Gramatiquinha radiofónica

Acaba de ser editado um novo volume da Revista de Estudos Literários, subordinado ao título geral “As palavras (in)visíveis: Estudos para Carlos Reis”, assinalando a sua jubilação. Organizado por Ana Paula Arnaut e Ana Teresa Peixinho, o volume inclui um ensaio meu, com o título “Gramatiquinha radiofónica: Mário de Andrade e o corpo político da língua”.

Um resumo possível do texto seria este:

Este ensaio aborda a questão da língua em Mário de Andrade, tal como foi longamente tratada, embora fragmentariamente, na sua Gramatiquinha da Fala Brasileira. Num segundo momento, analisa-se a forma como a rádio relança a questão, ao solicitar uma modalidade de língua que pressupõe formas de contrato (linguístico e social) próximas daquelas que o autor vinha apresentando desde a eclosão do modernismo paulista.


“A Abóbada”, de Alexandre Herculano: uma apresentação

Alexandre Herculano (Lisboa, 1810 – Santarém, 1877) foi escritor, historiador, jornalista, mas também agitador político, exilado e soldado, pelo lado liberal, contra os absolutistas, na guerra civil que dividiu Portugal entre 1828 e 1834, e ainda deputado e preceptor do príncipe D. Pedro V, entre outras coisas. Seria talvez mais adequado descrever uma pessoa com um perfil tão vário e complexo como um “intelectual romântico”, isto é, alguém cuja vida decorre em larga medida no espaço público, por meio do impresso, e ao serviço de uma ideia de imaginação comunitária que só podemos qualificar como romântica. Este intelectual, cuja intervenção cívica marcará várias gerações de intelectuais portugueses, não possuía, contudo, estudos superiores, já que a modesta condição familiar não lho permitiu, tendo feito a sua formação em instituições da Igreja e das Forças Armadas (a Academia da Marinha Real). Neste sentido menos amplo, Herculano é um intelectual romântico porque é alguém animado de uma profunda crença na sua missão e, antes dela, no seu “génio”, crença que o conduzirá a polémicas tão fraturantes como a que manterá com a Igreja, a partir da publicação do primeiro volume da sua História de Portugal, em 1846, e, sobretudo, com a publicação dos opúsculos Eu e o Clero e Solemnia Verba, em 1850, textos com os quais reage às acusações de blasfémia lançadas pela Igreja Católica portuguesa devido à forma como, do lado da ciência histórica e de uma crítica iluminista, Herculano pusera em causa certos mitos fundacionais de Portugal que passavam pela aparição de Cristo ao primeiro rei, Afonso Henriques, na decisiva batalha de Ourique, contra os mouros (1139). Ninguém como Herculano conheceu tão a fundo os cartórios conventuais de Portugal, tendo sido mesmo encarregado pela Academia das Ciências de Lisboa de recolher desses cartórios os documentos mais valiosos para a História de Portugal, o que fez entre 1853 e 1854, para a obra Portugaliae Monumenta Historica – o que não obstou ao anticlericalismo que manifestou ao longo da vida, e que se manifestaria ainda, em 1857, quando atacou a Concordata com a Santa Sé, fiel ao seu princípio de separação entre a Igreja e o Estado. Continue reading


“O modernismo como obstáculo”: dossiê na Luso-Brazilian Review

A Luso-Brazilian Review acaba de publicar o seu nº 55, vol. 2, com data de dezembro de 2018, dedicado ao tema O Modernismo como Obstáculo. O dossiê é organizado por Abel Barros Baptista e Clara Rowland, que assinam a Introdução ao volume, de leitura indispensável. Trata-se de uma tentativa de revisão da forma como o triunfo crítico, institucional e pedagógico do modernismo brasileiro dificultou a produção de alternativas criativas e teóricas, não obstante a real produtividade do paradigma modernista durante décadas. O dossiê retoma boa parte das comunicações apresentadas ao colóquio com o mesmo título, organizado pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, nos dias 22 a 24 de novembro de 2017, na Biblioteca Nacional, em Lisboa, dentro do programa de atuação da Rede de Professores de Literatura Brasileira em Portugal.

O dossiê inclui um ensaio meu, “Um elenco dos obstáculos”, um esforço para sistematizar o conjunto de obstáculos que o modernismo hoje representa para quem deseja pensar criticamente a fenomenologia novecentista da literatura brasileira.