100 anos de Carlos de Oliveira

Que razão sustenta a celebração pública de um escritor, ou seja, de alguém que dedica a sua vida a peneirar as palavras da sua tribo para lhes conferir um sentido mais puro e assim acrescentar algumas histórias ao acervo da sua comunidade? A pergunta, e a razão ou razões que a sustentam, tem em Portugal um sentido especial, uma vez que o dia escolhido para celebrar a nação e as comunidades portuguesas pelo mundo, é igualmente o dia em que celebramos o maior dos nossos poetas. Este gesto, e esta coincidência, são suficientemente raros entre as outras nações para que consigamos resistir a atribuir-lhes algum sentido particular a nosso respeito.

Uma nação, dizia o pensador francês Ernest Renan no final do século XIX, é um plebiscito diário, pelo qual os seus membros decidem, entre outras coisas, aquilo que desejam recordar e aquilo que desejam esquecer. Por outras palavras, o que a nação elege diariamente são as histórias que deseja continuar a contar entre si à roda da fogueira, e quais as que deseja esquecer. Boa parte dos problemas do Portugal contemporâneo residem, estou em crer, na dificuldade em eleger uma história que nos mobilize a quase todos, encontrando nela uma razão para continuarmos juntos. Em perspetiva histórica, o contraste é flagrante, pois os portugueses manifestaram durante séculos a sua preferência por uma história cujos pontos altos ocorreram entre 1498 e 1500, ou seja, entre a viagem de Vasco da Gama e a de Pedro Álvares Cabral. Essa história remota produziu efeitos duradouros na nossa cultura, isto é, na nossa forma de viver, pensar e imaginar, como se percebe analisando a toponímia de qualquer das nossas cidades, incluindo Cantanhede, dos nomes de ruas aos monumentos públicos, pois toda a localidade deste país sonha encontrar nos seus arquivos um descobridor – como é o caso de Pedro Teixeira, descobridor e conquistador da Amazónia, demarcador de territórios e fundador de cidades. Esta história inscreveu-se tão profundamente na nossa psique, tornou-se tão definidora daquilo que desejamos recordar, que de cada vez que alguém, ao longo dos séculos, de Diogo do Couto, coevo e amigo de Camões, a Amílcar Cabral, na antiga África portuguesa, ou a Ailton Krenak, líder indígena atual no Brasil, alertou para a sua contraface tenebrosa – a violência e a crueldade, o roubo e o saque, a escravização e destruição de povos inteiros – a reação imediata foi a de recusar a esse outro lado o direito de memória, deixando imediatamente claro que isso é justamente o que não desejamos recordar, aquilo que nos esforçamos por recalcar eternamente. Continue reading


A fotografia, uma arte com cadastro, por Roberto Franco

Entre 1998 e 2001 o site Ciberkiosk, fundado e produzido em Coimbra – arduamente, dada a inexistência do que viriam a ser depois os templates, que permitem hoje dar por adquiridos uma série de requisitos que então tinham de ser gerados para cada texto e número do site-jornal -, mas com colaboradores por todo o país e, depois, pelo estrangeiro, com destaque para Espanha e Brasil, foi uma experiência inesquecível naquilo que era então o continente ainda misterioso da hiper-mediação proposta pelo mundo digital. O Ciberkiosk, ou simplesmente Kiosk para os mais próximos, aproximou gente de várias latitudes geográficas e intelectuais e marcou brevemente essa época em que o digital parecia apenas acrescentar possibilidades, coisa que entretanto percebemos não ser exata, já que a ecologia do digital se revelou também altamente destrutiva, como sucede com todas as revoluções. Na fase inicial do Ciberkiosk, quando os colaboradores ainda eram em número reduzido, assinei alguns textos com pseudónimos, distribuindo-os por várias disciplinas. Recupero aqui um desses textos, sobre fotografia, assinado por Roberto Franco (nome inspirado em Robert Frank, que uma tarde vi, incrédulo, na Rua Ferreira Borges, no contexto dos Encontros de Fotografia de então), no nº 1 do Ciberkiosk, de março de 1998.


1. No Porto, e após um longo folhetim «camiliano», o Centro Nacional de Fotografia estreou as suas actividades com duas exposições no edifício da antiga Cadeia da Relação, local que a partir de agora albergará regularmente as exposições promovidas pelo Centro.

O edifício da Cadeia da Relação é, como se sabe, um espaço mítico. Todas as cadeias o são, pelo que pressupõem da suspensão do tempo de que se faz o mito. A cadeia é a redoma em que a cidade preserva o inominável, preservando-se a si mesma (ou julgando fazê-lo) nesse gesto. Mas a cadeia é também um poderoso dispositivo hermenêutico das sociedades com que convive. Ela dá-nos a ler a historicidade da moral e dos valores, o relativismo da justiça e a naturalização da crueldade. De certo e inadmissível modo, necessitamos dela para nos conhecermos enquanto animais morais, sociais e políticos. Como se vê na regressão global do pensamento judicial contemporâneo em matéria prisional, nela se concentram o nosso optimismo ou, hoje, o nosso cepticismo sobre nada mais nada menos do que a natureza humana. A cadeia é, pois, o nosso mais impiedoso photomaton: ela fala por nós. Continue reading


Conferências do Cinquentenário da Teoria da Literatura: discurso de abertura

[Discurso lido na abertura das Conferências do Cinquentenário da Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva, na Sala de S. Pedro da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra]

Reunimo-nos hoje aqui, e de novo no próximo dia 15 de dezembro em Braga, para celebrar os 50 anos de um livro cujo título coincide com uma disciplina definidora das Humanidades novecentistas, quer as tomemos no sentido estrito de estudos literários e filológicos, quer no sentido lato de disciplinas que estudam textos, formas de escrita, inscrição, disseminação de sentido e leitura, já que todas elas sofreram o impacto da Teoria da Literatura. O livro que aqui nos traz teve a grande virtude de saber ser mais do que um livro (e muito mais do que um manual) ao longo destas cinco décadas, mudando pela própria exigência e pressão das circunstâncias de produção e circulação de conhecimento, mas também pela insatisfação permanente e pelo espírito de inquirição que sempre animaram o seu autor, um académico dividido entre a vertigem do acesso às fontes e a consciência de que a ciência, em particular a ciência normal, exige também a capacidade, ao alcance apenas de alguns raros, de produzir terraplanagens para assim abrir panoramas que nos permitam contemplar e situar todo um campo do saber. Mas a Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva foi mais do que um livro, não apenas por ter evitado cristalizar na sua primeira versão – e sim por ter coincidido, em grande medida, entre nós mas não apenas (lembro o impacto da obra no Brasil e na Espanha e na hispano-América), com a disciplina a que foi buscar o nome, e de que se tornou, no mundo universitário que referi, metonímia. Por isso mesmo, é difícil falar deste livro sem falar de muitas coisas que se situam além dele, mas de que ele participa, ao menos em parte: o devir dos estudos literários em geral; o devir da Teoria da Literatura no seu transcurso já secular; a relação entre a Teoria da Literatura, como disciplina moderna, e o seu ascendente clássico, a Poética; a relação entre a Teoria da Literatura e as Humanidades; a epistemofilia que se apoderou dos estudos literários na esteira da Teoria da Literatura; o reforço das exigências da disciplinaridade e, ao mesmo tempo, o imperativo da interdisciplinaridade; as grande ambições (e, acima de todas, as da semiótica e do estruturalismo) e a humildade de quem sabe que no início, e no final de tudo, há sempre um texto e um leitor em luta com ele; enfim, a experiência da sala de aula, o verdadeiro locus do humanista, e o impacto da Teoria no Ensino. Continue reading


Vítor Aguiar e Silva: 50 anos depois

Tem hoje lugar, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a primeira sessão das “Conferências do Cinquentenário” que assinalam os 50 anos de publicação da Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva. Transcrevo o texto de referência do evento:

Em 1967 e, numa primeira ocorrência, em fascículos, foi editada em Coimbra, pela Livraria Almedina, a Teoria da Literatura, de Vítor Aguiar e Silva. Reeditada desde então, profundamente repensada a partir da 4ª edição, de 1981, editada no Brasil e traduzida para espanhol, a obra, que viria conhecer um significativo impacto no Brasil e no mundo hispânico, confunde-se com a história da disciplina introduzida nos curricula universitários portugueses com a reforma de 1957, vindo também a produzir efeitos no ensino da literatura nas Escolas Secundárias do país. Embora o seu autor tenha publicado depois uma série de obras de referência, quer no domínio da teoria da literatura, quer no dos estudos camonianos, dos estudos sobre o maneirismo e o barroco, ou sobre as humanidades, a Teoria da Literatura permanece a obra à qual o seu nome é de imediato associado.

As universidades de Coimbra e do Minho associam-se numa comemoração, que aspira a ser um momento de exigente reflexão académica, dos 50 anos da 1ª edição da Teoria da Literatura, de Vítor Aguiar e Silva. As Conferências do Cinquentenário, distribuídas por duas sessões nas duas universidades, a 16 de novembro em Coimbra e a 15 de dezembro em Braga, discutirão as grandes questões colocadas pelo livro e pela obra de Vítor Aguiar e Silva no domínio da Teoria da Literatura e da sua relação com as Humanidades. O temário a explorar será o seguinte:

1) A Teoria da Literatura entre os livros de Vítor Aguiar e Silva

2) As várias Teoria(s) da Literatura de Vítor Aguiar e Silva

3) A Teoria da Literatura hoje

4) A Teoria da Literatura ao longo destes 50 anos

5) Os estudos literários depois da Teoria da Literatura

6) A Teoria da Literatura e as Humanidades

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