já perceberam, o que quero sugerir é que a alternativa pragmática a esse inalcançável imperativo poliglota só pode obviamente ser a tradução. Contudo, conceber a tradução como alternativa à nossa “pátria filológica mundial” arrasta-nos necessariamente para aquele anátema, muito romântico e muito herderiano, que se abate sobre a tradução enquanto traição à pureza do círculo mágico de cada idioma, supostamente intraduzível – a menos que a tradução se arme de um arsenal de princípios e dispositivos epistémicos, técnicos, mas também ético-morais, o principal dos quais a demanda da equivalência. A este respeito, ou talvez não, gostava de recordar dois textos de Jorge Luis Borges. No primeiro, o seu escasso (e pouco fiável) Ensaio Autobiográfico, o autor argentino recorda que na casa paterna o inglês e o espanhol funcionavam em contínuo e sem verdadeira hierarquia, o que o levou a ler o Quixote inicialmente em inglês; quando o leu, na idade adulta, em espanhol, achou que o texto não estava à altura da tradução… O segundo, o famoso ensaio sobre “Los traductores de las 1001 Noches”, no qual Borges sistematicamente emancipa as traduções em relação ao original, inviabilizando a precedência ontológica e valorativa deste. Como defende Alain Pauls num ensaio fundamental, “Borges invierte de nuevo los términos: no piensa la traducción (el caso) a partir de la literatura (el modelo general) sino la literatura a partir de la traducción”. [2] Continue reading


Environments: Ecologies and (In)Hospitalities

For the 7th time the Portuguese Association for Anglo-American Studies meets at the Faculty of Letters of the University of Coimbra. The specificity of this meeting, dedicated to ENVIRONMENTS: ECOLOGIES AND (IN)HOSPITALITIES, as compared to previous ones, lies perhaps in the fact that it takes place in a context where humanity has been forced to prepare for the end of the world. However, this version of the apocalypse should be corrected, since the world whose end is at stake here is the human world only. I would like to quote at this point the Brazilian indigenous leader Ailton Krenak, who reminds us that “humanity has been detaching itself in such an absolute manner from this organism that is the earth” that “The only nuclei that still consider that they need to stay attached to this earth are those that have been kind of forgotten on the edges of the planet, on the banks of rivers, on the shores of oceans, in Africa, Asia or Latin America. They are caiçaras, Indians, quilombolas, aborigines – sub-humanity. Because there is a humanity that is, let’s say, cool. And there is a more rough, rustic, organic layer, a sub-humanity, a people that are stuck to the earth. It seems that they want to eat earth, suck the earth, sleep lying on the dirt, wrapped in the dirt” [1] (p. 22). Why has modernity become so inhospitable to this humanity that wants to eat and suck the earth? I return to Ailton’s perplexity: “How can we recognize a place of contact between these two worlds, which have so much common origin, but have become detached to the point that today we have, at one end, people who need to live off a river and, at the other, people who consume rivers as a resource?” (p. 51) Continue reading


Adriana Calcanhotto: “Maldito Rádio”

O conto do angolano Ondjaki, “A libélula”, do livro E se amanhã o medo (2005), encena um não-evento – um médico que, ao domingo, enquanto escreve na varanda da sua casa e ouve música, abre a porta a uma mulher que pede um copo de água – harmonizado por canções de Adriana Calcanhotto que se ouvem em fundo: “Na aparelhagem o som acontecia contínuo, ininterrupto. O doutor solidificara este hábito domingueiro: sentar-se no fresco da sua varanda ouvindo, durante extensos momentos, a voz de Adriana Calcanhotto”. O médico, em paz com o mundo, e desde logo com o mundo animal simbolizado na libélula que pousa perto dos seus materiais de escrita, tenta reconquistar memórias, escrevendo: “Gatafunhos, memórias recusadas, esquebras de horas mais sensíveis que escusava aceitar como suas. ‘Eu perco o chão, eu não acho as palavras’ – a voz cantava”. As canções, do disco A fábrica do poema, de 1994, pontuam, comentam, suturam o fio narrativo, feito de quase nada, dessa história em que um homem de classe alta e uma mulher de classe mais baixa se encontram fugazmente em torno de um copo de água, umas breves palavras, e uma voz que canta. A mulher confessa, a certa altura, que ganhou coragem para pedir água naquela casa “ – Por causa da música… Esta voz tão doce”. O médico esclarece de que cantora se trata e a mulher pergunta: “ – É poeta? /– Também.” No final, a mulher deixa a casa e afasta-se lentamente pelo passeio enquanto a música recomeça, pela última vez: “minha música quer estar além do gosto, não quer ter rosto, não quer ser cultura”. A transcrição dos versos não respeita a quebra do verso, sugerindo um contínuo que seria o do som que vem da aparelhagem, na qual o disco toca sem parar, de “Bagatelas” a “Minha música”. Mas sugerindo também que a música das palavras faz corpo com o mundo, estando assim além do gosto e da cultura, o que a intrusão da mulher que responde à música para pedir ali, e não na porta seguinte, o copo de água, parece corroborar (embora, por outro lado, o ritual domingueiro do médico sugira todo um gosto e toda uma cultura que empatiza, dir-se-ia que naturalmente, com a música que vem, em português, do outro lado do oceano).

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Reedição de “Alcateia”, de Carlos de Oliveira

Editado em 1944, o romance Alcateia, de Carlos de Oliveira, viria a ser denunciado pela censura e apreendido. O livro seria reeditado no ano seguinte, mediante alterações efetuadas na secção mais ostensivamente política da obra. Carlos de Oliveira, contudo, não aceitaria publicar nunca mais esse romance, que não seria objeto do trabalho de reescrita a que, a partir sobretudo dos anos 60, se submetem todos os seus romances, bem como a poesia. Pouco antes da sua morte o romance foi retomado, tendo, porém, o projeto sido abandonado. 76 anos depois da última impressão, o romance acaba de ser reeditado pela Assírio & Alvim – uma reedição acompanhada por novas edições de Casa na Duna e Finisterra: Paisagem e Povoamento, que apresentam ainda uma nova solução gráfica para as capas da coleção – com um prefácio de minha autoria, intitulado “Um livro na máquina do tempo”, no qual tento situar a obra, as eventuais razões da sua exclusão do corpus do autor e o efeito da recuperação do livro na sua leitura hoje.


Um pioneiro: Pires Laranjeira

A sala do Instituto de Estudos Brasileiros acolhe hoje esta exposição das obras publicadas por Pires Laranjeira, bem como das teses que orientou ao longo da sua carreira académica. Na minha qualidade de coordenador do IEB, sugeri empenhadamente à Professora Doris Wieser que a exposição tivesse lugar aqui. Fi-lo, para começar, por sentimento elementar de retribuição, pois quando a lecionação da literatura brasileira no nosso departamento necessitou de ajuda, o Professor Pires Laranjeira esteve na primeira linha desse serviço, de forma inteiramente voluntária. Mas fi-lo também porque os vínculos entre o Brasil e a África de língua portuguesa são um dos roteiros obrigatórios do trabalho dos especialistas nessas literaturas africanas, e Pires Laranjeira não deixou de, também ele, os assinalar e destacar no seu trabalho historiográfico ou crítico. Esta sala, digamos assim, realiza hoje, por meio desta exposição, a triangulação entre Portugal, Brasil e África em que o trabalho, e a vida pessoal, de Pires Laranjeira teve lugar na nossa universidade, uma universidade que é cada vez mais um locus privilegiado para a realização quotidiana dessa triangulação, bem como para a reflexão crítica sobre as suas dimensões múltiplas.

O primeiro livro de Pires Laranjeira, do qual trouxe hoje o meu exemplar, Antologia da Poesia Pré-Angolana, contém uma “Introdução” que surge datada de “Luanda, junho de 1974 / Rio Tinto, janeiro de 1975”. Estas datas resumem a situação e a circunstância de Pires Laranjeira, ou melhor, dão a ler a sua circunstância pioneira, já que percebemos que a receção da literatura angolana pelo autor se deu em Angola, em data anterior à revolução de 1974 e em plena guerra colonial – assim como a elaboração do livro se inscreve em plena circunstância anticolonial, já que a escrita mais tardia de Pires Laranjeira nesse livro data de alguns meses antes da independência de Angola. Editado em março de 1976, com capa do mais emblemático designer gráfico do período, João B., aliás João Botelho, o livro integra de direito e de facto a turbulência revolucionária e anticolonial pós-74 – é, aliás, o volume nº 10 de uma coleção da Afrontamento intitulada “Libertação dos povos das colónias” –, que o autor de resto não hesita em assumir na sua Introdução, num discurso que é uma recusa intransigente do colonialismo. Mas o livro acusa também o estado pré-disciplinar de um campo à data ainda sem tradução académica e institucional, e dado tanto a injustiças quanto a mistificações, em três frases reveladoras do “Prefácio”: “Obras individuais e poetas de mérito há poucos. Antologias, em proporção, há muitas. Teóricos oportunistas e distraídos, alguns” (p. 8). A que se acrescenta um esforço de teorização, patente na afirmação seguinte: “O entendimento da Nova Poesia Pré-Angolana tem de ser feito, como é evidente, dentro do contexto de valores e de estratégias locais e não na escala de valores distantes” (p. 24). Esta estratégia de legitimação, muito discutível em sede teórica tanto à data como hoje, é, contudo, justificada em seguida quando o autor, citando o então inevitável Janheinz Jahn, estabelece o contraponto entre a situação europeia do poeta, na sua recusa do consenso burguês e mercantil em torno da literatura, e a situação angolana, em que justamente a missão futurante do poeta se radicava na produção de um consenso emancipatório. Continue reading


Luís Mourão, o fim in medias res

Em 2011, ou seja, há 10 anos, a pretexto dos 33 anos da publicação de Finisterra. Paisagem e Povoamento, de Carlos de Oliveira, reuniram-se em Coimbra, por convite meu e sob a égide do Centro de Literatura Portuguesa, cinco investigadores para uma jornada sobre a obra. A data não redonda, porventura esotérica, mostra bem que se tratava de reunir alguns “maluquinhos de Finisterra”, no caso Manuel Gusmão, Nuno Júdice, eu mesmo, Pedro Serra e Luís Mourão. Do livro depois publicado não consta a comunicação de Manuel Gusmão, já que o seu texto fora entretanto deslocado para o importante volume que dedicou a Finisterra naquela data, com o título Finisterra. O Trabalho do fim: recitar a Origem, livro publicado na editora Angelus Novus e logo depois premiado.

A jornada, bem como o volume dela resultante, levou o título de Depois do Fim. Nos 33 anos de Finisterra. Paisagem e Povoamento, de Carlos de Oliveira. Na minha apresentação do volume, com o título “O meu fim é o meu começo”, invoco esse conhecido verso e comento que “de Machaut a Eliot ou a Carlos de Oliveira, o fim parece ser indissociável da questão do ‘depois do fim’, ou melhor, de um depois do fim tematizado como uma necessária figura do recomeço” (p. 9). E, a propósito do lugar do romance na obra de Carlos de Oliveira, evoco um episódio que me fora contado por Ângela de Oliveira: “Pouco tempo após a edição de Finisterra. Paisagem e Povoamento, Carlos de Oliveira foi visitado por Eduardo Lourenço, no que seria o último episódio de um encontro cujo episódio inicial terá ocorrido na cidade de Coimbra e na Faculdade de Letras da sua universidade, três décadas e meia antes. A certa altura da conversa, Eduardo Lourenço terá perguntado a Carlos de Oliveira: ‘E depois de Finisterra, Carlos?’ Ao que o autor terá respondido: ‘Depois de Finisterra, nada. Acabou.’” (id.)

O texto que o Luís Mourão apresentou à jornada tem o título “O Fim in medias res”, um título que é todo um programa. Uma boa parte do texto é ocupada com uma longa reflexão do Luís sobre a questão do romance contemporâneo português, ou melhor, sobre a questão ou possibilidade da ocorrência do contemporâneo no romance português do século XX (uma questão que sempre habitou a sua alma de “ensaísta do romance português”). A leitura que propõe de Finisterra, a mais historicista e a menos historicista das que o volume integra, é daquelas que fazem pensar longamente e que revelam a que ponto a obra em causa é um dispositivo de produção de pensamento para leitores disponíveis, como era (sempre) o caso do Luís. No início da secção 4 do ensaio, intitulada “O que vem depois do fim”, o Luís afirma: “Em todo o caso, o mais fácil de esquecer em qualquer declinação do problema do fim é que ele seja in medias res. A tentação apocalíptica, mesmo em versões comedidamente seculares, parece impor-se com a naturalidade de quem se sente obrigado a sublinhar um certo ponto limite” (p. 38). E, para se opor a essa “tentação apocalíptica”, o Luís elenca em seguida “três formas de continuar a ler Finisterra depois do fim”. A certa altura, numa espécie de Post Scriptum não declarado, pois essa parte não constava obviamente da comunicação que apresentou à jornada, o Luís reporta-se ao meu texto introdutório ao volume e ao episódio biográfico com Eduardo Lourenço – mas para manifestar a sua discordância interpretativa. Nesse momento, o leitor percebe (pelo menos, eu assim o percebi de imediato ao ler) que a “tentação apocalíptica, mesmo em versão comedidamente secular”, era minha – no que, obviamente, ele estava certo. Para afastar a tentação, o Luís propõe, como disse antes, formas não apocalípticas de ler Finisterra. Por exemplo: “Depois do fim de Finisterra, vem reler Finisterra sem em algum momento invocar a questão do fim” (p. 38). Acrescentando de imediato: “Tarefa impossível, claro”. Ou ainda: “Depois do fim de Finisterra, vem reler o romance português contemporâneo que lhe é anterior como retroativa e verdadeiramente contemporâneo” (p. 41). Ou, por fim: “Depois do fim de Finisterra, vem continuar a ler, porque se continuou a escrever depois do fim de Finisterra” (p. 43). Neste ponto o Luís adianta exemplos: José Luís Peixoto (o Luís sempre foi mais generoso do que eu) e Gonçalo M. Tavares. E conclui, num grande momento teorético: “Dizer que se continuou a escrever depois do fim de Finisterra é afirmar que há obras que nos fizeram falar de um modo diferente do que até aí tínhamos sido capazes de fazer, e que essa diferença não é retrospetivamente encontrável em Finisterra” (id.). Continue reading


Arguições: Marina Guiomar e os prejuízos da especialização

A quarta arguição que aqui publico teve como objeto a tese de doutoramento apresentada por Marina Guiomar ao Programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a 14 de junho de 2012, com o título Especialização e Crítica: Algumas Leituras Excêntricas, sob orientação de António Feijó e Ana Isabel Soares.


A dissertação de doutoramento da candidata Marina Guiomar, na especialidade de Estudos de Literatura e Cultura – Teoria da Literatura, é-nos apresentada, no Resumo que a abre, da seguinte maneira: «A especialização e a tecnicidade dos críticos literários podem ser prejudiciais à interpretação. É falacioso acreditar que há uma essência particular subjacente ao intérprete que lhe confere poderes interpretativos. De igual modo, é um equívoco crer que a interpretação depende de um conjunto de técnicas instituídas a priori, que existe uma rede de instrumentos e de métodos entendidos como a única forma de ler.» No incipit retórico da tese – a cena de Ed Wood entre Johnny Depp e Bela Lugosi – a autora dá-nos a ver Lugosi a fazer de Drácula e a tentar, com o seu gesto caraterístico das falanges, exercer domínio sobre o aparelho de TV, procedimento que de acordo com Lugosi exigiria a observância de dois requisitos: ter dupla-articulação das falanges e ser húngaro. O exemplum é logo em seguida traduzido e rentabilizado pela autora, já que ele demonstraria que é uma falácia crer que «basta ao profissional da literatura ser de uma determinada maneira e integrar uma determinada comunidade, cultural ou intelectual, para exercer ação sobre as obras que o ocupam» (p. 9). A crítica literária, insiste a candidata, «não depende diretamente da especialização e da naturalização daqueles que a praticam, tal como o serpentar da mão de Lugosi não depende da sua condição de húngaro duplamente articulado» (id.). Tomada pelo entusiasmo, a candidata afirma logo em seguida que «O próprio Frankenstein era só, afinal, William Henry Pratt» (id.), nome verdadeiro de Boris Karloff, o actor que o filme de James Whale, em 1931, imortalizou. Permito-me fazer notar que o entusiasmo, de que quer a filologia quer a teoria sempre justificadamente desconfiaram, tende a fazer vítimas entre os defensores da não-especialização, e que é esse o caso aqui, pois Karloff não é Frankenstein no filme de Whale, mas sim «a criatura» de Frankenstein. O lapso, muito comum entre os leitores de Frankenstein (e faço notar como a frase pressupõe uma naturalização de Frankenstein, a obra, como um filme), seguramente uma das (muitas) armadilhas engendradas por Mary Shelley no seu romance genial, poderia ajudar-nos a perceber desde já que é possível redescrever «especialização» de uma forma incoincidente com a da candidata, menos devedora da noção de «método de leitura instituído a priori», ou seja, menos devedora da Era da Teoria, e mais devedora de coisas como certificação de dados, recolha de minudências, enfim, daquilo que é a herança da Era da Filologia. Continue reading


Algumas palavras sobre Carlos Reis

Quando um professor marcante se aposenta, abre-se uma oportunidade para percebermos as marcas que deixou mas também de que modo o seu trabalho foi marcado pelo seu tempo. No caso do Professor Carlos Reis, quer uma quer outra dimensão são reconstituíveis com moderada dificuldade, o que seguramente se deve à extrema visibilidade do seu percurso. Não custa reconhecer a sua filiação inicial nesse momento de grande energia e investimento teórico que foi o estruturalismo (um momento que se tornou moda apoucar, mesmo quando o que veio depois se limitou a um anseio pelo regresso a um statu quo ante, felizmente já impossível), e isso quer nas suas primeiras incursões queirosianas, quer na narratologia, assim como também não custa perceber o investimento académico e institucional a que procedeu no cânone literário com que trabalhou, com paragem obrigatória em Eça e Saramago, tornando-se a escolha natural para chefiar edições críticas ou coordenar comemorações. Identicamente, é reconhecível um esforço constante de substituição paradigmática, de que daria como exemplo a forma como evoluiu para um modelo de estudos narrativos aberto a variáveis não presentes na versão inicial do seu trabalho narratológico. Todo este trabalho decorreu, porém, como sempre sucede com um professor de carreira longa, num tempo em mudança, no seu caso acentuada pela ocorrência de uma revolução política e de várias revoluções universitárias e educativas. Por essa razão, o nome de Carlos Reis circulou, por várias décadas, entre o ensino superior e o secundário, sobretudo na fase de grande massificação do ensino que ocorreu a partir dos anos 80, já que soube responder às solicitações dessa nova situação produzindo manuais e livros de iniciação à leitura de obras de presença obrigatória nos programas. Tudo isto se traduziu em discípulos, mas também em convites honrosos, desempenhos internacionais e cargos com os quais um certo seu perfil executivo se harmonizou com rara felicidade. Continue reading


“Fahrenheit 451”: ler menos?

“Basta filmar um livro a arder para que as pessoas o amem”. A frase, bem denunciadora da sacralização do livro na nossa cultura, é de François Truffaut e aparece quer nas entrevistas que deu quando do lançamento de Fahrenheit 451, em Veneza, em setembro de 1966, quer nos seus depoimentos e livros, quando se refere ao filme. O problema técnico, aliás – como incendiar livros – suscita vários comentários empenhados a Truffaut nos quais chama a atenção para a dificuldade de queimar livros, pois os livros ardem mal, por serem demasiado compactos, mas também para a beleza visual das páginas que se encarquilham como pétalas rubro-negras sob a ação do fogo. A sua excitação com a questão está bem patente nestas palavras: “As cenas de incêndio são formidáveis! Adoro o fogo! Sempre fui um pouco incendiário” (O Cinema segundo François Truffaut, org. de Anne Gillain, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990, p. 169). Podíamos reter esse comentário, que sugere desde logo que o amor pelos livros vem sempre acompanhado do fantasma da sua destruição, sobretudo pelo fogo. Ou seja, e se me permitem que use palavras de ascendência antiga, não há bibliofilia sem biblioclasmo: o gráfico da expansão da primeira (o culto e a paixão devoradora pelos livros) é sempre acompanhado pela ocorrência do segundo (o enfado ante os livros e o desejo íntimo da sua eliminação). Continue reading


100 anos de Carlos de Oliveira

Que razão sustenta a celebração pública de um escritor, ou seja, de alguém que dedica a sua vida a peneirar as palavras da sua tribo para lhes conferir um sentido mais puro e assim acrescentar algumas histórias ao acervo da sua comunidade? A pergunta, e a razão ou razões que a sustentam, tem em Portugal um sentido especial, uma vez que o dia escolhido para celebrar a nação e as comunidades portuguesas pelo mundo, é igualmente o dia em que celebramos o maior dos nossos poetas. Este gesto, e esta coincidência, são suficientemente raros entre as outras nações para que consigamos resistir a atribuir-lhes algum sentido particular a nosso respeito.

Uma nação, dizia o pensador francês Ernest Renan no final do século XIX, é um plebiscito diário, pelo qual os seus membros decidem, entre outras coisas, aquilo que desejam recordar e aquilo que desejam esquecer. Por outras palavras, o que a nação elege diariamente são as histórias que deseja continuar a contar entre si à roda da fogueira, e quais as que deseja esquecer. Boa parte dos problemas do Portugal contemporâneo residem, estou em crer, na dificuldade em eleger uma história que nos mobilize a quase todos, encontrando nela uma razão para continuarmos juntos. Em perspetiva histórica, o contraste é flagrante, pois os portugueses manifestaram durante séculos a sua preferência por uma história cujos pontos altos ocorreram entre 1498 e 1500, ou seja, entre a viagem de Vasco da Gama e a de Pedro Álvares Cabral. Essa história remota produziu efeitos duradouros na nossa cultura, isto é, na nossa forma de viver, pensar e imaginar, como se percebe analisando a toponímia de qualquer das nossas cidades, incluindo Cantanhede, dos nomes de ruas aos monumentos públicos, pois toda a localidade deste país sonha encontrar nos seus arquivos um descobridor – como é o caso de Pedro Teixeira, descobridor e conquistador da Amazónia, demarcador de territórios e fundador de cidades. Esta história inscreveu-se tão profundamente na nossa psique, tornou-se tão definidora daquilo que desejamos recordar, que de cada vez que alguém, ao longo dos séculos, de Diogo do Couto, coevo e amigo de Camões, a Amílcar Cabral, na antiga África portuguesa, ou a Ailton Krenak, líder indígena atual no Brasil, alertou para a sua contraface tenebrosa – a violência e a crueldade, o roubo e o saque, a escravização e destruição de povos inteiros – a reação imediata foi a de recusar a esse outro lado o direito de memória, deixando imediatamente claro que isso é justamente o que não desejamos recordar, aquilo que nos esforçamos por recalcar eternamente. Continue reading


Escrita & Imagem em livro

Acaba de sair, organizado por Elisabete Marques e Rita Benis, com o patrocínio do Centro de Estudos Comparatistas e do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, o volume Escrita e Imagem (edição Documenta), que resulta de uma série de encontros organizados em torno do tema no Outono de 2018 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sob a égide daquelas duas unidades de I&D. O volume, que reúne 17 ensaios, inclui uma versão do meu ensaio, publicado antes neste site, sobre o filme Paterson (2017), de Jim Jarmusch.



Roberto Piva, diseur: um exemplo cinematográfico

É a última cena do documentário Assombração urbana com Roberto Piva, de Valesca Canabarro Dios (2004). Um zoom inicial muito desfocado apresenta lateralmente algo que reconhecemos como sendo a extremidade dos óculos de Roberto Piva, num plano banhado numa tonalidade azulada e violácea. Piva parece contemplar um filme, de que nos chega apenas o reflexo intenso da luz e o ruído do projetor, convivendo em fundo com a música de Bach que satura todo o primeiro plano do espectro aural. Em seguida, a câmara desloca-se brevemente para esse objeto de contemplação impossível – uma pura e trémula inundação de luz ou, se se preferir, uma pura emulsão de película –, e por fim, após um corte discreto, o plano fixa-se no perfil de Piva, semimergulhado numa treva apenas quebrada pelos reflexos da luz da projeção no seu rosto. Não nos é concedido ver aquilo que Piva contempla, pois nunca acedemos ao contracampo, com exceção da breve exemplificação acima referida: o perfil recortado de Piva é agora o (nosso) ecrã, consoante o tremeluzir da luz do filme no seu rosto. Que filme será esse que Piva contempla e nele se reflete? Vou alimentando algumas hipóteses, que me ajudam a ver a cena, a pensar Piva e a relação da sua poesia com o mundo da história e, antes dela, com o mundo da mente. Creio que preciso delas para acabar de ver o filme e para que esta cena faça sentido para mim. Mas por agora quero concentrar-me nessa imagem do perfil de Roberto Piva vendo no escuro um filme enquanto o ouvimos dizer o extraordinário texto “O século XXI me dará razão”, que reproduzo aqui: Continue reading


Vox Media: começar

O Grupo de Investigação sobre Mediação Digital e Materialidades da Literatura, no âmbito do Centro de Literatura Portuguesa, organiza-se em torno de três eixos de pesquisa: 1) EX MACHINA: Inscrição e Literatura, 2) RE CODEX: Formas e Transformações do livro, e 3) VOX MEDIA, até aqui subintitulado “O Som na Literatura”.

Por razões de teor epistemológico, que se prendem com a indeterminação e latitude excessiva do tema do “som”, o projeto VOX MEDIA passa a focar-se no estudo d’ “A Voz na Literatura”, aliás e, de facto, o seu âmbito desde sempre. Esta especificação não obsta a que, em regime tangencial ou sempre que a temática da voz o solicite, uma expansão do âmbito do projeto para os territórios do som se venha a verificar. Trata-se apenas de optar por um foco mais decidido no fenómeno, de resto vastíssimo, da Voz.

O projeto foi, pois, objeto de um esforço de redescrição, nos termos do texto que em seguida se publica. Este esforço, a que se seguirá a divulgação de uma série de iniciativas a realizar ao longo de 2021, assinala uma nova fase do projeto, que se pretende a um tempo mais aberto (o que pressuporá uma maior insistência na divulgação, mas também no acolhimento de colaboração de pessoas exteriores ao projeto) e mais focado na tradução dos trabalhos dos seus membros em publicações e, a prazo, na criação de um arquivo digital de registos sonoros de práticas literárias e performativas, cuja urgência vai sendo manifesta.

Almada Negreiros intitulou “Começar” a obra central da sua fase tardia. Sem tanta história, mas com quase tanta juventude quanto Almada, VOX MEDIA começa agora de novo. Vocês ainda não (ou)viram nada…

VOX MEDIA: A Voz na Literatura

Descrição do Projeto

A naturalidade com que a ideia de literatura se traduz na ideia de texto e, esta, em «letras impressas em papel», é provavelmente responsável pela versão unilateral que o senso comum, bem como a doxa crítica, a todo o instante transmitem da relação do leitor com ela: a literatura é algo que se lê em silêncio. Ou melhor, a literatura é um texto que devém livro por meio de um processo de inscrição que, também ele, se torna invisível, uma vez que a materialidade do texto se anula em função daquilo que nele se transmite: ideias, significados, sentidos, enfim, conteúdos. Continue reading


Arguições: Ricardo Namora e três argumentos clássicos da Teoria da Literatura

A terceira arguição que aqui publico teve como objeto a tese de doutoramento apresentada por Ricardo Namora ao Programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a 30 de outubro de 2009, com o título Juízos Literários. Argumentos, Interpretação e Teoria da Literatura, sob orientação de António Feijó e Miguel Tamen. A tese viria a ser editada pela Imprensa da Universidade de Coimbra com o título Teoria da Literatura e Interpretação: o século XX em três argumentos (2014). No texto prefacial à edição de 2014, o autor responde a algumas das minhas objeções.


A dissertação de doutoramento de Ricardo Namora, na especialidade de Teoria da Literatura, apresenta o título Juízos literários. Argumentos, Interpretação e Teoria da Literatura. Convenhamos que era difícil apresentar um trabalho de forma menos sexy. Noutra formulação, era difícil apresentar uma portada mais académica. A verdade deste desinvestimento retórico mora porém noutro lugar, creio, pois não se trata apenas de nos recusar desde o início o consolo de uma linguagem ornamentada, ou a ficção de que uma linguagem ornamentada «não é como as outras». O que o autor desta impressionante demonstração do trabalho da teoria – este impressionante «teorista», para usar um neologismo do seu agrado – faz desde o título é demover justamente o título do seu lugar de privilégio na economia textual da obra, o privilégio do começo, sugerindo assim que desde o início nos encontramos in medias res. O ponto é aliás central na economia argumentativa da dissertação e, por assim ser, permito-me saltar para o meio e para as duas metáforas opostas que o autor, seguindo Simon Blackburn, recenseia na epistemologia moderna: a da pirâmide e a do barco. A primeira, que «procede de modo cumulativo ou incremental, a partir de um substrato fundacional imune ao cepticismo» (p. 197), está pelos argumentos de tipo fundacional que nos propõem que «há um conjunto de proposições irrefutáveis que são pré-existentes a todo o processo subsequente do conhecimento» (id.). A segunda «descreve o conhecimento como uma embarcação que navega sem fundações, devendo a sua força à estabilidade fornecida pela interacção das suas partes constituintes» (id.). Trata-se de uma posição holista, que «subscreve formas particulares de coerentismo como garante do conhecimento» (id.) e que, em nota, o autor refere a Neurath, autor para quem «o corpo do conhecimento é comparável a um barco que deve ser reparado em alto mar (sem recurso a estaleiros fundacionais)» (id.). «Cabe-nos a nós, assevera o autor num dos seus sóbrios momentos de entusiasmo, enquanto marinheiros, reconstruir o barco mesmo tendo em conta a impossibilidade de o fazer na totalidade – uma vez que uma parte do seu corpo está imersa. Qualquer porção da embarcação pode ser substituída, desde que haja uma plataforma suficiente no que reste do barco para acolher os marinheiros» (id.). Continue reading


André Jorge e os Livros Cotovia

A notícia chegou há uns meses: os Livros Cotovia vão fechar. Não é, infelizmente, uma surpresa, tantas vezes aguardei esta notícia nos últimos anos, depois e mesmo já antes da morte de André Jorge. Com esta notícia, porém, alguma coisa morre também em mim, quer porque há menos um sítio no meu roteiro pessoal de Lisboa, quer porque enquanto houvesse novos livros da Cotovia a memória de André Jorge se prolongaria naturalmente, se o posso dizer assim.

Em certas coisas, André Jorge era um português típico, mais baixo do que alto, algo pesado, amante de vinhos e da boa mesa, dado a conversas sem prazo nem rumo fixo, oficiante, também ele, do culto de Amália. Noutras, não o era: falava baixo e em tom suave, dificilmente perdia a compostura, não apreciava futebol nem piadas brejeiras. Era tímido, o que se traduzia numa sociabilidade regida por regras de decoro defensivas, a começar pelas formas de tratamento, que usava com consciência, de forma a garantir a distância que só a prazo aceitava diminuir. E tinha uma repugnância instintiva por aquela coisa portuguesa da palmada nas costas e tratamento imediato por tu, ponto em que coincidíamos.

Para mim, André Jorge funcionava como um amigo mais velho, com quem aprendi até ao fim. Sobre vinhos, para começar, na razão inversa da minha incompetência técnica na matéria. Sobre os meandros da luta política no período pré-revolucionário e revolucionário, bem como sobre a incultura estrutural da classe política, que, na sua geração, conhecia demasiado bem. Mas também sobre Georges Simenon, coisas várias da França, da chanson aos queijos, e sobre o Brasil – visitámos uma vez a Bienal do Livro de São Paulo, com Diogo Dória, para assinalar o lançamento da Inimigo Rumor como revista brasileira e portuguesa, e pude então aperceber-me do muito que sabia sobre o país, o que o levou, por exemplo, a escolher um hotel modesto, mas com a vantagem de ficar mesmo à beira do Bixiga, bairro dos seus amores. E, claro, sobre o mundo e o submundo dos livros. Aconselhou-me muitas vezes em matérias ligadas à Angelus Novus, Editora e ganhei mesmo o hábito de lhe telefonar, quando tinha dúvidas sobre aspetos técnicos de edição ou de relacionamento com os agentes do mercado. Era um homem de fidelidades: às suas paixões – desde logo, a uma certa ideia de literatura e cultura – e aos seus amigos, o que explica o perfil do catálogo dos Livros Cotovia, chancela criada em parceria com o seu irmão João Miguel. Por isso mesmo, nunca lhe foi possível mudar no sentido que supostamente o mercado pedia, já que, do grafismo dos livros (é-me difícil pensar nos livros da Cotovia sem integrar o seu grafismo no continuum do trabalho de João Botelho que, desde A Regra do Jogo, marcou a edição portuguesa após a revolução, trabalho sobre o qual Joaquim Manuel Magalhães fez um dos poucos textos de que até hoje dispomos) aos autores e géneros eleitos, tudo fazia sentido com o seu perfil e as suas fidelidades. Por tudo isto, ter integrado o catálogo dos Livros Cotovia é uma das coisas de que me orgulho.

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Mundo Escrito: entrevista

O site Mundo Escrito está a realizar uma série de entrevistas, sob o título geral “Referenciais Luso-brasileiros da Crítica Literária”. O primeiro entrevistado foi Paulo Franchetti, professor da UNICAMP com vasta obra quer sobre literatura brasileira, quer sobre portuguesa. Fui o segundo entrevistado e a entrevista, dedicada sobretudo a matéria brasileira, pode ser lida aqui.


Vítor Aguiar e Silva, prémio Camões

Vítor Aguiar e Silva foi ontem distinguido com o Prémio Camões. Creio poder dizer que para os que tiveram o privilégio de ser seus alunos, o dia de ontem foi um dia feliz. Se calhar porque todos sentimos, uma vez por outra, que o deslumbramento que nos tomou na sala de aula não chegou nunca a ganhar tradução fiel, ou sequer aproximada, na vasta produção escrita do nosso mestre. Não é fenómeno único, como se sabe, e muitos falaram antes da forma como a experiência irredutível da sala de aula, experiência formativa sobre todas, parece ter dificuldade em viver para lá da voz e da presença do professor. O que dificulta, ou mesmo impossibilita, a tradução da lição dos mestres em método replicável, coisa por que a escola tanto (erroneamente) anseia, como inversamente o ensino, enquanto encontro com o singular de cada estudante, tanto põe em causa.

Quando fui seu aluno, Vítor Aguiar e Silva era um professor maduro. Todas as aulas eram rigorosamente planificadas e acompanhadas por um guião manuscrito a que ia recorrendo. O modelo era magistral, o professor falava, abordando um tópico em modo panorâmico ou detalhado, eu escutava encantado e ia tomando algumas notas. O efeito inibidor do modelo sobre as intervenções dos estudantes era palpável e contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que me atrevi a falar (mas lembro-me de o professor ter recordado, quase no final do ano, numa prova oral, uma das minhas intervenções, para minha surpresa). Não vejo isso, contudo, como uma limitação, tão evidentes foram os ganhos do modelo para os estudantes de Teoria da Literatura: aprenderam a pesar as palavras e a ponderar a pertinência de cada intervenção. Porque aprenderam, entretanto, uma lição maior: a de que o estudo da literatura não é tagarelice, exigindo por isso muitas vezes um vocabulário próprio, nem a paixão pela literatura uma modalidade de derrame sentimental e histriónico. Pois estou certo de que nenhum estudante de Vítor Aguiar e Silva alguma vez duvidou da sua paixão pela literatura, e suponho que muitos perceberam como era difícil aceder a uma modalidade tão exigente de relação com o objeto. A exigência era manifesta na vastidão de leituras e referências, bem como na atualização bibliográfica, que quase sempre comportava várias referências do ano anterior.

Pude constatar mais tarde, na pós-graduação, que o modelo pedagógico e universitário de Vítor Aguiar e Silva não afastava pessoas de perfil muito diverso do seu, a começar por mim. Pelo contrário, funcionava e funcionou sempre como uma plataforma de acolhimento de perfis intelectuais e humanos heterogéneos, talvez porque Vítor Aguiar e Silva nunca manifestou a tendência, muito popular na academia, para a clonagem, e menos ainda para o sectarismo. E à sua maneira, apesar do privilégio do cognitivo na relação pedagógica, o momento intersubjetivo não deixava de se manifestar, sempre que a ocasião se propiciava. Curiosamente, é esse o período que associo aos seus ensaios mais livres, menos reféns do império cientificista da Teoria, pelo qual, contudo, ainda oficialmente jurava. Mas oficiosamente a Desconstrução fazia o seu caminho, e bem mais na sala de aula do que nos textos que então publicava.

Aos 81 anos de idade, Vítor Aguiar e Silva publicou um novo e vasto volume, com o título Colheita de Inverno. Quem o conhece sabe que continua a comprar pilhas de livros, a ler e a escrever (“Leu o último livro de X?”, perguntava-me num dos nossos últimos encontros). O mesmo é dizer que continua a recordar-nos, agora ao longe e por sinais de fumo, o essencial da sua lição.

Falta dizer que ninguém merece mais um prémio com o nome do nosso maior do que Vítor Aguiar e Silva, camonista de toda a vida.

Muitos parabéns, caro professor!


Conferências do Cinquentenário da Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva

Como aqui na data devida se assinalou, realizaram-se em Coimbra e Braga, nos dias 16 de novembro e 15 de dezembro de 2017, as Conferências do Cinquentenário da Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva, em co-organização das duas universidades e com a participação de conferencistas de várias universidades do país e do estrangeiro. O livro com o mesmo título, organizado por Rita Patrício e por mim, acaba de ser editado pela Editora da Universidade do Minho, podendo o pdf ser descarregado.

Caso as limitações impostas pela situação da pandemia da Covid 19 o permitam, será realizada uma apresentação do volume, em data a anunciar.


Gramatiquinha radiofónica

Acaba de ser editado um novo volume da Revista de Estudos Literários, subordinado ao título geral “As palavras (in)visíveis: Estudos para Carlos Reis”, assinalando a sua jubilação. Organizado por Ana Paula Arnaut e Ana Teresa Peixinho, o volume inclui um ensaio meu, com o título “Gramatiquinha radiofónica: Mário de Andrade e o corpo político da língua”.

Um resumo possível do texto seria este:

Este ensaio aborda a questão da língua em Mário de Andrade, tal como foi longamente tratada, embora fragmentariamente, na sua Gramatiquinha da Fala Brasileira. Num segundo momento, analisa-se a forma como a rádio relança a questão, ao solicitar uma modalidade de língua que pressupõe formas de contrato (linguístico e social) próximas daquelas que o autor vinha apresentando desde a eclosão do modernismo paulista.


Poderes da literatura

O LONDRIX, Festival Literário de Londrina (Paraná, Brasil), no qual deveria participar em maio próximo, convidou-me a gravar uma intervenção em vídeo destinada a lançar um debate em que participarei online, se o festival se vier ainda a realizar neste ano de 2020. Dei à minha intervenção, que se pode ver no YouTube, o título “Poderes da literatura”. Continue reading


A Tipografia Damasceno, depois da tipografia

Situada na Rua de Montarroio, 45B, em Coimbra, a Tipografia Damasceno, dirigida já há anos por Rui Damasceno, e que se promove com um belo logótipo que reproduz um prelo de madeira antigo e com a frase “Execução rápida e perfeita de todos os trabalhos tipográficos que exigem qualidade”, atingiu em 2019 a idade redonda de 50 anos. Por ocasião da efeméride foi lançado um volume, cuja conceção gráfica pertence à Editora dos Tipos, de Joana Monteiro. O volume existe em duas cores de capa – amarela e vermelha, a segunda de maior impacto mas menor legibilidade, como tantas vezes ocorre – e o primeiro desafio que lança ao leitor é o de decifrar o seu código de leitura, o mesmo é dizer, de manuseamento. É possível abrir o livro, desencaixando a dobra da capa, e percorrê-lo na sequência “normal” de um livro, que logo nos permite constatar que este livro consiste em dois grossos cadernos agrafados, o primeiro com 64 páginas e o segundo com 80, em cores diferentes, o primeiro, azul e em papel de 50 gramas, o segundo, marfim e em papel de 70 gramas. A diferente gramagem adequa-se à função de cada caderno ou parte do livro: o caderno azul comporta sobretudo texto, com algumas reproduções a preto e branco (cartas, trabalhos tipográficos, fotografias), destinando-se a recuperar a história e o contexto da Tipografia Damasceno; o caderno marfim recupera basicamente o arquivo da tipografia: cartazes, material escolar, cadernos de registo e contas, comunicados sindicais, livros (com destaque para os da Fenda, nos anos 80), em reproduções a cores. Continue reading