Sobre Rita Catania Marrone

Quero começar por referir o facto de que esta tese beneficiou imensamente do acompanhamento e da leitura minuciosa, e muito conhecedora dos meandros mais ocultos do esoterismo, do Professor António Apolinário Lourenço, um dos maiores especialistas na matéria, seguramente o ocultista mais improvável que conheço.

Isto dito, que é de justiça elementar, queria notar que hoje celebramos um encontro, ou melhor, as consequências de um daqueles encontros reveladores e formativos: o encontro de uma italiana cuja ascendência siciliana se inscreve no seu nome, com um português cujo nome se destina a abrir a possibilidade de todos os encontros. Esse encontro levou Rita Marrone a deslocar-se da filosofia para a literatura, um percurso mais comum do que se pensa (e de que esta prova é exemplar, já que três dos intervenientes fizeram esse percurso por causa de Pessoa), da Itália para Portugal e de Milão para Coimbra, e depois Lisboa, da tradição da leitura filológica para essa outra modalidade de estudo da inscrição literária que são as materialidades da literatura. O encontro fez-se pelo lado mais oculto de Pessoa, em todos os sentidos, e suscitou, no nosso Programa de Doutoramento, um repetido efeito de surpresa, desconfiança e reserva quer da parte do corpo docente, eu incluído, na fase inicial, quer sobretudo da parte desses cristãos novos das materialidades que são sempre os estudantes de cada nova edição.

Fui professor de Rita Catania Marrone antes de ser seu orientador, e depois coorientador, e pude assistir à forma como encarou e enfrentou essa insistente teoria de reservas e desconfianças. Impressionou-me sempre a serena convicção que dedicou ao seu trabalho, mesmo nesse contexto, e sobretudo a forma como no Seminário de Orientação, numa turma de resto inesquecível, Rita Marrone exibiu a sua capacidade dialética e crítica, num registo que eu diria kantiano, porque movido por uma ética inclemente, mas sempre urbana, da crítica. Desse ponto de vista, creio que nunca conheci uma estudante assim, e a minha admiração pelo perfil académico, no sentido rigoroso e ao mesmo tempo lato, de Rita Marrone, não fez senão crescer.

O objeto do trabalho da candidata (o esoterismo) ajudou muito a que esse seu perfil se manifestasse, dado o caráter intempestivo do esoterismo quer na modernidade latamente considerada, quer na análise canónica do modernismo e seus autores de referência. O intempestivo não é o anacrónico ou o ultrapassado, mas sim o que perturba a teleologia ingenuamente linear e refratária ao trágico, ou à opacidade enigmática do sentido, e do sentido da História, que define a modernidade. Nesta ótica, o ocultismo, como Rita Marrone demonstra neste estudo renovador, não é o caixote de lixo do Opus pessoano, é sim aquela pulsão refratária à transparência otimista do Moderno, que define em profundidade a obra de Pessoa e contribui para a específica densidade da sua mística existencial e política, bem como da sua metafísica poética.

O que Rita Marrone faz nesta tese opera, pois, em vários planos. Por um lado, desoculta, com provas na mão, como acaba de dizer a Professora Orietta Abatti, a presença insistente do esoterismo no universo poético de Pessoa, revelando textos e relendo, num quadro de enorme exigência intelectual, textos já estabelecidos. Desse ponto de vista, aliás, a tese traz descobertas e revelações (algumas típicas de “bicho de biblioteca”), como supostamente uma tese deve trazer, e hoje em dia tão poucas vezes ocorre, sem contudo se esgotar no fetichismo do inédito, como tantas vezes ocorre no pessoanismo atual, mas enquadrando-o num universo de referências e relações que densifica ainda mais o contexto pessoano – demonstrando assim, na prática, a que ponto o contexto não é dado, mas construído pelo leitor. Por outro lado, Rita Marrone não se fica por, nem alguma vez pratica, um ocultismo que fosse uma radicalização de uma hermenêutica da suspeita que apontasse sistematicamente para um mais além do sentido, um inefável expansivo e, por definição, indemonstrável. O fundamento cartesiano do método de Rita Marrone, de resto um tanto contra certas declarações da autora, às quais a Professora Rita Patrício muito bem reagiu, nunca desaparece de cena e rara é a leitura, por mais arrojada que seja ou por mais produzida na contramão da modernidade, que careça de fundamentação filosófica e controlo hermenêutico (por exemplo, na forma como as teses sobre a contribuição do esoterismo para o sensacionismo são expostas dentro de uma lógica argumentativa reconhecível e, por isso mesmo, rebatível ou falsificável, em termos epistemológicos). Esta questão articula-se profundamente com o terceiro plano em que o seu trabalho opera, o mais devedor do paradigma das Materialidades da Literatura, o único em que de resto os colegas materialistas de Rita Marrone acalmavam as suas fúrias anti-ocultistas: o do estudo da biblioteca esotérica de Pessoa. A forma como o faz, explorando a distinção categorial, proveniente do filólogo italiano Mazzino Montinari, entre biblioteca material, virtual e ideal, é brilhante e persuasiva, demonstra a centralidade da figura concetual e tropológica da biblioteca na própria ideia de escrita e de literatura e permite reordenar a biblioteca material de Pessoa a partir da criação da Classe X, que agora passa a ser o fantasma produtivo da ordenação técnica dessa biblioteca. Neste plano, o encontro que referi a abrir desdobra-se no encontro decisivo entre a grande tradição filológica italiana e a tradição do estudo dos suportes materiais e editoriais do texto, na sua transição contemporânea para o digital, transição poderosamente iluminadora do passado livresco, por retroação (mas transição que, nas ferramentas de pesquisa e edição que disponibiliza hoje, não resiste a um fetichismo da representação do documento, como a Professora Rita Patrício alertou, e que é um traço do trabalho editorial de uma geração comandada por um Diktat pizzarriano: reproduzir o fac-símile, reproduzir, reproduzir…).

Resumindo uma tese difícil de resumir, eu diria que Rita Marrone consegue operar com sucesso ao nível da recuperação e dignificação académica do objeto – o esoterismo, por via da biblioteca esotérica – mas também ao nível da tradução do objeto em modelo ou paradigma de leitura. Nesta translatio o regional devém transversal, nem sempre, porventura, de modo inteiramente controlado. Mas esse, creio eu, é o preço a pagar quer pelo esforço de recuperação de uma secção desvalorizada do corpus pessoano (porque supostamente subfilosófica, antimoderna, reacionária, etc.), quer pela paixão sem a qual não se sustenta a longa dedicação exigida por uma tese.

O melhor elogio que lhe posso fazer é que só uma pessoa como a Rita Marrone me convenceria a ser orientador de uma tese sobre o esoterismo pessoano. È stato un privilegio.

[Texto lido a 25 de fevereiro de 2022, na sala José Anastácio da Cunha, do Edifício da Matemática da Universidade de Coimbra, nas provas de doutoramento de Rita Catania Marrone, às quais apresentou a tese Os “livros ocultos” de Fernando Pessoa: Um Estudo da Biblioteca Esotérica de Fernando Pessoa, agora editada pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda]