“Or would you rather be a fish?”: sobre ‘Paterson’, de Jim Jarmusch

1. Paterson abre com um plano, e uma cena, de Paterson (a personagem) a acordar, de manhã, na cama com a mulher. O primeiro dia é Monday, e o filme inscreve-o na imagem, naquele registo caligráfico que sugere uma entrada de diário. Começa a semana e começa o filme e começa o diário. O plano e a cena regressam ao longo dos sete dias do filme, em regime de variação (um termo explicitamente usado por Jarmusch em entrevistas sobre o filme), assegurando quer o recorte interno de um bloco diário, quer a continuidade sobre que se estrutura o filme: rotinas diárias, formas de vida, práticas de escrita e de inscrição matérica: os poemas que Paterson escreve no seu caderno, os círculos, traços e manchas a preto e branco que a sua mulher vai pintando pelas superfícies da casa e, por fim, nos cupcakes que leva à feira. Note-se, a propósito disto, que este é um admirável filme sobre o amor (o primeiro poema intitula-se, aliás, “Love Poem”) e, mais ainda, sobre o amor entre duas pessoas particularmente criativas, ainda que com uma diferença: Paterson é um poeta e toda a sua pulsão criativa é canalizada para um meio reconhecível, estável e anacrónico, o seu caderno; a mulher de Paterson, contudo, é uma artista multidisciplinar cujo meio favorito de expressão é a sua casa – mas não apenas, já que a certa altura compra uma guitarra para tentar realizar o seu sonho de ser uma estrela da country –, casa sobre a qual opera com uma tenacidade a um tempo expansiva e muito focada, já que o seu vocabulário é minimalista: preto e branco, círculos e traços.

O quotidiano é o mundo a partir do qual ambos operam, mas se em Paterson tudo se joga num caderno que será ou não um livro de poemas, na sua mulher a casa aspira à instalação e o seu melhor paradigma seria o Merzbau de Kurt Schwitters. 

Paterson, personagem, vive em Paterson, cidade, coincidência aqui e ali notada por outras personagens, em regime mais ou menos irónico. E vive, ainda, no poema Paterson, de William Carlos Williams, poeta que é a sua obsessão pessoal e no qual tudo começa e acaba. Mas isso, a auto-reflexividade irónica mas não cerebral, não obsta a um poderoso subtexto político, que nos apresenta a cidade de Paterson como uma comunidade fortemente multicultural (um ponto destacado por Sérgio Dias Branco, em crítica publicada no Avante) cujo contrato social é enunciado exemplarmente pelo condutor de autocarros de nome Paterson: ouvir (ou melhor, escutar), num regime de curiosidade não invasiva, exatamente como um condutor de autocarros que vai discretamente conhecendo aqueles que conduz, dispondo-se a acolher a heterogeneidade dos discursos dos seus passageiros. O condutor de autocarros seria aqui o ponto de apoio de uma alegoria cartográfica da Cidade enquanto posicionalidade infixa. Uma outra versão desse ponto de apoio de uma tal cartografia seria o dono do bar que Paterson todas as noites visita, mas que contudo não consegue atingir a dimensão de emblema do condutor de autocarros. Paterson seria, assim, a América na qual o outro não é codificado a priori como perigo, o que colocaria o condutor de autocarros no ponto simetricamente mais afastado desse outro condutor chamado Donald Trump. E o seu mandamento político poderia ser reportado a um título também ele emblemático de George Michael: Listen without Prejudice. Continue reading


Poesia XXI: uma coleção sobre a poesia portuguesa de hoje

A Imprensa da Universidade de Coimbra começou a publicar, no final de 2016, a coleção POESIA XXI. A coleção, de que sou coordenador, possui um conselho editorial que integra ainda José Augusto Cardoso Bernardes, atual diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Carlos Mendes de Sousa, da Universidade do Minho, e Pedro Serra, da Universidade de Salamanca.

A coleção, que se inspira no exemplo da coleção «Ciranda da Poesia», editada desde 2010 pela Editora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, sob a direção de Italo Moriconi, responde ao propósito de fazer conhecer mais de perto os nomes mais significativos da poesia e da crítica portuguesas de hoje, além de contribuir para ensinar a ler poesia pela demonstração prática da análise de poemas. Os livros, em formato de bolso, oscilam entre as 80 e as 120 pp., e dividem-se genericamente em duas partes: 1) uma breve apresentação da obra do poeta; 2) uma breve antologia, acompanhada de comentário a alguns dos poemas. A pertinência cultural da coleção dispensa justificação, não sendo por isso difícil prever que venha a conseguir tornar-se rapidamente uma referência entre todos os que, no país e no estrangeiro, se interessam pela poesia portuguesa e, mais latamente, em português, já que virá preencher uma óbvia lacuna editorial. Prevê-se que, numa fase posterior, a coleção se possa abrir ao Brasil e aos países africanos de língua portuguesa. Continue reading


Considerações demasiado pessoais sobre o poeta bissexto Manuel Resende

Creio que o meu primeiro contacto com Manuel Resende foi telefónico. Já o conhecia de livro, quer como poeta quer como tradutor, e de blog, na época da grande explosão desse meio, quando todos os dias nasciam novos blogs, novos autores e novas versões do que seja um autor – e uma dessas versões dava pelo nome, por vezes um tanto agreste, de Manuel Resende. Tínhamos tomado a decisão, o Américo Lindeza Diogo e eu (na altura, sócios maioritários da Angelus Novus, Editora), de tentar editar um volume de poesia de Manuel Resende e fiquei encarregado de o contactar. Falei com Manuel António Pina sobre o assunto e ele manifestou de imediato o seu entusiasmo com a ideia, uma vez que nutria um grande apreço pelo Resende Poeta, a seu ver insuficientemente valorizado. Da conversa, ou não fosse Pina um conversador sem igual, começou a surgir o perfil lendário de Manuel Resende, o revolucionário de mil episódios de abril (e de antes de abril) ou o poliglota sem par (que, jurava Pina, aprendera alemão lendo O Capital, de Marx, com dicionário ao lado, coisa que o próprio desmente, embora sem me convencer; digamos que prefiro acreditar no Pina).

A estes dois Resendes fui depois acrescentando outros, a partir do momento em que comecei a frequentá-lo em presença: o tripeiro com um gosto perverso por acentuar o sotaque e o vernáculo saboroso, sobretudo se em contexto cosmopolita ou “sulista”; o leitor obsessivo do primeiro Wittgenstein, pela via da sua paixão por lógica e matemática, que o levou ainda a Quine e outros (não me lembro de ter discutido com o Manuel a questão do místico no Tractatus, quando me apercebi, na casa de Santarém, da sua longa leitura da obra, e bem me arrependo disso: fica para a próxima, em Cascais); o fã do “cigano”, isto é, de Ricardo Quaresma, na altura em que ele fazia miséria na ala esquerda do ataque no Dragão, suscitando às vezes telefonemas entusiásticos; o palestiniano com o qual raramente consegui discutir o direito de Israel a existir enquanto Estado; o filólogo, isto é, a pessoa com amor pela linguagem e, antes disso, pelos muitos idiomas do mundo, com quem mantive pequenas e grandes discussões, sempre proveitosas, ou sobre palavras ou sobre filosofia da linguagem, e que sempre me pareceu, enquanto pessoa, a ilustração mais aproximada da temível ambição contida na frase com que Erich Auerbach encerrou o seu grande ensaio “Filologia da Weltliteratur”: “A nossa pátria filológica é a terra inteira”.

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MATLIT: o som na literatura

Acaba de sair o nº 1 do volume 5 da MATLIT. Materialidades da Literatura. O número parte de um dos projetos de pesquisa do Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura, que explora a questão do som na literatura, projeto responsável já pela organização de um colóquio, em 2015, pelo site Vox Media (gerido por Nuno Miguel Neves) e pelo programa da RUC (Rádio Universidade de Coimbra), Hipoglote (produzido por Tiago Schwäbl). Reproduzo aqui o texto que anuncia a revista no site do referido Programa:

“Foi publicado o Volume 5.1 (2017) da revista MATLIT: Materialidades da Literatura. Este número, organizado por Osvaldo Manuel Silvestre e Felipe Cussen, intitula-se “Vox Media: O Som na Literatura”. Além da secção de artigos de investigação, esta edição especial inclui uma seleção de quinze obras sonoras com curadoria de Nuno Miguel Neves e Tiago Schwäbl. As obras selecionadas vão desde poemas e narrativas sonoras a paisagens sonoras e remisturas, incluindo gravações dos seguintes autores: Américo Rodrigues, Alfredo Costa Monteiro, John Bennett, Juan Angel Italiano, Luis Bravo, AG Davis, Álvaro Seiça, Ryan Wade Ruehlen e Mark Amerika, John F. Barber, Jessica Barness e Vince Giles, Sandrine Deumier e Philippe Lamy, Ryan LaLiberty, Vladimir Vladda Miloykovitch, Sara Pinheiro e David Prescott-Steed. Na secção de entrevista, os leitores encontrarão a transcrição de diálogos entre cinco autores chilenos: Martín Bakero, Pía Sommer, Felipe Cussen, Federico Eisner e Fernando Pérez.

Todos os textos se encontram disponíveis em formato html e pdf. Os ficheiros áudio estão disponíveis em streaming e para download. A MATLIT adota uma política de acesso integral livre, podendo todos os textos ser lidos em linha ou transferidos para uso pessoal. O acesso pode ser feito a partir do índice geral.”

Com este número, o projeto “Vox Media. O som na literatura” estabelece uma parceria internacional com um importante investigador chileno na área das práticas sonoras, Felipe Cussen, parceria que esperamos se venha a alargar no futuro, na América e na Europa.

O número deve-se, em grande parte, ao trabalho de Nuno Miguel Neves e Tiago Schwäbl, na seleção de obras sonoras. E ao trabalho de Sandra Bettencourt na gestão do fluxograma da revista. Mais uma vez, porém, a intervenção de Manuel Portela foi insubstituível. A partir do próximo número, e também por ser de elementar justiça, a revista passará a ser dirigida apenas por Manuel Portela.


Mark E. Smith (1957-2018)

“I always thought the pure essence of rock’n’roll was a completely non-musical form of music. Rock and roll is surely not a ‘music’ form. I hate it when people say, ‘Oh, but the production’s so bad on it and I can’t hear the lyrics properly’. If they want all that then they should listen to classical music or Leonard Cohen – who’s nothing but ‘poetic’. I’m not about that. Writers like that are too serious and precious about their ‘craft’ as they call it. There’s no fire or danger there, because they’ve thought all of it out.”

Renegade. The Lives and Tales of Mark E. Smith, Penguin Books, 2008, p. 115.

Bill is Dead



Arguições: Maria Paula Morgado Sande e o ensino da literatura

A arguição de uma tese de doutoramento é um momento particularmente relevante da vida universitária e do percurso de um professor. Para o doutorando, a conclusão da tese representa o reconhecimento, pela instituição, da sua capacidade, enquanto investigador, para a integrar plenamente. Esse reconhecimento, porém, pressupõe a demonstração, pelo candidato, não apenas de capacidade para levar a cabo um trabalho de pesquisa de grande exigência, mas também de capacidade para suportar e retorquir a uma inquirição intensa, mais ou menos adversarial. O convite para um júri de doutoramento representa, por seu turno, não apenas uma distinção mas uma responsabilidade: a de avaliar um trabalho de investigação, praticando assim a avaliação por pares que define as regras do jogo na vida universitária.

Na tradição portuguesa, as provas académicas são públicas, constituindo o público, em rigor, a condição de verdade das provas: fechar a porta em provas académicas seria um ato suspeito, tê-la aberta garante a transparência e, em caso de incorreção formal, a possibilidade de sindicância. Nesta ótica, todas as intervenções em provas académicas são públicas. Por esta razão, passarei a publicar neste site, sob a rubrica “Arguições”, algumas das minhas intervenções como arguente em júris de doutoramento, de entre as que entendi por bem escrever. Espero contribuir assim para a desmitificação de um evento que ganha mais em ser pensado como uma celebração pública das virtudes da argumentação racional que define a universidade do que como um momento ritual, mais ou menos folclórico em função de praxes académicas variáveis (que, contudo, têm o dom de assinalar a excecionalidade daquele momento na vida de um investigador). E espero prolongar assim um pouco mais o eco que o trabalho investido nestas teses justifica e que o ruído do mundo tão rapidamente abafa.

A primeira arguição que publico tem como objeto a tese de Maria Paula Morgado Sande, Afeto à Literatura e à Cultura no Contexto Escolar da Pós-Modernidade, dissertação de doutoramento em Estudos Portugueses (variante ‘Literatura Portuguesa do Século XX’), sob orientação de Ana Paula Guimarães e Teresa Sousa Almeida, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa. As provas tiveram lugar na FCSH a 29/01/2008.


A dissertação de doutoramento em Estudos Portugueses (na variante ‘Literatura Portuguesa do Século XX’), apresentada pela candidata Maria Paula Morgado Sande, com o título Afecto à Literatura e à Cultura no Contexto Escolar da Pós-Modernidade, é uma obra paradoxal desde o título, que em rigor o não é, já que é antes uma reivindicação de tipo ético-moral. Esta flagrante ausência de título convive porém com uma prática, sistemática ao longo da dissertação, de longuíssimos subtítulos descritivos que introduzem, em mise-en-abîme, dir-se-ia, o problema maior deste trabalho, em meu entendimento: uma tendência incontrolada para a magnitude, responsável pelas suas dimensões verdadeiramente gigantescas: 1066 pp. seguidas de um anexo documental de 254 pp. e 2 CD’s com material audio (a que ficou a faltar pelo menos 1 DVD, por razões técnicas explicadas de forma perfeitamente aceitável pela autora).

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Má dicção e maldição

O que é um poema mal dito? De acordo com que norma, e estipulada por quem, aferimos esse mal dizer? A criança que na sala de aula se engasga ou come sílabas ao ler Camões ou Pessoa, diz mal? A multidão que, num jogo da seleção (a de futebol, pois só ela permite a antonomásia: ao pé do futebol todos os outros desportos são formas parcelares de nomeação da nação), canta o hino e choca contra os «egrégios avós», reinventando-os como pode, diz (canta) mal? O ator que ao dizer o poema se esforça por esbater ênfases, treinado que foi no horror à demagogia da tónica, e usa toda a sua arte para restituir a plenitude de cada sílaba, diz bem?

Mas o que é dizer bem? Uma questão de projeção, altura, articulação? Um equivalente daquilo a que na música chamamos afinação? Ou, antes, de intensidade? A voz é sempre mais do que um débito físico-acústico, mas o seu mistério começa aí, nesse débito que emerge de um local aparentemente situável – o aparelho fonador – mas desequilibrado na relação causa-efeito. Pois quando emerge, e na medida em que emerge sempre de uma profundeza, a voz é imprevisível (produzindo por vezes um reconhecível efeito cómico, sempre que a um corpo volumoso corresponde uma vozinha, ou ao invés) e só a posteriori cola com a pessoa que a produz. Experiência banal, de resto, nestes tempos em que a net nos permite conhecer o rosto de alguém cuja voz, quase sempre, chega só depois. Percebemos então como a voz assina o corpo que a usa, com um efeito de posse quase tão poderoso como o do rosto fotografado que assina o nosso ser político-administrativo. Ou mais poderoso, já que a voz arrasta na sua materialidade toda a questão do inconsciente enquanto coisa que em nós ressoa – do mesmo modo que na mão que me assina há muito mais e menos do que eu. Continue reading


Variações sobre António: um colóquio em torno de António Variações

A culpa de estarmos aqui hoje é da vontade, como cantaria António Variações. A vontade de retribuir um pouco daquilo que António nos deixou, na sua música, na sua versão da cultura portuguesa, na sua ideia larga de mundo, no exemplo de quem não se deixa aprisionar pelo destino, na energia de quem se reinventa até ao fim. Porque António Joaquim Rodrigues Ribeiro poderia ter sido apenas mais um dos portugueses da sua geração que fizeram o percurso da aldeia para a capital, de “Mala nova na mão / Feita de madeira e papelão / Dentro um fato de cotim”, o diploma da quarta classe, “um terço e um santinho”, olhando para trás mas com o pensamento em frente – e, mais tarde, da metrópole para o então ultramar em guerra e, por fim, do Portugal da ditadura para o mundo novo, mas nunca suficientemente novo, da democracia. Mas tudo isso, que era já muito, e para muitos foi ou bastante ou demasiado, era demasiado pouco para António, que foi ver mundo pela Europa, pela América e por onde calhava, regressando sempre português e, contudo, cada vez mais cidadão do mundo. Recordo aqui as fulgurantes palavras que dedicou a esta questão, na canção “Minha cara sem fronteiras”: “Venho da terra de ninguém / E a minha língua não tem país / O meu nome é alguém / E vou daqui para o lugar de além / Meu corpo é tronco sem raiz”. A questão que estes versos enunciam é a do cosmopolitismo, e daí o caráter insatisfatório de qualquer figura e mito da raiz e da nação, propondo na sua vez essa estranha figura de um corpo que é “tronco sem raiz”: uma versão contratual do corpo político, que não cessa de se emancipar da sua origem.

Esta formulação tardia não é a única que a questão encontra em António Variações. A mais popular, e também mais mítica, é aquela que, em versões nem sempre coincidentes, o cantor teria transmitido a Ricardo Camacho, produtor do seu primeiro disco, para enunciar o lugar estético em que situava a sua música: «Entre a Sé de Braga e Nova Iorque». A frase não sugere um ponto de equilíbrio que seria, aliás, impossível de garantir, entre a Sé de Braga e o Empire State Building (ou entre o folclore minhoto e os Velvet Underground ou os New York Dolls); pelo contrário, parece enunciar uma pulsão de desequilíbrio ou de fabricação, não garantida por uma estabilidade identitária prévia – seja ela a da «cultura tradicional» ou a do «cosmopolitismo» –, para qualquer projeto de criação de uma versão moderna do popular. Nesse sentido, o percurso biográfico de Variações parece pressupor uma demanda, mas uma demanda de algo que se produz, fabrica e falsifica pelo caminho, sem ceder a qualquer ilusão de um «encontro pleno com a alma» da cultura portuguesa ou do sujeito com as suas «raízes» e com a sua «verdade profunda», verdade essa também objeto de uma encenação queer no limite do kitsch ou do camp, dando assim a ver, em modo espetacular, a identidade como recodificação. Continue reading


Uma evocação de Carlos Cunha, entre Braga e São Paulo

Quando a Rita (a Professora Rita Patrício) me convidou para participar nesta evocação do Carlos (o Professor Carlos Cunha) vi-me naquela situação de quem não pode dizer que não, embora muito desejasse fazê-lo. Não podia dizer que não pois sempre guardei do Carlos a melhor impressão pessoal, ainda que os nossos contactos não fossem muito frequentes. Mas sabia que, vindo à Universidade do Minho, o reencontraria, naquele gesto de avançar para nós, sorriso rasgado, aperto de mão forte, prolongado num meio abraço acolhedor – tudo isso que comecei por conhecer em Coimbra, quando o Carlos lá frequentou a parte curricular do Mestrado. Obviamente, não é Coimbra que está em causa nessa cena primitiva do nosso encontro mas sim o Professor Aguiar e Silva – uma outra razão para não poder dizer que não. A minha relação com a Universidade do Minho, que é uma relação próxima, sempre foi mediada pelo prof. Aguiar e Silva, e o Carlos sempre foi para mim o Minho (não apenas a universidade), o Prof. Aguiar e Silva e a Teoria da Literatura, tudo isso num compacto peculiar mas reconhecível.

Há um momento na nossa vida em que a morte se torna familiar – e nada volta a entrar realmente nos eixos. Passamos a viver no regime um tanto póstumo de quem ficou para trás, sem perceber porquê, face àqueles que se adiantaram e desapareceram, mais ou menos subitamente. E vemo-nos na situação de quem tem de aceitar o inaceitável e recuperar do passado tudo aquilo que nos permita continuar («Il faut continuer», como dizia, a respeito de outra coisa, ou talvez não, Theodor Adorno). Lembro-me, por exemplo, cada vez mais, do Carlos, da Rita e do José Cândido em Ponta Delgada, no colóquio de homenagem ao Professor Aguiar e Silva, lembro-me das brincadeiras maliciosas (minhas e dos outros) sobre Teófilo Braga, sobretudo numa caminhada noturna, após um jantar, e um tanto por acaso, até ao monumento ao grande positivista e historiador da literatura, no Forte de S. Brás. O pretexto era obviamente o estudo, verdadeiramente impressionante, que o Carlos dedicara, na tese de doutoramento, à obra de Teófilo – e o Carlos ria e entrava no jogo, ao mesmo tempo que garantia que já tinha a sua dose de Teófilo. Mas lembro-me também do tempo longuíssimo que o Carlos teve de esperar pela saída do nº 1 da Revista de Estudos Literários, do Centro de Literatura Portuguesa, um número organizado por António Apolinário Lourenço e por mim, sobre os estudos literários em Portugal no século XX. Tudo se atrasou para lá do previsível e até do aceitável – mas o Carlos nunca protestou e nunca retirou o seu texto, o que seria até compreensível neste tempo de publicação em regime histérico. E, contudo, fora o primeiro a entregar o texto solicitado. Continue reading




Ferreira Gullar: dossiê na ‘Texto Poético’

Já disponível há algum tempo, o último número da Texto Poético, revista do Grupo de Trabalho em Teoria do Texto Poético da ANPOLL, dedica um dossiê, coordenado por Paulo Franchetti e por mim, a Ferreira Gullar. O dossiê inclui 8 ensaios que cobrem um número considerável de áreas da produção lírica de Gullar.

Na secção não-temática da revista, inclui-se um ensaio meu sobre A poesia e a condição pós-média. O caso de ‘Monodrama’ de Carlito Azevedo.


Conferências do Cinquentenário da Teoria da Literatura: discurso de abertura

[Discurso lido na abertura das Conferências do Cinquentenário da Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva, na Sala de S. Pedro da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra]

Reunimo-nos hoje aqui, e de novo no próximo dia 15 de dezembro em Braga, para celebrar os 50 anos de um livro cujo título coincide com uma disciplina definidora das Humanidades novecentistas, quer as tomemos no sentido estrito de estudos literários e filológicos, quer no sentido lato de disciplinas que estudam textos, formas de escrita, inscrição, disseminação de sentido e leitura, já que todas elas sofreram o impacto da Teoria da Literatura. O livro que aqui nos traz teve a grande virtude de saber ser mais do que um livro (e muito mais do que um manual) ao longo destas cinco décadas, mudando pela própria exigência e pressão das circunstâncias de produção e circulação de conhecimento, mas também pela insatisfação permanente e pelo espírito de inquirição que sempre animaram o seu autor, um académico dividido entre a vertigem do acesso às fontes e a consciência de que a ciência, em particular a ciência normal, exige também a capacidade, ao alcance apenas de alguns raros, de produzir terraplanagens para assim abrir panoramas que nos permitam contemplar e situar todo um campo do saber. Mas a Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva foi mais do que um livro, não apenas por ter evitado cristalizar na sua primeira versão – e sim por ter coincidido, em grande medida, entre nós mas não apenas (lembro o impacto da obra no Brasil e na Espanha e na hispano-América), com a disciplina a que foi buscar o nome, e de que se tornou, no mundo universitário que referi, metonímia. Por isso mesmo, é difícil falar deste livro sem falar de muitas coisas que se situam além dele, mas de que ele participa, ao menos em parte: o devir dos estudos literários em geral; o devir da Teoria da Literatura no seu transcurso já secular; a relação entre a Teoria da Literatura, como disciplina moderna, e o seu ascendente clássico, a Poética; a relação entre a Teoria da Literatura e as Humanidades; a epistemofilia que se apoderou dos estudos literários na esteira da Teoria da Literatura; o reforço das exigências da disciplinaridade e, ao mesmo tempo, o imperativo da interdisciplinaridade; as grande ambições (e, acima de todas, as da semiótica e do estruturalismo) e a humildade de quem sabe que no início, e no final de tudo, há sempre um texto e um leitor em luta com ele; enfim, a experiência da sala de aula, o verdadeiro locus do humanista, e o impacto da Teoria no Ensino. Continue reading


Vítor Aguiar e Silva: 50 anos depois

Tem hoje lugar, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a primeira sessão das “Conferências do Cinquentenário” que assinalam os 50 anos de publicação da Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva. Transcrevo o texto de referência do evento:

Em 1967 e, numa primeira ocorrência, em fascículos, foi editada em Coimbra, pela Livraria Almedina, a Teoria da Literatura, de Vítor Aguiar e Silva. Reeditada desde então, profundamente repensada a partir da 4ª edição, de 1981, editada no Brasil e traduzida para espanhol, a obra, que viria conhecer um significativo impacto no Brasil e no mundo hispânico, confunde-se com a história da disciplina introduzida nos curricula universitários portugueses com a reforma de 1957, vindo também a produzir efeitos no ensino da literatura nas Escolas Secundárias do país. Embora o seu autor tenha publicado depois uma série de obras de referência, quer no domínio da teoria da literatura, quer no dos estudos camonianos, dos estudos sobre o maneirismo e o barroco, ou sobre as humanidades, a Teoria da Literatura permanece a obra à qual o seu nome é de imediato associado.

As universidades de Coimbra e do Minho associam-se numa comemoração, que aspira a ser um momento de exigente reflexão académica, dos 50 anos da 1ª edição da Teoria da Literatura, de Vítor Aguiar e Silva. As Conferências do Cinquentenário, distribuídas por duas sessões nas duas universidades, a 16 de novembro em Coimbra e a 15 de dezembro em Braga, discutirão as grandes questões colocadas pelo livro e pela obra de Vítor Aguiar e Silva no domínio da Teoria da Literatura e da sua relação com as Humanidades. O temário a explorar será o seguinte:

1) A Teoria da Literatura entre os livros de Vítor Aguiar e Silva

2) As várias Teoria(s) da Literatura de Vítor Aguiar e Silva

3) A Teoria da Literatura hoje

4) A Teoria da Literatura ao longo destes 50 anos

5) Os estudos literários depois da Teoria da Literatura

6) A Teoria da Literatura e as Humanidades

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Carlos de Oliveira e a ideia do Moderno: colóquio na Casa Pessoa

Na próxima sexta-feira, 15 de setembro, terá lugar na Casa Pessoa, em Lisboa, o colóquio “Carlos de Oliveira e a Ideia do Moderno”. Inserido na programação paralela à exposição do espólio do autor no Museu do Neo-Realismo, o colóquio é uma organização da Casa Pessoa, do Museu do Neo-Realismo e do Centro de Literatura Portuguesa. O texto de referência do colóquio é o seguinte:

A inscrição do Moderno na obra de Carlos de Oliveira ganha a sua formulação talvez mais reveladora no poema que, em 1971, integra Entre duas memórias: «Descrição da guerra em Guernica». Ou seja, uma descrição de uma tela emblemática do pintor emblemático da pintura moderna (Picasso), escolhida décadas depois da sua produção para um exercício que convoca e, ao mesmo tempo, questiona o realismo como prática representacional. Mas o moderno ganha em Oliveira rostos diversos, de Gomes Leal a Cesário Verde, Camilo Pessanha, Maiakovski ou o Nouveau Roman, sem esquecer Fernando Pessoa, objeto de um tratamento muito particular, entre a rasura e a presença cúmplice e silenciosa. Sobre tudo isto, bem como sobre a presença dos novos meios (fotografia e cinema) em Carlos de Oliveira, se falará neste colóquio. Continue reading


Livros & Companhia: sessão 5, com Paulo Franchetti

A sessão 5 teve como convidado Paulo Franchetti, professor na UNICAMP, editor (dirigiu por cerca de 10 anos a editora da sua universidade), ensaísta e poeta. Paulo elegeu, como livro a apresentar, o clássico de R. H. Blyth, Haiku. Eastern Culture, nunca editado em português, e falou da sua longa aprendizagem do Haikai (e do japonês), de que viria a resultar a importante antologia Haikai, editada em 1990, de sua autoria e de Elza Taeko Doi – mas também um livro como Oeste, todo ele preenchido por haikais da autoria de Franchetti. Falou-se, claro, da sua longa dedicação a Camilo Pessanha, patente na sua edição crítica da Clepsydra, e em tantos estudos sobre o autor, e na sua produção ensaística, desde a dedicação inicial à teoria da poesia concreta até ao interesse recorrente pelo romantismo brasileiro ou pela literatura portuguesa do século XIX, em particular. Continue reading


Sobre Daniel Jonas

Se não erro (se não erramos, eu e os motores de busca), o texto que aqui se republica, sobre Daniel Jonas, encomendado em 2011 pela Direção Geral do Livro e das Bibliotecas e em seguida editado online, em tradução em inglês, numa espécie de dicionário de poetas da nova geração, não se encontra já disponível (desconheço as razões). Os livros subsequentes de Jonas tornaram-no talvez o caso mais sério da sua geração na poesia portuguesa, e condenaram o texto ao reconhecível destino de «tentativa de ensaio sobre as primícias de um poeta». O que é simplesmente o preço a pagar pelo trabalho de sondagem do presente, que na altura me mobilizava – tanto quanto me mobiliza o anacronismo, que é também parte do mundo de Jonas. Por exemplo, no teatro de que é também autor: ainda em 2011 escrevi sobre a sua peça Estocolmo, para o Teatro Nacional S. João (o link encontra-se na página Publicações, deste site, secção Outros).



Daniel Jonas
(Porto, 1973) publicou até ao momento quatro livros de poesia – O Corpo Está com o Rei (1997), Moça Formosa, Lençóis de Veludo (2002), Os Fantasmas Inquilinos (2005) e Sonótono (2007, Prémio PEN de Poesia 2008) – e uma peça de teatro, Nenhures (2008). Tem actividade vasta e significativa como tradutor, destacando-se naturalmente a sua tradução do Paraíso Perdido (2006), de John Milton. A «irrupção» de Daniel Jonas na cena literária portuguesa foi retardada pelo facto de os seus dois primeiros livros terem sido editados em circuito restrito, pelo que a sua «revelação» ocorreu apenas com a edição de Os Fantasmas Inquilinos pela editora Livros Cotovia. Se esse facto não faz (ou não fez) justiça à qualidade sobretudo de Moça Formosa, Lençóis de Veludo, por outro lado permitiu que o autor viesse a público já com uma obra maior, embora o perfil da sua poesia, pouco coadunável com o devir maioritário da poesia portuguesa recente, suscitasse estranheza e alguma resistência.

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Livros & Companhia: sessão 4, com José Maria Vieira Mendes

Foto de João Duarte

A sessão 4 teve como convidado José Maria Vieira Mendes, dramaturgo, tradutor e agora ensaísta. O ‘agora’ reporta-se à recente edição do livro Uma coisa não é outra coisa (Livros Cotovia), sua tese de doutoramento, um livro que rima com o segundo volume da sua obra dramática, Uma coisa (Livros Cotovia), de edição também recente, volume que faz de José Maria Vieira Mendes o mais importante dramaturgo português da atualidade.

José Maria escolheu Undoing Gender, de Judith Butler, como livro da sua eleição, e relacionou as teses da autora com o seu trabalho no teatro e com a questão do género na cultura e política contemporâneas. Em seguida falámos longamente do seu ensaio, que no fundo defende uma posição algo intempestiva, na atual cena dos estudos teatrais: basicamente, o seu direito a ser lido como autor de “literatura dramática” e o direito a que os textos dramáticos sejam considerados como algo que não se destina apenas à cena (teatral) mas também à (cena da) leitura. Esta reivindicação, que a cultura dos estudos teatrais em Portugal facilmente recodifica em “conservadorismo”, depara-se, no caso de José Maria, com o problema da inserção do seu trabalho numa companhia tão experimental como o Teatro Praga. Continue reading


Gândara e cultura popular em Carlos de Oliveira: colóquio

Foto de Carlos de Oliveira, Gândara, 1949-1952

No próximo dia 17, sábado, decorrerá em Cantanhede, no Auditório do Centro Social e Paroquial de S. Pedro, um colóquio intitulado ‘Gândara e cultura popular em Carlos de Oliveira’. O colóquio, que integra a programação em torno da exposição do espólio de Carlos de Oliveira no Museu do Neo-Realismo, tentará explorar as questões formuladas neste texto:

Carlos de Oliveira escreveu, em O Aprendiz de Feiticeiro, que a Gândara o tinha «tatuado», e daí a «pouca distanciação» com que dela falava. Qual o alcance dessa «tatuagem» e quais as dimensões da Gândara, e da cultura popular (a local e a não local), que é possível rastrear na obra de Carlos de Oliveira?

O programa do colóquio é o seguinte:

15h
Ida Alves (Universidade Federal Fluminense, Brasil), “Tocar a terra para criar”.

15h30
Rui Mateus (Centro de Literatura Portuguesa), “Representações da Gândara na poesia de Carlos de Oliveira. Um percurso de despojamento”.

16h
Sonia Miceli (Centro de Estudos Comparatistas), “Sinais de chuva. O pensamento da paisagem de Carlos de Oliveira e Ruy Duarte de Carvalho”.

16h30
Pausa para café Continue reading