Vox Media: começar

O Grupo de Investigação sobre Mediação Digital e Materialidades da Literatura, no âmbito do Centro de Literatura Portuguesa, organiza-se em torno de três eixos de pesquisa: 1) EX MACHINA: Inscrição e Literatura, 2) RE CODEX: Formas e Transformações do livro, e 3) VOX MEDIA, até aqui subintitulado “O Som na Literatura”.

Por razões de teor epistemológico, que se prendem com a indeterminação e latitude excessiva do tema do “som”, o projeto VOX MEDIA passa a focar-se no estudo d’ “A Voz na Literatura”, aliás e, de facto, o seu âmbito desde sempre. Esta especificação não obsta a que, em regime tangencial ou sempre que a temática da voz o solicite, uma expansão do âmbito do projeto para os territórios do som se venha a verificar. Trata-se apenas de optar por um foco mais decidido no fenómeno, de resto vastíssimo, da Voz.

O projeto foi, pois, objeto de um esforço de redescrição, nos termos do texto que em seguida se publica. Este esforço, a que se seguirá a divulgação de uma série de iniciativas a realizar ao longo de 2021, assinala uma nova fase do projeto, que se pretende a um tempo mais aberto (o que pressuporá uma maior insistência na divulgação, mas também no acolhimento de colaboração de pessoas exteriores ao projeto) e mais focado na tradução dos trabalhos dos seus membros em publicações e, a prazo, na criação de um arquivo digital de registos sonoros de práticas literárias e performativas, cuja urgência vai sendo manifesta.

Almada Negreiros intitulou “Começar” a obra central da sua fase tardia. Sem tanta história, mas com quase tanta juventude quanto Almada, VOX MEDIA começa agora de novo. Vocês ainda não (ou)viram nada…

VOX MEDIA: A Voz na Literatura

Descrição do Projeto

A naturalidade com que a ideia de literatura se traduz na ideia de texto e, esta, em «letras impressas em papel», é provavelmente responsável pela versão unilateral que o senso comum, bem como a doxa crítica, a todo o instante transmitem da relação do leitor com ela: a literatura é algo que se lê em silêncio. Ou melhor, a literatura é um texto que devém livro por meio de um processo de inscrição que, também ele, se torna invisível, uma vez que a materialidade do texto se anula em função daquilo que nele se transmite: ideias, significados, sentidos, enfim, conteúdos. Continue reading


Variações sobre António: um colóquio em torno de António Variações

A culpa de estarmos aqui hoje é da vontade, como cantaria António Variações. A vontade de retribuir um pouco daquilo que António nos deixou, na sua música, na sua versão da cultura portuguesa, na sua ideia larga de mundo, no exemplo de quem não se deixa aprisionar pelo destino, na energia de quem se reinventa até ao fim. Porque António Joaquim Rodrigues Ribeiro poderia ter sido apenas mais um dos portugueses da sua geração que fizeram o percurso da aldeia para a capital, de “Mala nova na mão / Feita de madeira e papelão / Dentro um fato de cotim”, o diploma da quarta classe, “um terço e um santinho”, olhando para trás mas com o pensamento em frente – e, mais tarde, da metrópole para o então ultramar em guerra e, por fim, do Portugal da ditadura para o mundo novo, mas nunca suficientemente novo, da democracia. Mas tudo isso, que era já muito, e para muitos foi ou bastante ou demasiado, era demasiado pouco para António, que foi ver mundo pela Europa, pela América e por onde calhava, regressando sempre português e, contudo, cada vez mais cidadão do mundo. Recordo aqui as fulgurantes palavras que dedicou a esta questão, na canção “Minha cara sem fronteiras”: “Venho da terra de ninguém / E a minha língua não tem país / O meu nome é alguém / E vou daqui para o lugar de além / Meu corpo é tronco sem raiz”. A questão que estes versos enunciam é a do cosmopolitismo, e daí o caráter insatisfatório de qualquer figura e mito da raiz e da nação, propondo na sua vez essa estranha figura de um corpo que é “tronco sem raiz”: uma versão contratual do corpo político, que não cessa de se emancipar da sua origem.

Esta formulação tardia não é a única que a questão encontra em António Variações. A mais popular, e também mais mítica, é aquela que, em versões nem sempre coincidentes, o cantor teria transmitido a Ricardo Camacho, produtor do seu primeiro disco, para enunciar o lugar estético em que situava a sua música: «Entre a Sé de Braga e Nova Iorque». A frase não sugere um ponto de equilíbrio que seria, aliás, impossível de garantir, entre a Sé de Braga e o Empire State Building (ou entre o folclore minhoto e os Velvet Underground ou os New York Dolls); pelo contrário, parece enunciar uma pulsão de desequilíbrio ou de fabricação, não garantida por uma estabilidade identitária prévia – seja ela a da «cultura tradicional» ou a do «cosmopolitismo» –, para qualquer projeto de criação de uma versão moderna do popular. Nesse sentido, o percurso biográfico de Variações parece pressupor uma demanda, mas uma demanda de algo que se produz, fabrica e falsifica pelo caminho, sem ceder a qualquer ilusão de um «encontro pleno com a alma» da cultura portuguesa ou do sujeito com as suas «raízes» e com a sua «verdade profunda», verdade essa também objeto de uma encenação queer no limite do kitsch ou do camp, dando assim a ver, em modo espetacular, a identidade como recodificação. Continue reading


Ferreira Gullar: dossiê na ‘Texto Poético’

Já disponível há algum tempo, o último número da Texto Poético, revista do Grupo de Trabalho em Teoria do Texto Poético da ANPOLL, dedica um dossiê, coordenado por Paulo Franchetti e por mim, a Ferreira Gullar. O dossiê inclui 8 ensaios que cobrem um número considerável de áreas da produção lírica de Gullar.

Na secção não-temática da revista, inclui-se um ensaio meu sobre A poesia e a condição pós-média. O caso de ‘Monodrama’ de Carlito Azevedo.