Eduardo Lourenço: um tempo brasileiro breve mas duradouro

O volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço dedicado ao Brasil, com o título Tempo Brasileiro: Fascínio e Miragem, tem cerca de 700 páginas. Um tal volume de escrita é, obviamente, justificação bastante para um colóquio como este. Mas o que surpreende é a constatação de que toda essa reflexão sobre matéria brasileira parte de um conhecimento direto de apenas um ano, em 1958-59, quando Lourenço foi docente de filosofia na Universidade da Bahia, ainda que acrescentado por alguns outros períodos mais ou menos breves (um semestre como professor visitante no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, a UNICAMP, nos anos 80, por exemplo). Daí o título proposto para este evento: um tempo brasileiro breve, enquanto experiência direta, mas duradouro nos seus efeitos e ressonância.

Dispomos de várias descrições do período de Eduardo Lourenço na Bahia, todas elas saborosas, francas e corajosas, desde logo na admissão de choques culturais, estranhamentos e resistências do próprio ensaísta a essa cultura outra que é a do Brasil baiano. Permitam-me que recorde alguns desses momentos. Para começar, a estranheza do professor que vê uma funcionária entrar a certa altura na sala de aula com uma bandeja com uma xícara de café, que não bebe por não beber café, para passado um bocado ver a funcionária regressar, desta vez com um sumo de guaraná, que achará “uma coisa indescritível, deliciosa” (TB, p. 560), convencendo-nos intimamente de que esse guaraná bebido numa aula de fenomenologia será para sempre a sua madeleine brasileira. Ou o momento em que um jovem expansivo, frequentador ocasional das suas aulas, lhe exibe o grosso volume de Grande Sertão: Veredas e proclama que se o professor quiser conhecer o Brasil terá de ler a obra maior de João Guimarães Rosa. O jovem chamava-se Glauber Rocha e será um dos grandes momentos de revelação do Brasil durante a sua estadia e mesmo depois. Ou ainda esse momento único e demasiado revelador em que num terreiro de candomblé, sentindo os efeitos da percussão sobre o seu cartesianismo, o intelectual “horrorosamente europeu” que é Lourenço recusa o transe e deixa o terreiro – espantado por ver Jorge Amado entregar-se àquilo mesmo. E, claro, todos os episódios relativos à Bahia daqueles anos, anos que coincidem com um dos períodos em que o Brasil “vai dar certo”, o período de Juscelino Kubitschek, em que instituições são criadas (universidades, por exemplo, como a de Assis, a cuja fundação assiste, deslumbrado com as batas brancas dos professores, como se toda a universidade quisesse dar prova da sua entrega ao ofício e culto da ciência) e em que uma vivência democrática se instala, como nos concertos de música do século XX pelo maestro Koellreuther na reitoria da Universidade da Bahia, “com pessoas de pé descalço na assistência que entravam e sentavam-se nas cadeiras… o mais democraticamente do mundo”. Continue reading


A Teoria da Literatura no Brasil

A designação deste colóquio, na sua aparente neutralidade descritiva, não foi fácil, já que por um tempo, e mesmo à data dos primeiros contactos, o título final – A Teoria da Literatura no Brasil – conviveu com uma outra versão, A Teoria Literária no Brasil. A certa altura, porém, tendo-me apercebido da confusão, percebi também que nada se ganharia em admitir à discussão a latitude da expressão “teoria literária”, muito embora ficasse claro para mim que essa outra versão estava condenada a funcionar como um recalcado que, mais ou menos fatalmente, regressa para nos assombrar. Em todo o caso, a disciplinaridade do título final tem a vantagem de forçar a uma operação de terraplanagem do campo, exigindo-nos que tomemos decisões (epistemológicas, genealógicas e metodológicas) sobre aquilo que no Brasil foi e é a Teoria da Literatura, enquanto disciplina que, para o bem e o mal, define os estudos literários no século XX. Mas para além disso, um evento sobre teoria da literatura é ainda uma ocasião para pensarmos a função da teoria, razão pela qual o caderno do programa do evento abre com um verso do poeta português António Franco Alexandre, “mas a verdade mais abstrata é a mais prática”, no seu grande poema “Emersoniana”, que agora desejo ler:

a oeste são os planaltos, a vida selvagem
que um céu de água recolhe,
um horizonte de coisas por dizer, por acontecer
mas a verdade mais abstrata é a mais prática:
let him look at the stars. tão longe
do seu próprio quarto como da multidão.

por isso os selvagens, que não têm mais
que o necessário,
conversam em figuras.
esta dependência imediata da linguagem
esta radical correspondência das coisas visíveis
nunca perde o poder de afectar-nos.

devemos ir sós, vivos e sós. i must
be myself.
tudo quanto Adão teve, o céu a terra a sua casa,
tudo podes e tens.
keep thy state; come not into their confusion.
constrói, sim, o teu reino, o teu mundo: natureza.

E agora, o original de Emerson por trás do verso de Franco Alexandre:

“All science has one aim, namely, to find a theory of nature. We have theories of races and of functions, but scarcely yet a remote approach to an idea of creation. We are now so far from the road to truth, that religious teachers dispute and hate each other, and speculative men are esteemed unsound and frivolous. But to a sound judgment, the most abstract truth is the most practical. Whenever a true theory appears, it will be its own evidence. Its test is, that it will explain all phenomena. Now many are thought not only unexplained but inexplicable; as language, sleep, madness, dreams, beasts, sex.” [R. W. Emerson, Nature addresses and lectures]

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Kerouac 100

I had intended to mention, briefly, in this opening, the nature of the debt I incurred with Jack Kerouac long years ago, when at the end of On the Road I read that qualification of  Dean Moriarty as “the father we never found”. Maybe because although my father is still alive, and in spite of the fact he was always a good and loving father, I have always felt that Dean Moriarty was, also for me, “the father we never found”, at that age when we all need a second father, preferably almost our own age, preferably someone who will lead us to the other side of the mirror and away from the meek life. Professional burdens and personal contingencies, however, have conspired to rob me of the time that would allow me to state the reasons why, as director of the department of languages, literatures, and cultures, I am wholeheartedly behind this event. But that’s okay, because I believe this conference will be enlightening enough in itself. Because to celebrate Kerouac’s work is to celebrate an idea of writing as a crossing of this vast and unsettled continent that we mistakenly call life, and that we can only endure because we know it is a journey with a thousand paths, but no destination. And that is what great literature teaches us, even, or especially, when it does not wish to teach us anything – and thank God for that.

On behalf of the Department of Languages, Literatures and Cultures I want to thank all the participants in this conference, as well as the musicians who will close it with a concert at the Paulo Quintela Theater. My special thanks go to my colleagues in the Anglo-American Studies Section directly involved in the organization, Professors Graça Capinha, Maria José Canelo and Susana Araújo. I would also like to thank the FLUC administration, in the person of our Director, for the support he has given us. I wish you all an excellent conference.

[This small text was delivered at the opening session of Kerouac 100, at the Faculty of Letters of the University of Coimbra, on October 28, 2022]


Jornadas Literárias de Sharjah em Coimbra

O volume Lendas e Narrativas, de Alexandre Herculano, importante escritor português do período romântico, inclui um texto, intitulado “Destruição de Áuria – Lendas Espanholas (Século VIII)”, publicado pela primeira vez na revista Panorama em 1838. O texto abre com uma espantosa prosopopeia que unifica “as províncias de Espanha”, ou seja, toda a Península Ibérica, num grito de dor ante a invasão muçulmana: “Um som de queixume e pavor – um grito tremendo e doloroso se escutava em todas as províncias de Espanha. Desde os fraguedos de Gibraltar, até os distantes desvios das Astúrias, não se via senão desespero, aflição e luto. O império fugira das mãos dos Godos, o trono de Rodrigo jazia por terra, e estava fadado que a altiva Espanha sofresse o jugo do invasor muçulmano”[1]. Mais adiante, descrevendo as vagas da invasão da península, afirma-se que “Diante deles, o país parecia os jardins do Éden; atrás deles, um ermo despido”[2]. Alexandre Herculano, que foi também um importantíssimo historiador, sempre empenhado em usar a Razão para desfazer mitos historiográficos, cede aqui, como de resto em muitos outros passos da sua produção literária, à visão cristã do processo histórico, na verdade anunciada desde o século IX, quando se começa a produzir a narrativa que, definindo a Hispânia como essencialmente cristã, considera a presença árabo-islâmica “uma intrusão que cumpria à monarquia asturiana eliminar”[3]. Esta narrativa fundamentará depois a construção das monarquias hispânicas, incluindo a portuguesa, e justificará a descrição de todo o processo como “Reconquista”, uma imagem problemática, por muitas razões.

Um dos grandes problemas desta narrativa, como sabemos, é que a longa duração do al-Andalus se deveu sobretudo ao grande desenvolvimento urbano, à sofisticação da cultura material, ao cosmopolitismo intelectual, enfim, a um profundo processo de aculturação, sobretudo visível nas zonas de contacto. É o caso de Coimbra, zona de cultura moçárabe que, na descrição de José Mattoso, “preservava elementos importantes não só da civilização árabe, mas também do direito e da liturgia visigótica, de algumas instituições romanas, da língua latina e dos costumes populares vindos já desde o Baixo Império, os quais se podem opor, pela sua feição mediterrânica, à tendência cultural dominante no Norte” – que o historiador descreve como “de caráter guerreiro, campestre e rude”[4]. É certo que, por outro lado, enquanto zona de fronteira, Coimbra foi também zona de combate permanente. E, como nota ainda José Mattoso, “O papel que a guerra teve nesta fase fundacional marcou para sempre o país, do ponto de vista ideológico, por se tratar de uma guerra religiosa”[5]. Isto passou-se, contudo, há mais de oito séculos, pelo que, na perspetiva que é hoje a nossa – uma perspetiva crítica de todos os etnocentrismos, de todos os imperialismos e de todas as guerras, religiosas ou não –, cabe-nos acarinhar esse perfil moçárabe que, nas palavras de José Mattoso, veio a produzir um equilíbrio entre as culturas do norte e do sul daquilo que viria a ser Portugal, inscrevendo a herança árabe em estratos profundos da cultura portuguesa. Continue reading


Sobre o ensino da literatura. A partir de Paulo Franchetti

O elenco incompleto de livros de Paulo Franchetti expostos na mesa grande do IEB termina, neste momento, no pequeno volume Sobre o Ensino de Literatura, editado pela UNESP em 2021. Um volume pequeno, de pouco mais de 100 páginas, mas que percorre toda uma vida de dedicação a uma atividade que só parece ser dotada de uma justificação quando não pensamos nessa questão, o que de resto define a prática dos professores de literatura: fazem uma coisa em que acreditam, mas só até ao momento em que interrogam as razões da sua crença. A situação seria análoga à do estudante de teologia que, na descrição de Karl Popper, seria justamente aquele que o faz porque duvida da sua fé. Contudo, e como sabemos há muito, a dúvida, metódica ou não, tem uma produtividade própria, ainda que neste caso essa produtividade seja estranhamente assimétrica. De facto, a disparidade entre a prática definidora de uma profissão – o ensino da literatura – e o volume de reflexão sobre essa prática manifesta-se, desde logo, na escassez de produção sobre o assunto, quando confrontada com a abundância de escrita sobre literatura. Esse é, aliás, um tópico inicial deste mais recente livro de Paulo Franchetti, que também por essa razão funciona como fonte e pretexto para a jornada de debate que o Instituto de Estudos Brasileiros promove neste dia, aproveitando para homenagear o trabalho do autor (visita recorrente no IEB nos últimos anos) no domínio dos estudos brasileiros e portugueses.

No ensaio “O que fica do que passa. Sobre o estudo e o ensino da literatura”, com que o livro abre, Franchetti procede a uma reconstrução do panorama do ensino da literatura no Brasil desde a criação da Universidade de São Paulo, nos anos 30 do século XX, concluindo pela crise de uma série de legitimações: “Neste quadro, ensinar a literatura como parte ou lugar privilegiado da formação nacional deixou de fazer sentido. Quase tanto como a ideia de formação nacional” (p. 23) [1]. Sem qualquer ilusão, afirma em seguida que “Um ensino voltado à construção do repertório e capaz de instrumentar a leitura com dados da tradição literária começa a parecer pouco interessante, quando não improdutivo ou até mesmo inútil” (p. 23). Em vez da retração num ideal de profissionalismo estrito – “maior especialização do crítico e do professor, consubstanciada num discurso autorreferenciado e hermético” (p. 25) – o autor propõe que “A solução passaria, isso sim, pela busca de um lugar novo para a literatura, no âmbito de uma formação humanística ampla, cuja preocupação central não fosse a formação de professores de Português ou de Literatura” (id.). O argumento deixa vir à tona o lastro iluminista do autor, sempre dividido entre o apelo da sala de aula como local onde acontece aquilo que só na aula enquanto “espaço de interrupção” pode acontecer, e uma esfera pública na qual a aula seria sem paredes e o professor um “professor de leitura, um profissional capaz de obter o maior rendimento da leitura de um texto literário com vistas à formação de um público culto” (id.). Continue reading


Desbundados e Porraloucas. A Contracultura Revisitada

Um colega estrangeiro (e residente no estrangeiro, embora nem sempre), a quem o meu convite para participar neste colóquio não seduziu o bastante, comentou por mail que o elenco de intervenientes era já bastante bom, sobretudo por incluir estudantes e recém-doutorados. E acrescentou: “Que os estudantes falem e que o debate se torne autobiográfico! ‘O que é que o Sr Doutor fez durante a primeira grande guerra cultural?’” [1] No meu caso, era demasiado jovem para fazer outra coisa do que dançar, com calças de boca de sino e sapatos de tacão alto, ao som de La décadanse de Serge Gainsbourg. Sem grande consciência de estar a participar na Primeira Grande Guerra Cultural, pois aquela era simplesmente a cultura em que me movia e respirava, na pré-adolescência.

Muito reveladoramente, o título deste colóquio suscita de imediato problemas que são filológicos por serem autobiográficos, ou ao invés. O título, esclareça-se, pertence ao reitor da Academia Alternativa Porralouca, Alcir Pécora, que respondeu ao meu pedido de ajuda em matéria de título com aquele que foi logo eleito (faço notar que a primeira palestra sobre “Contracultura, experimentalismo e desbunde na prosa brasileira dos anos 60 e 70” proferida no IEB pertenceu a Alcir Pécora, no dia 1 de outubro de 2014, tendo-se seguido outras). Quando, porém, me ocorreu traduzir o título nas línguas mais diretamente envolvidas no colóquio, rapidamente percebi que uma competência linguística, ainda que alargada, não bastava para responder satisfatoriamente às exigências colocadas pela tradução. O caso mais espetacular de dificuldade intransponível de tradução é o que ocorre, de resto, entre o português do Brasil e o de Portugal, já que não existe um termo ao qual, em registo autobiográfico, possamos remontar na nossa memória vivencial para traduzir “desbundado” ou “porralouca” para o português de cá. Se percorrermos o Houaiss, o dicionário dirá que porra-louca (com hífen pré-acordo ortográfico) é “aquele que age de maneira inconsequente, louca, irresponsável”. Quanto a desbundado, a lista é vasta, indo de extasiado, maravilhado, deslumbrado até “que adotou comportamento libertino” – o que a entrada desbundar esclarece que se pode dever a efeito de álcool ou drogas –, referindo ainda que se trata de alguém “que largou a atividade política; alienado” (o Aurélio, curiosamente, não menciona esta dimensão política). A tudo isto, menos o desbunde político, que em Portugal não mereceu investimento semântico equivalente, talvez por a situação política, ainda que identicamente repressiva, não ser idêntica (nunca o é), chamava-se por cá “freaks”, ou melhor, “friques”, o que significa que os problemas de nomeação foram resolvidos com um estrangeirismo que virou neologismo. A tradução, resumamos o problema, necessita de uma filologia “geracional” que recupere a gíria em causa para estar à altura do investimento existencial propiciado pela contracultura – já que a alternativa seria uma espécie de tecnocracia da tradução que perderia de visto esse assalto juvenil à linguagem que define a contracultura. Continue reading


Leitura de “Sobre o canto” [A Distância, 1969], de António Franco Alexandre

POÉTICA. O livro A Distância (1969) divide-se em duas partes: a primeira, “Poética”, composta por 20 poemas, ou 20 secções de uma longa variação sobre a ideia e experiência de distância, todos eles datados, por mês e ano, de outubro de 1963 a dezembro de 1968, numa progressão descontínua; a segunda, “Discursos”, composta por 9 poemas “Sobre” (por vezes “De”) coisas como a poesia, o amor, o desejo, a simplicidade, a ausência ou mesmo “uma longa marcha”, título do poema final, e também datados entre julho de 1968 e abril de 1969. Trata-se, pois, de poesia dos anos 60 e, em boa medida, sobre os anos 60, esse período de nomadismo, não apenas académico, do autor, aliás evocado em “L’oubli”, um dos grandes poemas do livro seguinte, Sem palavras nem coisas, de 1974, poema no qual se pode ler: “e à entrada de um novo / dicionário: “é impossível escrever português / fora de Portugal. é impossível / escrever”. Ou ainda: “De boston, em resposta a poemas / alheios: ‘estou inocente, é difícil’ ”. Admitindo aquela tese antiga, e forte, de Fredric Jameson, segundo a qual os anos 60 terminaram com a descolonização portuguesa, proponho que se leia o segundo livro como um relançamento das coordenadas delineadas por A Distância,  que se tornam claras em poemas como “Tríptico nómada”, que no livro de 1974 tematiza o nomadismo do livro inicial, dividindo-o por Nova Iorque, Paris e Veneza, bem como pela trilogia “política, sexo & drogas” (deixemos para daqui a pouco o rock’n’roll) patente, na secção “III – Veneza, travessia”, em versos como “il manifesto / deitado sobre a cama, junto ao sexo”, ou “vago, de hashish, o acre / minuto de falar”. Na minha leitura, que é basicamente a de Américo António Lindeza Diogo, os anos 70 chegam de facto com Os Objetos Principais, livro da revolução terminada ou, na formulação mais memorável do livro, “da mesa de piquenique repentinamente abandonada”.

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Conferências do Cinquentenário da Teoria da Literatura: discurso de abertura

[Discurso lido na abertura das Conferências do Cinquentenário da Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva, na Sala de S. Pedro da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra]

Reunimo-nos hoje aqui, e de novo no próximo dia 15 de dezembro em Braga, para celebrar os 50 anos de um livro cujo título coincide com uma disciplina definidora das Humanidades novecentistas, quer as tomemos no sentido estrito de estudos literários e filológicos, quer no sentido lato de disciplinas que estudam textos, formas de escrita, inscrição, disseminação de sentido e leitura, já que todas elas sofreram o impacto da Teoria da Literatura. O livro que aqui nos traz teve a grande virtude de saber ser mais do que um livro (e muito mais do que um manual) ao longo destas cinco décadas, mudando pela própria exigência e pressão das circunstâncias de produção e circulação de conhecimento, mas também pela insatisfação permanente e pelo espírito de inquirição que sempre animaram o seu autor, um académico dividido entre a vertigem do acesso às fontes e a consciência de que a ciência, em particular a ciência normal, exige também a capacidade, ao alcance apenas de alguns raros, de produzir terraplanagens para assim abrir panoramas que nos permitam contemplar e situar todo um campo do saber. Mas a Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva foi mais do que um livro, não apenas por ter evitado cristalizar na sua primeira versão – e sim por ter coincidido, em grande medida, entre nós mas não apenas (lembro o impacto da obra no Brasil e na Espanha e na hispano-América), com a disciplina a que foi buscar o nome, e de que se tornou, no mundo universitário que referi, metonímia. Por isso mesmo, é difícil falar deste livro sem falar de muitas coisas que se situam além dele, mas de que ele participa, ao menos em parte: o devir dos estudos literários em geral; o devir da Teoria da Literatura no seu transcurso já secular; a relação entre a Teoria da Literatura, como disciplina moderna, e o seu ascendente clássico, a Poética; a relação entre a Teoria da Literatura e as Humanidades; a epistemofilia que se apoderou dos estudos literários na esteira da Teoria da Literatura; o reforço das exigências da disciplinaridade e, ao mesmo tempo, o imperativo da interdisciplinaridade; as grande ambições (e, acima de todas, as da semiótica e do estruturalismo) e a humildade de quem sabe que no início, e no final de tudo, há sempre um texto e um leitor em luta com ele; enfim, a experiência da sala de aula, o verdadeiro locus do humanista, e o impacto da Teoria no Ensino. Continue reading


Vítor Aguiar e Silva: 50 anos depois

Tem hoje lugar, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a primeira sessão das “Conferências do Cinquentenário” que assinalam os 50 anos de publicação da Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva. Transcrevo o texto de referência do evento:

Em 1967 e, numa primeira ocorrência, em fascículos, foi editada em Coimbra, pela Livraria Almedina, a Teoria da Literatura, de Vítor Aguiar e Silva. Reeditada desde então, profundamente repensada a partir da 4ª edição, de 1981, editada no Brasil e traduzida para espanhol, a obra, que viria conhecer um significativo impacto no Brasil e no mundo hispânico, confunde-se com a história da disciplina introduzida nos curricula universitários portugueses com a reforma de 1957, vindo também a produzir efeitos no ensino da literatura nas Escolas Secundárias do país. Embora o seu autor tenha publicado depois uma série de obras de referência, quer no domínio da teoria da literatura, quer no dos estudos camonianos, dos estudos sobre o maneirismo e o barroco, ou sobre as humanidades, a Teoria da Literatura permanece a obra à qual o seu nome é de imediato associado.

As universidades de Coimbra e do Minho associam-se numa comemoração, que aspira a ser um momento de exigente reflexão académica, dos 50 anos da 1ª edição da Teoria da Literatura, de Vítor Aguiar e Silva. As Conferências do Cinquentenário, distribuídas por duas sessões nas duas universidades, a 16 de novembro em Coimbra e a 15 de dezembro em Braga, discutirão as grandes questões colocadas pelo livro e pela obra de Vítor Aguiar e Silva no domínio da Teoria da Literatura e da sua relação com as Humanidades. O temário a explorar será o seguinte:

1) A Teoria da Literatura entre os livros de Vítor Aguiar e Silva

2) As várias Teoria(s) da Literatura de Vítor Aguiar e Silva

3) A Teoria da Literatura hoje

4) A Teoria da Literatura ao longo destes 50 anos

5) Os estudos literários depois da Teoria da Literatura

6) A Teoria da Literatura e as Humanidades

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Carlos de Oliveira e a ideia do Moderno: colóquio na Casa Pessoa

Na próxima sexta-feira, 15 de setembro, terá lugar na Casa Pessoa, em Lisboa, o colóquio “Carlos de Oliveira e a Ideia do Moderno”. Inserido na programação paralela à exposição do espólio do autor no Museu do Neo-Realismo, o colóquio é uma organização da Casa Pessoa, do Museu do Neo-Realismo e do Centro de Literatura Portuguesa. O texto de referência do colóquio é o seguinte:

A inscrição do Moderno na obra de Carlos de Oliveira ganha a sua formulação talvez mais reveladora no poema que, em 1971, integra Entre duas memórias: «Descrição da guerra em Guernica». Ou seja, uma descrição de uma tela emblemática do pintor emblemático da pintura moderna (Picasso), escolhida décadas depois da sua produção para um exercício que convoca e, ao mesmo tempo, questiona o realismo como prática representacional. Mas o moderno ganha em Oliveira rostos diversos, de Gomes Leal a Cesário Verde, Camilo Pessanha, Maiakovski ou o Nouveau Roman, sem esquecer Fernando Pessoa, objeto de um tratamento muito particular, entre a rasura e a presença cúmplice e silenciosa. Sobre tudo isto, bem como sobre a presença dos novos meios (fotografia e cinema) em Carlos de Oliveira, se falará neste colóquio. Continue reading


Gândara e cultura popular em Carlos de Oliveira: colóquio

Foto de Carlos de Oliveira, Gândara, 1949-1952

No próximo dia 17, sábado, decorrerá em Cantanhede, no Auditório do Centro Social e Paroquial de S. Pedro, um colóquio intitulado ‘Gândara e cultura popular em Carlos de Oliveira’. O colóquio, que integra a programação em torno da exposição do espólio de Carlos de Oliveira no Museu do Neo-Realismo, tentará explorar as questões formuladas neste texto:

Carlos de Oliveira escreveu, em O Aprendiz de Feiticeiro, que a Gândara o tinha «tatuado», e daí a «pouca distanciação» com que dela falava. Qual o alcance dessa «tatuagem» e quais as dimensões da Gândara, e da cultura popular (a local e a não local), que é possível rastrear na obra de Carlos de Oliveira?

O programa do colóquio é o seguinte:

15h
Ida Alves (Universidade Federal Fluminense, Brasil), “Tocar a terra para criar”.

15h30
Rui Mateus (Centro de Literatura Portuguesa), “Representações da Gândara na poesia de Carlos de Oliveira. Um percurso de despojamento”.

16h
Sonia Miceli (Centro de Estudos Comparatistas), “Sinais de chuva. O pensamento da paisagem de Carlos de Oliveira e Ruy Duarte de Carvalho”.

16h30
Pausa para café Continue reading


Variações sobre António: um colóquio em dezembro

Vai ser em dezembro, nos dias 7 e 8: a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra acolherá um colóquio dedicado à obra e legado de António Variações. Com o título “Variações sobre António: um colóquio em torno de António Variações”, o colóquio é uma organização do Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura e da área de Estudos Artísticos da FLUC, com apoio de várias entidades, das quais se destacam o Centro de Literatura Portuguesa, o Teatro Académico de Gil Vicente, o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, o Salão Brazil e a Rádio Universidade de Coimbra.

Como se afirma no texto de referência do colóquio, “Com apenas dois LP’s, editados em 1983 (Anjo da Guarda) e 1984 (Dar & Receber), António Variações – nascido em 1944, com o nome de António Joaquim Rodrigues Ribeiro, e falecido em 1984 –, tornou-se um caso de estudo na música popular portuguesa. (…) Falar de António Variações é, pois, falar sempre de muito mais do que apenas das suas canções, já que não custa ler na sua obra e na forma como performatiza a sua identidade (pessoal e coletiva) algo que nos ajuda a ler Portugal na segunda metade do século XX, da música e da poesia à cultura, à sociedade e ao estado do «corpo político»”.

O colóquio será acompanhado por um espetáculo musical, no TAGV, em que se recriará a música de Variações, para o qual foram convidados músicos da cena rock de Coimbra, e ainda por uma série de performances em torno do compositor e performer.

Todas as informações sobre o colóquio, cuja Comissão Organizadora coordeno, podem ser encontradas no seu site oficial. A imagem do colóquio é da autoria de Maria Cecília Magalhães.