A poesia de Cabo Verde em duas antologias recentes

A publicação recente, no vol. LXIII, de 2018, da Atlântida. Revista de Cultura, editada em Angra do Heroísmo, de uma antologia intitulada “Poesia CV – Hoje, séc. XXI ?”, com Seleção, Organização e Nota Breve de António de Névada (90 pp. ilustradas com obras muito marcantes do artista plástico cabo-verdiano Alex da Silva), é uma boa ocasião para tomar o pulso à poesia de Cabo Verde, tal como esta antologia a apresenta.

Sobretudo, tendo em conta que há menos de dois anos, no nº 26 da revista DiVersos, de outubro de 2017, Rui Guilherme Silva apresentou uma outra seleção de poetas, com o título “Dez Poetas de Cabo Verde”, o que permite um exercício comparativo com algum potencial iluminador.

Apesar das aparências, os dois exercícios antológicos são animados por princípios diversos, tal como as publicações, ambas periódicas, são também diferentes nos seus modos de existência: a Atlântida é uma publicação do Instituto Açoriano de Cultura, e graficamente cativante; a DiVersos é uma revista de poesia, stricto sensu, hoje um projeto a cargo de José Carlos Marques, que confia no poder dos versos impressos na página e no apelo da tradução daquilo que, desde sempre, alimentou toda uma série de teorias do intraduzível, resumindo o seu projeto ‘impossível’ no subtítulo da publicação: “Poesia e Tradução”. Rui Guilherme Silva, talvez hoje o melhor estudioso da poesia de Cabo Verde, afirma, numa nota inicial significativamente intitulada (ou ressalvada) “Advertência(s) e Agradecimento(s)”, que “O título muito denotativo deste número da DiVersos – Dez Poetas de Cabo Verde – tem também o propósito de declinar qualquer propósito antológico”. No caso da Atlântida, quer o título da secção, quer a “Nota Breve” final de António de Névada (não tão breve, aliás), denunciam o propósito não apenas antológico, mas também hermenêutico, de oferecer uma visão e uma leitura do curso da poesia cabo-verdiana posterior à Claridade. Porque é esse um dos pontos em que ambos os antologiadores coincidem: a supressão da poesia “fundacional” da Claridade, no que respeita à ideia moderna de literatura cabo-verdiana. Não, seguramente, por reserva mental ou propósito de desqualificação da posição canónica de um Jorge Barbosa ou de um Osvaldo Alcântara, mas antes porque essa fundação é o pressuposto (e pré-conceito) sobre o qual se edifica a poesia cabo-verdiana contemporânea, cujo marco mais remoto Névada situa entre João Vário, Oswaldo Osório e Corsino Fortes e Rui Guilherme situa entre Vário e Mário Fonseca (Corsino não consta, nem da seleção de Rui Guilherme, nem da sua antologia virtual, para a qual, como veremos, refere alguns nomes que acrescentaria aos 10 poetas selecionados, sem mencionar Corsino). Continue reading


“Or would you rather be a fish?”: sobre ‘Paterson’, de Jim Jarmusch

1. Paterson abre com um plano, e uma cena, de Paterson (a personagem) a acordar, de manhã, na cama com a mulher. O primeiro dia é Monday, e o filme inscreve-o na imagem, naquele registo caligráfico que sugere uma entrada de diário. Começa a semana e começa o filme e começa o diário. O plano e a cena regressam ao longo dos sete dias do filme, em regime de variação (um termo explicitamente usado por Jarmusch em entrevistas sobre o filme), assegurando quer o recorte interno de um bloco diário, quer a continuidade sobre que se estrutura o filme: rotinas diárias, formas de vida, práticas de escrita e de inscrição matérica: os poemas que Paterson escreve no seu caderno, os círculos, traços e manchas a preto e branco que a sua mulher vai pintando pelas superfícies da casa e, por fim, nos cupcakes que leva à feira. Note-se, a propósito disto, que este é um admirável filme sobre o amor (o primeiro poema intitula-se, aliás, “Love Poem”) e, mais ainda, sobre o amor entre duas pessoas particularmente criativas, ainda que com uma diferença: Paterson é um poeta e toda a sua pulsão criativa é canalizada para um meio reconhecível, estável e anacrónico, o seu caderno; a mulher de Paterson, contudo, é uma artista multidisciplinar cujo meio favorito de expressão é a sua casa – mas não apenas, já que a certa altura compra uma guitarra para tentar realizar o seu sonho de ser uma estrela da country –, casa sobre a qual opera com uma tenacidade a um tempo expansiva e muito focada, já que o seu vocabulário é minimalista: preto e branco, círculos e traços.

O quotidiano é o mundo a partir do qual ambos operam, mas se em Paterson tudo se joga num caderno que será ou não um livro de poemas, na sua mulher a casa aspira à instalação e o seu melhor paradigma seria o Merzbau de Kurt Schwitters. 

Paterson, personagem, vive em Paterson, cidade, coincidência aqui e ali notada por outras personagens, em regime mais ou menos irónico. E vive, ainda, no poema Paterson, de William Carlos Williams, poeta que é a sua obsessão pessoal e no qual tudo começa e acaba. Mas isso, a auto-reflexividade irónica mas não cerebral, não obsta a um poderoso subtexto político, que nos apresenta a cidade de Paterson como uma comunidade fortemente multicultural (um ponto destacado por Sérgio Dias Branco, em crítica publicada no Avante) cujo contrato social é enunciado exemplarmente pelo condutor de autocarros de nome Paterson: ouvir (ou melhor, escutar), num regime de curiosidade não invasiva, exatamente como um condutor de autocarros que vai discretamente conhecendo aqueles que conduz, dispondo-se a acolher a heterogeneidade dos discursos dos seus passageiros. O condutor de autocarros seria aqui o ponto de apoio de uma alegoria cartográfica da Cidade enquanto posicionalidade infixa. Uma outra versão desse ponto de apoio de uma tal cartografia seria o dono do bar que Paterson todas as noites visita, mas que contudo não consegue atingir a dimensão de emblema do condutor de autocarros. Paterson seria, assim, a América na qual o outro não é codificado a priori como perigo, o que colocaria o condutor de autocarros no ponto simetricamente mais afastado desse outro condutor chamado Donald Trump. E o seu mandamento político poderia ser reportado a um título também ele emblemático de George Michael: Listen without Prejudice. Continue reading


Poesia XXI: uma coleção sobre a poesia portuguesa de hoje

A Imprensa da Universidade de Coimbra começou a publicar, no final de 2016, a coleção POESIA XXI. A coleção, de que sou coordenador, possui um conselho editorial que integra ainda José Augusto Cardoso Bernardes, atual diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Carlos Mendes de Sousa, da Universidade do Minho, e Pedro Serra, da Universidade de Salamanca.

A coleção, que se inspira no exemplo da coleção «Ciranda da Poesia», editada desde 2010 pela Editora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, sob a direção de Italo Moriconi, responde ao propósito de fazer conhecer mais de perto os nomes mais significativos da poesia e da crítica portuguesas de hoje, além de contribuir para ensinar a ler poesia pela demonstração prática da análise de poemas. Os livros, em formato de bolso, oscilam entre as 80 e as 120 pp., e dividem-se genericamente em duas partes: 1) uma breve apresentação da obra do poeta; 2) uma breve antologia, acompanhada de comentário a alguns dos poemas. A pertinência cultural da coleção dispensa justificação, não sendo por isso difícil prever que venha a conseguir tornar-se rapidamente uma referência entre todos os que, no país e no estrangeiro, se interessam pela poesia portuguesa e, mais latamente, em português, já que virá preencher uma óbvia lacuna editorial. Prevê-se que, numa fase posterior, a coleção se possa abrir ao Brasil e aos países africanos de língua portuguesa. Continue reading


Considerações demasiado pessoais sobre o poeta bissexto Manuel Resende

Creio que o meu primeiro contacto com Manuel Resende foi telefónico. Já o conhecia de livro, quer como poeta quer como tradutor, e de blog, na época da grande explosão desse meio, quando todos os dias nasciam novos blogs, novos autores e novas versões do que seja um autor – e uma dessas versões dava pelo nome, por vezes um tanto agreste, de Manuel Resende. Tínhamos tomado a decisão, o Américo Lindeza Diogo e eu (na altura, sócios maioritários da Angelus Novus, Editora), de tentar editar um volume de poesia de Manuel Resende e fiquei encarregado de o contactar. Falei com Manuel António Pina sobre o assunto e ele manifestou de imediato o seu entusiasmo com a ideia, uma vez que nutria um grande apreço pelo Resende Poeta, a seu ver insuficientemente valorizado. Da conversa, ou não fosse Pina um conversador sem igual, começou a surgir o perfil lendário de Manuel Resende, o revolucionário de mil episódios de abril (e de antes de abril) ou o poliglota sem par (que, jurava Pina, aprendera alemão lendo O Capital, de Marx, com dicionário ao lado, coisa que o próprio desmente, embora sem me convencer; digamos que prefiro acreditar no Pina).

A estes dois Resendes fui depois acrescentando outros, a partir do momento em que comecei a frequentá-lo em presença: o tripeiro com um gosto perverso por acentuar o sotaque e o vernáculo saboroso, sobretudo se em contexto cosmopolita ou “sulista”; o leitor obsessivo do primeiro Wittgenstein, pela via da sua paixão por lógica e matemática, que o levou ainda a Quine e outros (não me lembro de ter discutido com o Manuel a questão do místico no Tractatus, quando me apercebi, na casa de Santarém, da sua longa leitura da obra, e bem me arrependo disso: fica para a próxima, em Cascais); o fã do “cigano”, isto é, de Ricardo Quaresma, na altura em que ele fazia miséria na ala esquerda do ataque no Dragão, suscitando às vezes telefonemas entusiásticos; o palestiniano com o qual raramente consegui discutir o direito de Israel a existir enquanto Estado; o filólogo, isto é, a pessoa com amor pela linguagem e, antes disso, pelos muitos idiomas do mundo, com quem mantive pequenas e grandes discussões, sempre proveitosas, ou sobre palavras ou sobre filosofia da linguagem, e que sempre me pareceu, enquanto pessoa, a ilustração mais aproximada da temível ambição contida na frase com que Erich Auerbach encerrou o seu grande ensaio “Filologia da Weltliteratur”: “A nossa pátria filológica é a terra inteira”.

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