Má dicção e maldição

O que é um poema mal dito? De acordo com que norma, e estipulada por quem, aferimos esse mal dizer? A criança que na sala de aula se engasga ou come sílabas ao ler Camões ou Pessoa, diz mal? A multidão que, num jogo da seleção (a de futebol, pois só ela permite a antonomásia: ao pé do futebol todos os outros desportos são formas parcelares de nomeação da nação), canta o hino e choca contra os «egrégios avós», reinventando-os como pode, diz (canta) mal? O ator que ao dizer o poema se esforça por esbater ênfases, treinado que foi no horror à demagogia da tónica, e usa toda a sua arte para restituir a plenitude de cada sílaba, diz bem?

Mas o que é dizer bem? Uma questão de projeção, altura, articulação? Um equivalente daquilo a que na música chamamos afinação? Ou, antes, de intensidade? A voz é sempre mais do que um débito físico-acústico, mas o seu mistério começa aí, nesse débito que emerge de um local aparentemente situável – o aparelho fonador – mas desequilibrado na relação causa-efeito. Pois quando emerge, e na medida em que emerge sempre de uma profundeza, a voz é imprevisível (produzindo por vezes um reconhecível efeito cómico, sempre que a um corpo volumoso corresponde uma vozinha, ou ao invés) e só a posteriori cola com a pessoa que a produz. Experiência banal, de resto, nestes tempos em que a net nos permite conhecer o rosto de alguém cuja voz, quase sempre, chega só depois. Percebemos então como a voz assina o corpo que a usa, com um efeito de posse quase tão poderoso como o do rosto fotografado que assina o nosso ser político-administrativo. Ou mais poderoso, já que a voz arrasta na sua materialidade toda a questão do inconsciente enquanto coisa que em nós ressoa – do mesmo modo que na mão que me assina há muito mais e menos do que eu. Continue reading


Sobre Daniel Jonas

Se não erro (se não erramos, eu e os motores de busca), o texto que aqui se republica, sobre Daniel Jonas, encomendado em 2011 pela Direção Geral do Livro e das Bibliotecas e em seguida editado online, em tradução em inglês, numa espécie de dicionário de poetas da nova geração, não se encontra já disponível (desconheço as razões). Os livros subsequentes de Jonas tornaram-no talvez o caso mais sério da sua geração na poesia portuguesa, e condenaram o texto ao reconhecível destino de «tentativa de ensaio sobre as primícias de um poeta». O que é simplesmente o preço a pagar pelo trabalho de sondagem do presente, que na altura me mobilizava – tanto quanto me mobiliza o anacronismo, que é também parte do mundo de Jonas. Por exemplo, no teatro de que é também autor: ainda em 2011 escrevi sobre a sua peça Estocolmo, para o Teatro Nacional S. João (o link encontra-se na página Publicações, deste site, secção Outros).



Daniel Jonas
(Porto, 1973) publicou até ao momento quatro livros de poesia – O Corpo Está com o Rei (1997), Moça Formosa, Lençóis de Veludo (2002), Os Fantasmas Inquilinos (2005) e Sonótono (2007, Prémio PEN de Poesia 2008) – e uma peça de teatro, Nenhures (2008). Tem actividade vasta e significativa como tradutor, destacando-se naturalmente a sua tradução do Paraíso Perdido (2006), de John Milton. A «irrupção» de Daniel Jonas na cena literária portuguesa foi retardada pelo facto de os seus dois primeiros livros terem sido editados em circuito restrito, pelo que a sua «revelação» ocorreu apenas com a edição de Os Fantasmas Inquilinos pela editora Livros Cotovia. Se esse facto não faz (ou não fez) justiça à qualidade sobretudo de Moça Formosa, Lençóis de Veludo, por outro lado permitiu que o autor viesse a público já com uma obra maior, embora o perfil da sua poesia, pouco coadunável com o devir maioritário da poesia portuguesa recente, suscitasse estranheza e alguma resistência.

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