A Biblioteca na era da indiferenciação entre humanos e máquinas

A minha contribuição para esta mesa-redonda de tema tão ambicioso (1) é deliberadamente modesta, limitando-se a apresentar uma coisa, definível como algo entre um dispositivo e uma máquina, de que tomei conhecimento na Biblioteca da Universidade de Maastricht, na Holanda. A coisa chama-se Mindfulnest [uma extensão e brincadeira com Mindfulness], que traduzirei por Ninho de Meditação, descrita online como “uma cabina concebida com um propósito de relaxamento”. “Aqui, afirma-se, você pode recuperar o fôlego, escutar os exercícios de meditação e mindfulness oferecidos, sentar-se em silêncio ou usar a sua própria app de meditação”. Na mesma página, pode ler-se que “Dentro do Ninho de Meditação há um iPad que pode ser usado para selecionar meditações, entre outras coisas”. O Ninho esteve instalado temporariamente na Biblioteca e a sua utilização era grátis. Mas não se trata apenas de meditação, enfatiza Pim van den Bos, estudante de Mestrado em Direito, e um dos coordenadores do Wellbeing Movement entre os estudantes de Maastricht:

Eu acredito firmemente que experimentar um espaço completamente livre de estímulos já é um grande passo. Não interessa o que as pessoas fazem ali – meditar, rezar ou apenas sentar-se em silêncio. É um lugar onde se pode recarregar as baterias, ganhar novo foco e reduzir o stress. Espero que o Ninho de Meditação conquiste em breve um papel específico nas vidas dos estudantes e do staff em mais instituições do ensino superior.

Completando a descrição com elementos de uma outra página, podemos ler que “Estudantes e membros do staff podem usar o Ninho de Meditação por períodos de 5 a 20 minutos. Num tablet dentro da cabina há sons de fundo e meditações que podem ser postos a correr. ‘Ou então podes trazer o teu próprio telemóvel e auscultadores. E podes, obviamente, sentar-te apenas em silêncio’”. Continue reading


Um glossário (não alfabético) de trabalhos de orientação

Antes de mais, agradeço o convite da Área de Filología Gallega y Portuguesa do Departamento de Filología Moderna, da Universidade de Salamanca, para participar nesta iniciativa tão notável, que nos permite confrontar práticas e ouvir estudantes de doutoramento sobre os seus trabalhos de tese. A minha participação consiste numa reflexão, um tanto autobiográfica e não tanto teórica, sobre alguns (poucos) tópicos relacionados com trabalhos de orientação de teses, um momento fundamental do trabalho na universidadeda investigação, que é ao mesmo tempo, como sabemos, a universidade da burocratização (é uma constatação, não um lamento). Como o meu título sugere, vou abordar os tópicos não por ordem alfabética, mas por ordem de relevância.

Seminário

Desde há pelo menos dois séculos e meio, o doutoramento não é pensável sem a figura do seminário, nascido no final do século XVII nalgumas universidades alemãs, e desenvolvido ao longo do século XVIII, até ganhar a configuração atual na Universidade de Berlim, no início do século XIX. Para todos nós, hoje, a ideia de doutoramento é inseparável da ideia de investigação e esta é inseparável da de seminário – que desde então, como todos os historiadores da questão insistem, funciona para as Humanidades como o laboratório para as ciências (uma analogia mais problemática do que parece, aliás). Foi com o seminário que o privilégio da conferência, mais ou menos magisterial, foi substituído pela nova configuração formativa, muito mais horizontal, assim como o ensino centrado na disputatio – e, por isso, na oralidade – foi largamente substituído pela produção escrita de ensaios, que passaram a ser a fonte da disputatio, que em rigor não chegou a desaparecer, ainda que menorizada pelo privilégio da escrita. Com o seminário veio a rotina burocrática da pesquisa e sua tradução em papers apresentados periodicamente, uma rotina que, a partir de finais do século XVIII, se veio a harmonizar com aquilo a que William Clark [1] chamou o fundamento romântico do novo carisma académico: ser capaz de acrescentar algo de novo sobre um pano de fundo de “ciência normal”, feito das referidas rotinas (as do primado da metodologia e as do calendário do seminário) mas também de produtividade, um percurso que culmina a partir de então na tese de doutoramento (o PhD) enquanto trabalho de pesquisa original. Este ponto é decisivo e voltarei a ele mais adiante. Continue reading


Obsessão e fenomenologia do Brasil

Creio que a primeira vez que estive num evento académico com Eduardo Lourenço foi justamente aqui, em Salamanca, há demasiados anos, num colóquio organizado pela área de Português, então coordenada por Ángel Marcos de Dios. Se não erro, Lourenço tentou nessa ocasião um paralelo contrastivo entre a literatura espanhola e a portuguesa, gesto apenas ao alcance de quem possua um repertório de leituras ao nível daquele que o definia – e sempre, se também o recordo bem, em torno das diversas formas de vivência do trágico dos dois lados da fronteira. É, por isso, auspicioso que esta sessão de apresentação de um livro coletivo sobre a relação entre Eduardo Lourenço e o Brasil decorra em Salamanca, ou seja, naquela Espanha tão próxima historicamente de nós quanto a Universidade de Coimbra, que foi a Alma Mater de Lourenço, está próxima da de Salamanca, universidade que formou as primeiras gerações de mestres de Coimbra. E não é possível descurar a evidência de que, sem o empenho da Universidade de Salamanca no Centro de Estudos Ibéricos, quer através do Colaboratorio Europeo de Estudos Brasileiros – Grado em Estudios Portugueses y Brasileños, quer através do Centro de Estudos Brasileiros, todo o processo que hoje culmina na apresentação pública deste livro teria sido muito mais difícil, para não dizer impossível. Enquanto organizador deste volume, desejo, pois, agradecer a todas as entidades e pessoas desta universidade envolvidas no colóquio que se realizou na Guarda, a 13 e 14 de junho de 2023 (que se encontram, de resto, nesta mesa) – e permitam que o faça globalmente na pessoa do Sr. Vice-Reitor, Professor Raúl Sánchez Prieto.

Não é possível, porém, minimizar o trabalho extraordinário que o Centro de Estudos Ibéricos vem realizando na Guarda, em torno da obra e da memória de Eduardo Lourenço, tanto mais que todos sabemos como num país tão centralizado e centralista como Portugal é difícil desenvolver projetos culturais de grande alcance no chamado interior (que em rigor começa a pouco mais de 100 km do litoral e vai até à fronteira com Espanha). Este ano em que Portugal comemora os 50 anos da revolução que exterminou a ditadura e nos libertou da guerra nas então colónias portuguesas em África e do colonialismo, abrindo ao país um horizonte de paz, democracia, integração europeia e desenvolvimento humano e material, é uma ocasião propícia para refletirmos sobre a dura luta pela memória que necessitamos de relançar a cada dia, contra a amnésia que tudo indiferencia, mas também contra todos os revisionismos do passado. Lourenço é uma figura luminosa da luta contra esse revisionismo, como deixou claro em plena revolução com um livro cujo título irónico é todo um programa de denúncia – O fascismo nunca existiu –, mas é também uma figura da luta contra o consenso das autorrepresentações caritativas, como todo o seu pensamento crítico sobre o colonialismo, há poucos anos reunido em livro (um livro muito recentemente reeditado em edição aumentada), deixa bem claro. Não duvido, aliás, que na conjuntura politicamente regressiva que vivemos, em Portugal e em toda a Europa, esse pensamento intempestivo de Lourenço – e que o forçou, durante a ditadura, a publicar vários desses textos com pseudónimos, ou a guardá-los simplesmente na gaveta por longos anos – ganhará um novo gume crítico, face ao retorno de discursos e imaginários que propõem o reencantamento de um passado que só foi encantado nas páginas dos manuais com que a ditadura propunha aos infantes e jovens a História de um Portugal das Maravilhas. Continue reading


Reedição de “Alcateia”, de Carlos de Oliveira

Editado em 1944, o romance Alcateia, de Carlos de Oliveira, viria a ser denunciado pela censura e apreendido. O livro seria reeditado no ano seguinte, mediante alterações efetuadas na secção mais ostensivamente política da obra. Carlos de Oliveira, contudo, não aceitaria publicar nunca mais esse romance, que não seria objeto do trabalho de reescrita a que, a partir sobretudo dos anos 60, se submetem todos os seus romances, bem como a poesia. Pouco antes da sua morte o romance foi retomado, tendo, porém, o projeto sido abandonado. 76 anos depois da última impressão, o romance acaba de ser reeditado pela Assírio & Alvim – uma reedição acompanhada por novas edições de Casa na Duna e Finisterra: Paisagem e Povoamento, que apresentam ainda uma nova solução gráfica para as capas da coleção – com um prefácio de minha autoria, intitulado “Um livro na máquina do tempo”, no qual tento situar a obra, as eventuais razões da sua exclusão do corpus do autor e o efeito da recuperação do livro na sua leitura hoje.


Escrita & Imagem em livro

Acaba de sair, organizado por Elisabete Marques e Rita Benis, com o patrocínio do Centro de Estudos Comparatistas e do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, o volume Escrita e Imagem (edição Documenta), que resulta de uma série de encontros organizados em torno do tema no Outono de 2018 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sob a égide daquelas duas unidades de I&D. O volume, que reúne 17 ensaios, inclui uma versão do meu ensaio, publicado antes neste site, sobre o filme Paterson (2017), de Jim Jarmusch.



Conferências do Cinquentenário da Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva

Como aqui na data devida se assinalou, realizaram-se em Coimbra e Braga, nos dias 16 de novembro e 15 de dezembro de 2017, as Conferências do Cinquentenário da Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva, em co-organização das duas universidades e com a participação de conferencistas de várias universidades do país e do estrangeiro. O livro com o mesmo título, organizado por Rita Patrício e por mim, acaba de ser editado pela Editora da Universidade do Minho, podendo o pdf ser descarregado.

Caso as limitações impostas pela situação da pandemia da Covid 19 o permitam, será realizada uma apresentação do volume, em data a anunciar.


“O modernismo como obstáculo”: dossiê na Luso-Brazilian Review

A Luso-Brazilian Review acaba de publicar o seu nº 55, vol. 2, com data de dezembro de 2018, dedicado ao tema O Modernismo como Obstáculo. O dossiê é organizado por Abel Barros Baptista e Clara Rowland, que assinam a Introdução ao volume, de leitura indispensável. Trata-se de uma tentativa de revisão da forma como o triunfo crítico, institucional e pedagógico do modernismo brasileiro dificultou a produção de alternativas criativas e teóricas, não obstante a real produtividade do paradigma modernista durante décadas. O dossiê retoma boa parte das comunicações apresentadas ao colóquio com o mesmo título, organizado pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, nos dias 22 a 24 de novembro de 2017, na Biblioteca Nacional, em Lisboa, dentro do programa de atuação da Rede de Professores de Literatura Brasileira em Portugal.

O dossiê inclui um ensaio meu, “Um elenco dos obstáculos”, um esforço para sistematizar o conjunto de obstáculos que o modernismo hoje representa para quem deseja pensar criticamente a fenomenologia novecentista da literatura brasileira.


Poesia XXI: uma coleção sobre a poesia portuguesa de hoje

A Imprensa da Universidade de Coimbra começou a publicar, no final de 2016, a coleção POESIA XXI. A coleção, de que sou coordenador, possui um conselho editorial que integra ainda José Augusto Cardoso Bernardes, atual diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Carlos Mendes de Sousa, da Universidade do Minho, e Pedro Serra, da Universidade de Salamanca.

A coleção, que se inspira no exemplo da coleção «Ciranda da Poesia», editada desde 2010 pela Editora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, sob a direção de Italo Moriconi, responde ao propósito de fazer conhecer mais de perto os nomes mais significativos da poesia e da crítica portuguesas de hoje, além de contribuir para ensinar a ler poesia pela demonstração prática da análise de poemas. Os livros, em formato de bolso, oscilam entre as 80 e as 120 pp., e dividem-se genericamente em duas partes: 1) uma breve apresentação da obra do poeta; 2) uma breve antologia, acompanhada de comentário a alguns dos poemas. A pertinência cultural da coleção dispensa justificação, não sendo por isso difícil prever que venha a conseguir tornar-se rapidamente uma referência entre todos os que, no país e no estrangeiro, se interessam pela poesia portuguesa e, mais latamente, em português, já que virá preencher uma óbvia lacuna editorial. Prevê-se que, numa fase posterior, a coleção se possa abrir ao Brasil e aos países africanos de língua portuguesa. Continue reading


Considerações demasiado pessoais sobre o poeta bissexto Manuel Resende

Creio que o meu primeiro contacto com Manuel Resende foi telefónico. Já o conhecia de livro, quer como poeta quer como tradutor, e de blog, na época da grande explosão desse meio, quando todos os dias nasciam novos blogs, novos autores e novas versões do que seja um autor – e uma dessas versões dava pelo nome, por vezes um tanto agreste, de Manuel Resende. Tínhamos tomado a decisão, o Américo Lindeza Diogo e eu (na altura, sócios maioritários da Angelus Novus, Editora), de tentar editar um volume de poesia de Manuel Resende e fiquei encarregado de o contactar. Falei com Manuel António Pina sobre o assunto e ele manifestou de imediato o seu entusiasmo com a ideia, uma vez que nutria um grande apreço pelo Resende Poeta, a seu ver insuficientemente valorizado. Da conversa, ou não fosse Pina um conversador sem igual, começou a surgir o perfil lendário de Manuel Resende, o revolucionário de mil episódios de abril (e de antes de abril) ou o poliglota sem par (que, jurava Pina, aprendera alemão lendo O Capital, de Marx, com dicionário ao lado, coisa que o próprio desmente, embora sem me convencer; digamos que prefiro acreditar no Pina).

A estes dois Resendes fui depois acrescentando outros, a partir do momento em que comecei a frequentá-lo em presença: o tripeiro com um gosto perverso por acentuar o sotaque e o vernáculo saboroso, sobretudo se em contexto cosmopolita ou “sulista”; o leitor obsessivo do primeiro Wittgenstein, pela via da sua paixão por lógica e matemática, que o levou ainda a Quine e outros (não me lembro de ter discutido com o Manuel a questão do místico no Tractatus, quando me apercebi, na casa de Santarém, da sua longa leitura da obra, e bem me arrependo disso: fica para a próxima, em Cascais); o fã do “cigano”, isto é, de Ricardo Quaresma, na altura em que ele fazia miséria na ala esquerda do ataque no Dragão, suscitando às vezes telefonemas entusiásticos; o palestiniano com o qual raramente consegui discutir o direito de Israel a existir enquanto Estado; o filólogo, isto é, a pessoa com amor pela linguagem e, antes disso, pelos muitos idiomas do mundo, com quem mantive pequenas e grandes discussões, sempre proveitosas, ou sobre palavras ou sobre filosofia da linguagem, e que sempre me pareceu, enquanto pessoa, a ilustração mais aproximada da temível ambição contida na frase com que Erich Auerbach encerrou o seu grande ensaio “Filologia da Weltliteratur”: “A nossa pátria filológica é a terra inteira”.

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Carlos de Oliveira e a ideia do Moderno: colóquio na Casa Pessoa

Na próxima sexta-feira, 15 de setembro, terá lugar na Casa Pessoa, em Lisboa, o colóquio “Carlos de Oliveira e a Ideia do Moderno”. Inserido na programação paralela à exposição do espólio do autor no Museu do Neo-Realismo, o colóquio é uma organização da Casa Pessoa, do Museu do Neo-Realismo e do Centro de Literatura Portuguesa. O texto de referência do colóquio é o seguinte:

A inscrição do Moderno na obra de Carlos de Oliveira ganha a sua formulação talvez mais reveladora no poema que, em 1971, integra Entre duas memórias: «Descrição da guerra em Guernica». Ou seja, uma descrição de uma tela emblemática do pintor emblemático da pintura moderna (Picasso), escolhida décadas depois da sua produção para um exercício que convoca e, ao mesmo tempo, questiona o realismo como prática representacional. Mas o moderno ganha em Oliveira rostos diversos, de Gomes Leal a Cesário Verde, Camilo Pessanha, Maiakovski ou o Nouveau Roman, sem esquecer Fernando Pessoa, objeto de um tratamento muito particular, entre a rasura e a presença cúmplice e silenciosa. Sobre tudo isto, bem como sobre a presença dos novos meios (fotografia e cinema) em Carlos de Oliveira, se falará neste colóquio. Continue reading


Livros & Companhia: sessão 5, com Paulo Franchetti

A sessão 5 teve como convidado Paulo Franchetti, professor na UNICAMP, editor (dirigiu por cerca de 10 anos a editora da sua universidade), ensaísta e poeta. Paulo elegeu, como livro a apresentar, o clássico de R. H. Blyth, Haiku. Eastern Culture, nunca editado em português, e falou da sua longa aprendizagem do Haikai (e do japonês), de que viria a resultar a importante antologia Haikai, editada em 1990, de sua autoria e de Elza Taeko Doi – mas também um livro como Oeste, todo ele preenchido por haikais da autoria de Franchetti. Falou-se, claro, da sua longa dedicação a Camilo Pessanha, patente na sua edição crítica da Clepsydra, e em tantos estudos sobre o autor, e na sua produção ensaística, desde a dedicação inicial à teoria da poesia concreta até ao interesse recorrente pelo romantismo brasileiro ou pela literatura portuguesa do século XIX, em particular. Continue reading


Gândara e cultura popular em Carlos de Oliveira: colóquio

Foto de Carlos de Oliveira, Gândara, 1949-1952

No próximo dia 17, sábado, decorrerá em Cantanhede, no Auditório do Centro Social e Paroquial de S. Pedro, um colóquio intitulado ‘Gândara e cultura popular em Carlos de Oliveira’. O colóquio, que integra a programação em torno da exposição do espólio de Carlos de Oliveira no Museu do Neo-Realismo, tentará explorar as questões formuladas neste texto:

Carlos de Oliveira escreveu, em O Aprendiz de Feiticeiro, que a Gândara o tinha «tatuado», e daí a «pouca distanciação» com que dela falava. Qual o alcance dessa «tatuagem» e quais as dimensões da Gândara, e da cultura popular (a local e a não local), que é possível rastrear na obra de Carlos de Oliveira?

O programa do colóquio é o seguinte:

15h
Ida Alves (Universidade Federal Fluminense, Brasil), “Tocar a terra para criar”.

15h30
Rui Mateus (Centro de Literatura Portuguesa), “Representações da Gândara na poesia de Carlos de Oliveira. Um percurso de despojamento”.

16h
Sonia Miceli (Centro de Estudos Comparatistas), “Sinais de chuva. O pensamento da paisagem de Carlos de Oliveira e Ruy Duarte de Carvalho”.

16h30
Pausa para café Continue reading


Carlos de Oliveira na Colóquio-Letras: espólio e ensaios

Saiu recentemente o nº 195 da revista Colóquio-Letras, que inclui um dossiê temático sobre Carlos de Oliveira. Fui o coordenador do dossiê, que contém ensaios, inéditos e depoimentos. A secção de ensaios inclui três relacionados com o espólio – o meu, intitulado ‘A poesia póstuma de Carlos de Oliveira’, sobre a questão do arquivo, o de Rui Mateus, ‘Reescrever o definitivo’, sobre as traduções de poesia realizadas pelo poeta, e o de Ricardo Namora, ‘Uma outra Finisterra para Carlos de Oliveira’ -, e ainda dois sobre aspetos diversos da obra do autor: o de José Geraldo, ‘Dizer a poesia de Carlos de Oliveira: Maria Barroso e Manuela Porto’, e o de Clara Rowland, ‘Quadros do mundo’, uma aproximação de Finisterra. Paisagem e Povoamento a O sol do marmeleiro, do cineasta espanhol Victor Erice.

O dossiê inclui ainda inéditos – um texto sobre João José Cochofel e cartas a Benjamin Abdala Júnior e Giulia Lanciani – bem como depoimentos.

O volume foi objeto de um lançamento no Museu do Neo-Realismo, a 6 de maio do ano corrente, com a presença de Nuno Júdice, diretor da revista, e a minha. Na ocasião foi exibido o filme «Cinema», de Fernando Lopes, produzido para a Porto Capital Europeia da Cultura, em 2001. Filme muito raramente visto, sobre o Teatro Sá da Bandeira, no Porto (que a câmara percorre em panorâmicas e travellings inesquecíveis), mas também sobre Aurélio Paz dos Reis, conclui com a leitura, por Isabel Ruth, em cima de uma grua, e a meio do palco, do poema ‘Cinema’, de Carlos de Oliveira.


Livros & Companhia: sessão 3, com António Costa

A sessão 3 de Livros & Companhia teve António Costa como convidado. Com um trabalho já longo na Medeia Filmes e, com maior visibilidade, no Lisbon and Estoril Film Festival, António Costa integrou a Assírio & Alvim durante muitos anos e foi responsável pela programação cultural da Feira do Livro do Porto durante década e meia. António escolheu para a sessão o romance de Paul Bowles The Sheltering Sky (1954), em Portugal editado com o título O céu que nos protege (Assírio & Alvim, fora de mercado). Falou da sua descoberta do romance e da obra de Bowles, nos anos 80, da edição portuguesa e do seu encontro com Bowles em Tânger, do qual resultou uma entrevista memorável. Lemos excertos do livro e falámos do perfil de Bowles, o comunista, o músico, mas sobretudo o viajante, apoiando-nos noutros livros de Bowles, sobretudo as suas memórias, editadas em Portugal com o título Memórias de um Nómada.

Falámos depois da recente edição de Tenho cinco minutos para contar uma história, de Fernando Assis Pacheco (Tinta da China), um livro um tanto “caído do céu”, pelas particularidades que rodeiam a sua publicação, e do que faz a singularidade do autor na literatura portuguesa. Ouvimos um excerto de um programa de Mariana Oliveira na Antena 3, com João Pacheco, filho do escritor, e li uma inesquecível crónica sobre os sábados. Continue reading


Carlos de Oliveira: a parte submersa do iceberg

Foi inaugurada no dia 18 de março, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, a exposição do espólio de Carlos de Oliveira, de que sou curador. O título da exposição provém de um texto de Carlos de Oliveira, “O iceberg”, incluído no volume O aprendiz de feiticeiro. Nesse texto, o autor fala de tudo aquilo que a falta de liberdade, durante o salazarismo, o inibiu de viver e de escrever, denunciado desde logo na sua frase inicial: «Pensando bem, não tenho biografia». A sequência do texto esclarece essa afirmação:

Melhor, todo o escritor português marginalizado sofre biograficamente do que posso denominar complexo do iceberg: um terço visível, dois terços debaixo de água. A parte submersa pelas circunstâncias que nos impediram de exprimir o que pensamos, de participar na vida pública, é um peso (quase morto) que dia a dia nos puxa para o fundo. Entretanto a linha de flutuação vai subindo e a parte que se vê diminui proporcionalmente.

A imagem da parte submersa do iceberg adapta-se bem àquilo que define um espólio: um conjunto de papéis e documentos que acompanha, ao longo do tempo mas longe da vista do público, uma obra publicada. Contudo, tratando-se de um espólio bastante rico, foi necessário selecionar drasticamente o material a exibir, bem como distribuir tarefas, para o que contei com a ajuda de uma equipa que integra duas doutorandas do Programa em Materialidades da Literatura, Ana Sabino e Manaíra Athayde, além dos Professores Ricardo Namora e Rui Mateus, membros, como toda a equipa, do Centro de Literatura Portuguesa. Rui Mateus tratou a poesia, Ricardo Namora o “caso” Finisterra. Paisagem e Povoamento, obra tardia e maior, Ana Sabino explorou o espólio gráfico do autor, Manaíra Athayde estudou a questão do arquivo em Carlos de Oliveira. A exposição combina, pois, um percurso biobibliográfico, mais completo no caso da poesia, única área da obra percorrida na íntegra, com a eleição de núcleos temáticos fortes: a interação fotografia-texto no percurso que vai do “trabalho de terreno” levado a cabo pelo casal Carlos e Ângela de Oliveira na Gândara, no início dos anos 50, até à edição, em 1953, de Uma Abelha na chuva, às fotos produzidas por Augusto Cabrita para a edição ilustrada da obra na D. Quixote no final dos anos 60 e, por fim, ao filme de Fernando Lopes sobre o romance (1972); a contextualização do campo literário, cultural e político português no final dos anos 60, recorrendo-se para tal aos 8 volumes publicados dos diários de José Gomes Ferreira, Dias Comuns; o espólio de Finisterra, que revela a existência de uma “versão” abandonada de uma obra que não era ainda Finisterra, mas de que se viria a aproveitar alguma coisa para esse romance; e o trabalho de alguns grandes designers que desenharam capas e coleções para a obra de Carlos de Oliveira, bem como os textos, éditos e inéditos, que revelam uma aguda consciência do livro como objeto e suporte no autor. Continue reading


Livros & Companhia: sessão 2, com Adriana Calcanhotto


A segunda sessão de Livros & Companhia, a 11 de março de 2017, teve como convidada Adriana Calcanhotto. Dentro do protocolo da sessão, Adriana elegeu A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector, e falou do impacto do livro na sua formação, em criança, lendo alguns excertos. Falámos em seguida de vários livros de Adriana, sobretudo as suas antologias: a Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira para crianças de qualquer idade, a de Haicai do Brasil e a recentíssima É agora como nunca. Antologia incompleta da poesia brasileira contemporânea, entretanto publicada em Portugal, nos Livros Cotovia. Falou-se ainda de Saga Lusa, por razões (lusitanas) óbvias, e da também muito recente antologia, levada a cabo por Eucanaã Ferraz, das letras de Adriana, Para que é que serve uma canção como essa?, antologia da qual li o poema “Negros”, sobre o qual em seguida falámos.

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Variações sobre António: um colóquio em dezembro

Vai ser em dezembro, nos dias 7 e 8: a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra acolherá um colóquio dedicado à obra e legado de António Variações. Com o título “Variações sobre António: um colóquio em torno de António Variações”, o colóquio é uma organização do Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura e da área de Estudos Artísticos da FLUC, com apoio de várias entidades, das quais se destacam o Centro de Literatura Portuguesa, o Teatro Académico de Gil Vicente, o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, o Salão Brazil e a Rádio Universidade de Coimbra.

Como se afirma no texto de referência do colóquio, “Com apenas dois LP’s, editados em 1983 (Anjo da Guarda) e 1984 (Dar & Receber), António Variações – nascido em 1944, com o nome de António Joaquim Rodrigues Ribeiro, e falecido em 1984 –, tornou-se um caso de estudo na música popular portuguesa. (…) Falar de António Variações é, pois, falar sempre de muito mais do que apenas das suas canções, já que não custa ler na sua obra e na forma como performatiza a sua identidade (pessoal e coletiva) algo que nos ajuda a ler Portugal na segunda metade do século XX, da música e da poesia à cultura, à sociedade e ao estado do «corpo político»”.

O colóquio será acompanhado por um espetáculo musical, no TAGV, em que se recriará a música de Variações, para o qual foram convidados músicos da cena rock de Coimbra, e ainda por uma série de performances em torno do compositor e performer.

Todas as informações sobre o colóquio, cuja Comissão Organizadora coordeno, podem ser encontradas no seu site oficial. A imagem do colóquio é da autoria de Maria Cecília Magalhães.


Livros & Companhia: sessão 1, com João Rui (A Jigsaw)

Livros & Companhia é uma sessão sobre livros que tem lugar no Salão Brazil, uma vez por mês, na qual converso com um convidado.

Na sessão 1, a 11 de fevereiro de 2017, o convidado foi João Rui, compositor e vocalista da banda A Jigsaw. João Rui escolheu, para a sessão, o livro Burning Bright, de um dos seus heróis literários, John Steinbeck. No meu caso, escolhi o livro de David Nolan, I Swear I Was There, sobre os dois lendários concertos dos Sex Pistols no Lesser Free Trade Hall, de Manchester, em 1976, que cruzei com as memórias do renegado Mark E. Smith, dos The Fall, ou as de Morrissey, e ainda a autobiografia de Miles Davis. Para a secção de “Livros Raros e Usados”, uma secção fixa das sessões, reservei As Dioptrias de Elisa, de António Gancho.

Uma boa surpresa chegou alguns dias depois, na forma de uma reação escrita à sessão, por Vitalino José Santos. Para ele e para todos os presentes, muito obrigado. [Na foto, os dois participantes compenetram-se da gravidade do momento, antes do início da sessão. A foto é de Raquel Gonçalves.]

Hoje ocorre a sessão 4, a concorrência é de peso mas o convidado vale a pena, pois José Maria Vieira Mendes é seguramente o maior dramaturgo da sua geração em Portugal (pelo menos).


A distribuição matutina

do pão, do leite, dos jornais e dos princípios universais podia ser o programa deste blog. E que melhor programa? O mundo, porém, desregulou-se a um ponto tal que já ninguém usa a antemanhã para comprar pão, leite ou jornais. E os empregos que essa distribuição criou foram entretanto laminados pelo progresso, essa bela besta. Ou estão a sê-lo, como no caso dos jornais. Restam os princípios universais. Mas será que restam?

Num poema famoso, «Elegia 1938» (de Sentimento do Mundo, 1940), Carlos Drummond de Andrade fala antes de gestos universais: «Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, / onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo. / Praticas laboriosamente os gestos universais, / sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual». Os gestos universais, com os quais se edifica laboriosamente a ordem social que contudo não nos livra da carência ou, pior ainda, da natureza que também somos, são em rigor prévios aos princípios universais. A verdade, porém, é que a relação entre gestos e princípios não parece ser sequer necessária: tal como o gesto matutino de comprar o jornal, que se harmonizaria com o jornal enquanto «princípio universal», não garante de facto a transição de gestos a princípios (abundam, de resto, os jornais que são bons exemplos de maus universais). É talvez porque o princípio não está garantido que Drummond parece concluir o poema pelo gesto. No caso, um gesto de aceitação não-resignada: «Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição / porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan». Continue reading