Num texto de 1977 dedicado à questão do prazer estético (1), Hans Robert Jauss, conhecido teórico da chamada “estética da receção”, entrega-se a uma historicização do processo da desqualificação do prazer na tradição estética. Com erudição tipicamente alemã, o que envolve muita etimologia e história de conceitos, Jauss traça o percurso que faz com que a retórica, enquanto disciplina e prática, rentabilize a intuição de Aristóteles quanto ao potencial libertador da catarse trágica sobre a psique do espetador por meio de um conjunto de técnicas destinadas a realçar “a função comunicativa do efeito catártico: o prazer estético dos afetos provocados pelo discurso ou pela poesia é a tentativa de deixar-se persuadir pela transformação do pathos arrebatador na serenidade ética” (p. 89). Contudo, como o próprio Jauss não deixa de reconhecer, a história da receção da doutrina sobre o prazer catártico quase só se preocupou com o seu lado psicagógico, “negligenciando seu lado comunicativo” (id.). No culminar desse processo, o romantismo, com a sua estética da experiência e o seu ataque à retórica, atribuído à sua suposta artificialidade, trará consigo uma “subjetividade que goza de si mesma, como novo ideal do prazer estético” (id.), abandonando “o sensus communis como expressão de uma simpatia comunicativa, enquanto, ao mesmo tempo, o culto do gênio desterrou, uma vez por todas, a ‘estética do efeito’ da retórica” (id.). Jauss remata, algo melancolicamente: “Data de então a decadência de toda experiência prazerosa da arte”. (id.) O mesmo é dizer, a arte volve-se negatividade e, desde então, “a experiência estética só é vista como genuína quando se priva de todo prazer e se eleva ao nível da reflexão estética” (p. 92).
Uma outra forma de dizer isto, com o Friedrich Schlegel que em 1797 publica o volume Sobre o estudo da poesia grega, é a que consiste em admitir que ao prazer completo da integração da parte no todo e da realização plena das expetativas da arte clássica sucede uma arte, a moderna, que, por aspirar ao ilimitado, acaba por oferecer o inacabado, o fragmentário, o provisório de um agora que não garante continuidade. Carlota Fernández-Jáuregui Rojas, numa recente e notável Introdução à sua tradução espanhola e edição da Indagação filosófica sobre a origem das nossas ideias acerca do sublime e do belo (2023), de Edmund Burke (2), traduz este ponto numa taxativa afirmação: “As obras dos modernos, podemos dizer, são sublimes” (p. 140). O que, de resto, e de novo com Schlegel, coloca a poesia moderna longe do império do belo e da perfeição. Mas também, para o bem e para o mal, longe do império do prazer, que enquanto categoria positiva, como de resto o seu reverso, a dor, Burke destronou em favor daquilo a que chamou delight, essa modalidade de prazer negativo que define o sublime enquanto sentimento que nasce, para falar com Kant, da inadequação da imaginação.
É provável que, nos termos em que Hans Ulrich Gumbrecht o formulou há uns anos (3), o não-conceito de Stimmung, que o autor apresenta dentro de uma estratégia para preencher um intervalo criado pela ausência coeva de grandes paradigmas teóricos no campo dos estudos literários, e que não é mais do que a legitimação de um modo não profissional de relacionamento com os textos ficcionais, vise moderar a paixão negativa do sublime (muito presente na desconstrução, por exemplo), em favor de um mínimo ontológico de cunho heideggeriano que de novo devolve os textos ao seu ser no mundo. Gumbrecht admite, aliás, a propósito de um dos seus exemplos – de como a leitura de poemas em voz alta pode afetar mesmo leitores que não dominam a língua do texto – que existem afinidades entre performance e Stimmung, afinidades que nos devolvem à questão da presença, ou da oscilação entre efeitos de sentido e de presença, o melhor que se pode arranjar em tempos de crise da Teoria e, quem sabe?, de cansaço do sublime moderno. O sublime, digamos assim, seria o inconsciente moderno da Teoria, aquilo que ela recalca para poder regressar com redobrada potência; o Stimmungseria aquilo que nos textos nos toca, devolvendo-os à fenomenalidade, sem contudo aspirar por essa via às fusões da mística (seria antes a mística doméstica da era burguesa, cujo outro nome é “literatura”); a performance, e esse é o problema, se nos situa no mundo do corpo e no corpo do mundo, tanto nos projeta para um horizonte fenomenológico, como nos devolve à compulsão da singularidade irrepetível que define o sublime, que de facto continua a ser o gato com o rabo de fora.
Este colóquio não tem, por isso, em rigor, um programa, propondo antes aquilo que o seu texto de referência define como “um enredo” constituído por três noções operatórias que cabe a cada interveniente enredar e desenredar, dentro, isso sim, de um quadro assumidamente moderno: aquele que vai dos romantismos às estéticas do rock, que são uma exponenciação das estéticas do sublime, do Stimmung e da performance. Coisas antigas, não custa reconhecer, mas bem menos antigas do que as duas universidades que de novo se enredam neste evento (Salamanca e Coimbra), evento que decorre de uma parceria, entre o IEB de Coimbra e a Área de Filologia Galega e Portuguesa de Salamanca, cujo funcionamento informal há já algum tempo em curso agora ganha um perfil mais formalizado, ao serviço de uma atmosfera académica (ainda o Stimmung) que desejamos aberta ao singular, ao diferente e, de vez em quando, ao irrepetível. O problema deste, todavia, é que só ganhamos consciência dessa sua ocorrência em virtude da muita repetição, como de resto a música nos ensina. Apostemos, então, que deste evento, que é mais um evento, restará a memória singular de um evento único. Essa aposta basta para que continuemos.

[Texto lido na abertura do colóquio internacional “Sublime, Stimmung e performance. Dos Romantismos às Estéticas do Rock”, a ter lugar no Instituto de Estudos Brasileiros de Coimbra nos dias 22 e 23 de abril de 2026]
- Trata-se do ensaio “O Prazer Estético e as Experiências Fundamentais da Poiesis, Aisthesis e Katharsis”, in Luiz Costa Lima (org.), A Literatura e o leitor. Textos de Estética da Recepção. São Paulo, Paz e Terra, 2011, pp. 85-103.
- Reporto-me ao texto “Introducción. Burke y los orígenes de la estética moderna”, in Edmund Burke, Indagación filosófica sobre el origen de nuestras ideas acerca de lo sublime y de lo bello. Madrid, Alizanza editorial, 2023, pp. 13-155.
- Trata-se do livro Atmosfera, Ambiência, Stimmung. Sobre um potencial oculto da literatura. Rio de Janeiro, Contraponto, Editora PUC Rio, 2014.