Mark E. Smith (1957-2018)

“I always thought the pure essence of rock’n’roll was a completely non-musical form of music. Rock and roll is surely not a ‘music’ form. I hate it when people say, ‘Oh, but the production’s so bad on it and I can’t hear the lyrics properly’. If they want all that then they should listen to classical music or Leonard Cohen – who’s nothing but ‘poetic’. I’m not about that. Writers like that are too serious and precious about their ‘craft’ as they call it. There’s no fire or danger there, because they’ve thought all of it out.”

Renegade. The Lives and Tales of Mark E. Smith, Penguin Books, 2008, p. 115.

Bill is Dead



Uma evocação de Carlos Cunha, entre Braga e São Paulo

Quando a Rita (a Professora Rita Patrício) me convidou para participar nesta evocação do Carlos (o Professor Carlos Cunha) vi-me naquela situação de quem não pode dizer que não, embora muito desejasse fazê-lo. Não podia dizer que não pois sempre guardei do Carlos a melhor impressão pessoal, ainda que os nossos contactos não fossem muito frequentes. Mas sabia que, vindo à Universidade do Minho, o reencontraria, naquele gesto de avançar para nós, sorriso rasgado, aperto de mão forte, prolongado num meio abraço acolhedor – tudo isso que comecei por conhecer em Coimbra, quando o Carlos lá frequentou a parte curricular do Mestrado. Obviamente, não é Coimbra que está em causa nessa cena primitiva do nosso encontro mas sim o Professor Aguiar e Silva – uma outra razão para não poder dizer que não. A minha relação com a Universidade do Minho, que é uma relação próxima, sempre foi mediada pelo prof. Aguiar e Silva, e o Carlos sempre foi para mim o Minho (não apenas a universidade), o Prof. Aguiar e Silva e a Teoria da Literatura, tudo isso num compacto peculiar mas reconhecível.

Há um momento na nossa vida em que a morte se torna familiar – e nada volta a entrar realmente nos eixos. Passamos a viver no regime um tanto póstumo de quem ficou para trás, sem perceber porquê, face àqueles que se adiantaram e desapareceram, mais ou menos subitamente. E vemo-nos na situação de quem tem de aceitar o inaceitável e recuperar do passado tudo aquilo que nos permita continuar («Il faut continuer», como dizia, a respeito de outra coisa, ou talvez não, Theodor Adorno). Lembro-me, por exemplo, cada vez mais, do Carlos, da Rita e do José Cândido em Ponta Delgada, no colóquio de homenagem ao Professor Aguiar e Silva, lembro-me das brincadeiras maliciosas (minhas e dos outros) sobre Teófilo Braga, sobretudo numa caminhada noturna, após um jantar, e um tanto por acaso, até ao monumento ao grande positivista e historiador da literatura, no Forte de S. Brás. O pretexto era obviamente o estudo, verdadeiramente impressionante, que o Carlos dedicara, na tese de doutoramento, à obra de Teófilo – e o Carlos ria e entrava no jogo, ao mesmo tempo que garantia que já tinha a sua dose de Teófilo. Mas lembro-me também do tempo longuíssimo que o Carlos teve de esperar pela saída do nº 1 da Revista de Estudos Literários, do Centro de Literatura Portuguesa, um número organizado por António Apolinário Lourenço e por mim, sobre os estudos literários em Portugal no século XX. Tudo se atrasou para lá do previsível e até do aceitável – mas o Carlos nunca protestou e nunca retirou o seu texto, o que seria até compreensível neste tempo de publicação em regime histérico. E, contudo, fora o primeiro a entregar o texto solicitado. Continue reading