Carlos de Oliveira e a ideia do Moderno: colóquio na Casa Pessoa

Na próxima sexta-feira, 15 de setembro, terá lugar na Casa Pessoa, em Lisboa, o colóquio “Carlos de Oliveira e a Ideia do Moderno”. Inserido na programação paralela à exposição do espólio do autor no Museu do Neo-Realismo, o colóquio é uma organização da Casa Pessoa, do Museu do Neo-Realismo e do Centro de Literatura Portuguesa. O texto de referência do colóquio é o seguinte:

A inscrição do Moderno na obra de Carlos de Oliveira ganha a sua formulação talvez mais reveladora no poema que, em 1971, integra Entre duas memórias: «Descrição da guerra em Guernica». Ou seja, uma descrição de uma tela emblemática do pintor emblemático da pintura moderna (Picasso), escolhida décadas depois da sua produção para um exercício que convoca e, ao mesmo tempo, questiona o realismo como prática representacional. Mas o moderno ganha em Oliveira rostos diversos, de Gomes Leal a Cesário Verde, Camilo Pessanha, Maiakovski ou o Nouveau Roman, sem esquecer Fernando Pessoa, objeto de um tratamento muito particular, entre a rasura e a presença cúmplice e silenciosa. Sobre tudo isto, bem como sobre a presença dos novos meios (fotografia e cinema) em Carlos de Oliveira, se falará neste colóquio. Continue reading


Livros & Companhia: sessão 5, com Paulo Franchetti

A sessão 5 teve como convidado Paulo Franchetti, professor na UNICAMP, editor (dirigiu por cerca de 10 anos a editora da sua universidade), ensaísta e poeta. Paulo elegeu, como livro a apresentar, o clássico de R. H. Blyth, Haiku. Eastern Culture, nunca editado em português, e falou da sua longa aprendizagem do Haikai (e do japonês), de que viria a resultar a importante antologia Haikai, editada em 1990, de sua autoria e de Elza Taeko Doi – mas também um livro como Oeste, todo ele preenchido por haikais da autoria de Franchetti. Falou-se, claro, da sua longa dedicação a Camilo Pessanha, patente na sua edição crítica da Clepsydra, e em tantos estudos sobre o autor, e na sua produção ensaística, desde a dedicação inicial à teoria da poesia concreta até ao interesse recorrente pelo romantismo brasileiro ou pela literatura portuguesa do século XIX, em particular. Continue reading


Gândara e cultura popular em Carlos de Oliveira: colóquio

Foto de Carlos de Oliveira, Gândara, 1949-1952

No próximo dia 17, sábado, decorrerá em Cantanhede, no Auditório do Centro Social e Paroquial de S. Pedro, um colóquio intitulado ‘Gândara e cultura popular em Carlos de Oliveira’. O colóquio, que integra a programação em torno da exposição do espólio de Carlos de Oliveira no Museu do Neo-Realismo, tentará explorar as questões formuladas neste texto:

Carlos de Oliveira escreveu, em O Aprendiz de Feiticeiro, que a Gândara o tinha «tatuado», e daí a «pouca distanciação» com que dela falava. Qual o alcance dessa «tatuagem» e quais as dimensões da Gândara, e da cultura popular (a local e a não local), que é possível rastrear na obra de Carlos de Oliveira?

O programa do colóquio é o seguinte:

15h
Ida Alves (Universidade Federal Fluminense, Brasil), “Tocar a terra para criar”.

15h30
Rui Mateus (Centro de Literatura Portuguesa), “Representações da Gândara na poesia de Carlos de Oliveira. Um percurso de despojamento”.

16h
Sonia Miceli (Centro de Estudos Comparatistas), “Sinais de chuva. O pensamento da paisagem de Carlos de Oliveira e Ruy Duarte de Carvalho”.

16h30
Pausa para café Continue reading


Carlos de Oliveira na Colóquio-Letras: espólio e ensaios

Saiu recentemente o nº 195 da revista Colóquio-Letras, que inclui um dossiê temático sobre Carlos de Oliveira. Fui o coordenador do dossiê, que contém ensaios, inéditos e depoimentos. A secção de ensaios inclui três relacionados com o espólio – o meu, intitulado ‘A poesia póstuma de Carlos de Oliveira’, sobre a questão do arquivo, o de Rui Mateus, ‘Reescrever o definitivo’, sobre as traduções de poesia realizadas pelo poeta, e o de Ricardo Namora, ‘Uma outra Finisterra para Carlos de Oliveira’ -, e ainda dois sobre aspetos diversos da obra do autor: o de José Geraldo, ‘Dizer a poesia de Carlos de Oliveira: Maria Barroso e Manuela Porto’, e o de Clara Rowland, ‘Quadros do mundo’, uma aproximação de Finisterra. Paisagem e Povoamento a O sol do marmeleiro, do cineasta espanhol Victor Erice.

O dossiê inclui ainda inéditos – um texto sobre João José Cochofel e cartas a Benjamin Abdala Júnior e Giulia Lanciani – bem como depoimentos.

O volume foi objeto de um lançamento no Museu do Neo-Realismo, a 6 de maio do ano corrente, com a presença de Nuno Júdice, diretor da revista, e a minha. Na ocasião foi exibido o filme «Cinema», de Fernando Lopes, produzido para a Porto Capital Europeia da Cultura, em 2001. Filme muito raramente visto, sobre o Teatro Sá da Bandeira, no Porto (que a câmara percorre em panorâmicas e travellings inesquecíveis), mas também sobre Aurélio Paz dos Reis, conclui com a leitura, por Isabel Ruth, em cima de uma grua, e a meio do palco, do poema ‘Cinema’, de Carlos de Oliveira.


Livros & Companhia: sessão 3, com António Costa

A sessão 3 de Livros & Companhia teve António Costa como convidado. Com um trabalho já longo na Medeia Filmes e, com maior visibilidade, no Lisbon and Estoril Film Festival, António Costa integrou a Assírio & Alvim durante muitos anos e foi responsável pela programação cultural da Feira do Livro do Porto durante década e meia. António escolheu para a sessão o romance de Paul Bowles The Sheltering Sky (1954), em Portugal editado com o título O céu que nos protege (Assírio & Alvim, fora de mercado). Falou da sua descoberta do romance e da obra de Bowles, nos anos 80, da edição portuguesa e do seu encontro com Bowles em Tânger, do qual resultou uma entrevista memorável. Lemos excertos do livro e falámos do perfil de Bowles, o comunista, o músico, mas sobretudo o viajante, apoiando-nos noutros livros de Bowles, sobretudo as suas memórias, editadas em Portugal com o título Memórias de um Nómada.

Falámos depois da recente edição de Tenho cinco minutos para contar uma história, de Fernando Assis Pacheco (Tinta da China), um livro um tanto “caído do céu”, pelas particularidades que rodeiam a sua publicação, e do que faz a singularidade do autor na literatura portuguesa. Ouvimos um excerto de um programa de Mariana Oliveira na Antena 3, com João Pacheco, filho do escritor, e li uma inesquecível crónica sobre os sábados. Continue reading


Carlos de Oliveira: a parte submersa do iceberg

Foi inaugurada no dia 18 de março, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, a exposição do espólio de Carlos de Oliveira, de que sou curador. O título da exposição provém de um texto de Carlos de Oliveira, “O iceberg”, incluído no volume O aprendiz de feiticeiro. Nesse texto, o autor fala de tudo aquilo que a falta de liberdade, durante o salazarismo, o inibiu de viver e de escrever, denunciado desde logo na sua frase inicial: «Pensando bem, não tenho biografia». A sequência do texto esclarece essa afirmação:

Melhor, todo o escritor português marginalizado sofre biograficamente do que posso denominar complexo do iceberg: um terço visível, dois terços debaixo de água. A parte submersa pelas circunstâncias que nos impediram de exprimir o que pensamos, de participar na vida pública, é um peso (quase morto) que dia a dia nos puxa para o fundo. Entretanto a linha de flutuação vai subindo e a parte que se vê diminui proporcionalmente.

A imagem da parte submersa do iceberg adapta-se bem àquilo que define um espólio: um conjunto de papéis e documentos que acompanha, ao longo do tempo mas longe da vista do público, uma obra publicada. Contudo, tratando-se de um espólio bastante rico, foi necessário selecionar drasticamente o material a exibir, bem como distribuir tarefas, para o que contei com a ajuda de uma equipa que integra duas doutorandas do Programa em Materialidades da Literatura, Ana Sabino e Manaíra Athayde, além dos Professores Ricardo Namora e Rui Mateus, membros, como toda a equipa, do Centro de Literatura Portuguesa. Rui Mateus tratou a poesia, Ricardo Namora o “caso” Finisterra. Paisagem e Povoamento, obra tardia e maior, Ana Sabino explorou o espólio gráfico do autor, Manaíra Athayde estudou a questão do arquivo em Carlos de Oliveira. A exposição combina, pois, um percurso biobibliográfico, mais completo no caso da poesia, única área da obra percorrida na íntegra, com a eleição de núcleos temáticos fortes: a interação fotografia-texto no percurso que vai do “trabalho de terreno” levado a cabo pelo casal Carlos e Ângela de Oliveira na Gândara, no início dos anos 50, até à edição, em 1953, de Uma Abelha na chuva, às fotos produzidas por Augusto Cabrita para a edição ilustrada da obra na D. Quixote no final dos anos 60 e, por fim, ao filme de Fernando Lopes sobre o romance (1972); a contextualização do campo literário, cultural e político português no final dos anos 60, recorrendo-se para tal aos 8 volumes publicados dos diários de José Gomes Ferreira, Dias Comuns; o espólio de Finisterra, que revela a existência de uma “versão” abandonada de uma obra que não era ainda Finisterra, mas de que se viria a aproveitar alguma coisa para esse romance; e o trabalho de alguns grandes designers que desenharam capas e coleções para a obra de Carlos de Oliveira, bem como os textos, éditos e inéditos, que revelam uma aguda consciência do livro como objeto e suporte no autor. Continue reading


Livros & Companhia: sessão 2, com Adriana Calcanhotto


A segunda sessão de Livros & Companhia, a 11 de março de 2017, teve como convidada Adriana Calcanhotto. Dentro do protocolo da sessão, Adriana elegeu A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector, e falou do impacto do livro na sua formação, em criança, lendo alguns excertos. Falámos em seguida de vários livros de Adriana, sobretudo as suas antologias: a Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira para crianças de qualquer idade, a de Haicai do Brasil e a recentíssima É agora como nunca. Antologia incompleta da poesia brasileira contemporânea, entretanto publicada em Portugal, nos Livros Cotovia. Falou-se ainda de Saga Lusa, por razões (lusitanas) óbvias, e da também muito recente antologia, levada a cabo por Eucanaã Ferraz, das letras de Adriana, Para que é que serve uma canção como essa?, antologia da qual li o poema “Negros”, sobre o qual em seguida falámos.

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Variações sobre António: um colóquio em dezembro

Vai ser em dezembro, nos dias 7 e 8: a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra acolherá um colóquio dedicado à obra e legado de António Variações. Com o título “Variações sobre António: um colóquio em torno de António Variações”, o colóquio é uma organização do Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura e da área de Estudos Artísticos da FLUC, com apoio de várias entidades, das quais se destacam o Centro de Literatura Portuguesa, o Teatro Académico de Gil Vicente, o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, o Salão Brazil e a Rádio Universidade de Coimbra.

Como se afirma no texto de referência do colóquio, “Com apenas dois LP’s, editados em 1983 (Anjo da Guarda) e 1984 (Dar & Receber), António Variações – nascido em 1944, com o nome de António Joaquim Rodrigues Ribeiro, e falecido em 1984 –, tornou-se um caso de estudo na música popular portuguesa. (…) Falar de António Variações é, pois, falar sempre de muito mais do que apenas das suas canções, já que não custa ler na sua obra e na forma como performatiza a sua identidade (pessoal e coletiva) algo que nos ajuda a ler Portugal na segunda metade do século XX, da música e da poesia à cultura, à sociedade e ao estado do «corpo político»”.

O colóquio será acompanhado por um espetáculo musical, no TAGV, em que se recriará a música de Variações, para o qual foram convidados músicos da cena rock de Coimbra, e ainda por uma série de performances em torno do compositor e performer.

Todas as informações sobre o colóquio, cuja Comissão Organizadora coordeno, podem ser encontradas no seu site oficial. A imagem do colóquio é da autoria de Maria Cecília Magalhães.


Livros & Companhia: sessão 1, com João Rui (A Jigsaw)

Livros & Companhia é uma sessão sobre livros que tem lugar no Salão Brazil, uma vez por mês, na qual converso com um convidado.

Na sessão 1, a 11 de fevereiro de 2017, o convidado foi João Rui, compositor e vocalista da banda A Jigsaw. João Rui escolheu, para a sessão, o livro Burning Bright, de um dos seus heróis literários, John Steinbeck. No meu caso, escolhi o livro de David Nolan, I Swear I Was There, sobre os dois lendários concertos dos Sex Pistols no Lesser Free Trade Hall, de Manchester, em 1976, que cruzei com as memórias do renegado Mark E. Smith, dos The Fall, ou as de Morrissey, e ainda a autobiografia de Miles Davis. Para a secção de “Livros Raros e Usados”, uma secção fixa das sessões, reservei As Dioptrias de Elisa, de António Gancho.

Uma boa surpresa chegou alguns dias depois, na forma de uma reação escrita à sessão, por Vitalino José Santos. Para ele e para todos os presentes, muito obrigado. [Na foto, os dois participantes compenetram-se da gravidade do momento, antes do início da sessão. A foto é de Raquel Gonçalves.]

Hoje ocorre a sessão 4, a concorrência é de peso mas o convidado vale a pena, pois José Maria Vieira Mendes é seguramente o maior dramaturgo da sua geração em Portugal (pelo menos).


A distribuição matutina

do pão, do leite, dos jornais e dos princípios universais podia ser o programa deste blog. E que melhor programa? O mundo, porém, desregulou-se a um ponto tal que já ninguém usa a antemanhã para comprar pão, leite ou jornais. E os empregos que essa distribuição criou foram entretanto laminados pelo progresso, essa bela besta. Ou estão a sê-lo, como no caso dos jornais. Restam os princípios universais. Mas será que restam?

Num poema famoso, «Elegia 1938» (de Sentimento do Mundo, 1940), Carlos Drummond de Andrade fala antes de gestos universais: «Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, / onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo. / Praticas laboriosamente os gestos universais, / sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual». Os gestos universais, com os quais se edifica laboriosamente a ordem social que contudo não nos livra da carência ou, pior ainda, da natureza que também somos, são em rigor prévios aos princípios universais. A verdade, porém, é que a relação entre gestos e princípios não parece ser sequer necessária: tal como o gesto matutino de comprar o jornal, que se harmonizaria com o jornal enquanto «princípio universal», não garante de facto a transição de gestos a princípios (abundam, de resto, os jornais que são bons exemplos de maus universais). É talvez porque o princípio não está garantido que Drummond parece concluir o poema pelo gesto. No caso, um gesto de aceitação não-resignada: «Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição / porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan». Continue reading