Má dicção e maldição

O que é um poema mal dito? De acordo com que norma, e estipulada por quem, aferimos esse mal dizer? A criança que na sala de aula se engasga ou come sílabas ao ler Camões ou Pessoa, diz mal? A multidão que, num jogo da seleção (a de futebol, pois só ela permite a antonomásia: ao pé do futebol todos os outros desportos são formas parcelares de nomeação da nação), canta o hino e choca contra os «egrégios avós», reinventando-os como pode, diz (canta) mal? O ator que ao dizer o poema se esforça por esbater ênfases, treinado que foi no horror à demagogia da tónica, e usa toda a sua arte para restituir a plenitude de cada sílaba, diz bem?

Mas o que é dizer bem? Uma questão de projeção, altura, articulação? Um equivalente daquilo a que na música chamamos afinação? Ou, antes, de intensidade? A voz é sempre mais do que um débito físico-acústico, mas o seu mistério começa aí, nesse débito que emerge de um local aparentemente situável – o aparelho fonador – mas desequilibrado na relação causa-efeito. Pois quando emerge, e na medida em que emerge sempre de uma profundeza, a voz é imprevisível (produzindo por vezes um reconhecível efeito cómico, sempre que a um corpo volumoso corresponde uma vozinha, ou ao invés) e só a posteriori cola com a pessoa que a produz. Experiência banal, de resto, nestes tempos em que a net nos permite conhecer o rosto de alguém cuja voz, quase sempre, chega só depois. Percebemos então como a voz assina o corpo que a usa, com um efeito de posse quase tão poderoso como o do rosto fotografado que assina o nosso ser político-administrativo. Ou mais poderoso, já que a voz arrasta na sua materialidade toda a questão do inconsciente enquanto coisa que em nós ressoa – do mesmo modo que na mão que me assina há muito mais e menos do que eu. Continue reading


Variações sobre António: um colóquio em torno de António Variações

A culpa de estarmos aqui hoje é da vontade, como cantaria António Variações. A vontade de retribuir um pouco daquilo que António nos deixou, na sua música, na sua versão da cultura portuguesa, na sua ideia larga de mundo, no exemplo de quem não se deixa aprisionar pelo destino, na energia de quem se reinventa até ao fim. Porque António Joaquim Rodrigues Ribeiro poderia ter sido apenas mais um dos portugueses da sua geração que fizeram o percurso da aldeia para a capital, de “Mala nova na mão / Feita de madeira e papelão / Dentro um fato de cotim”, o diploma da quarta classe, “um terço e um santinho”, olhando para trás mas com o pensamento em frente – e, mais tarde, da metrópole para o então ultramar em guerra e, por fim, do Portugal da ditadura para o mundo novo, mas nunca suficientemente novo, da democracia. Mas tudo isso, que era já muito, e para muitos foi ou bastante ou demasiado, era demasiado pouco para António, que foi ver mundo pela Europa, pela América e por onde calhava, regressando sempre português e, contudo, cada vez mais cidadão do mundo. Recordo aqui as fulgurantes palavras que dedicou a esta questão, na canção “Minha cara sem fronteiras”: “Venho da terra de ninguém / E a minha língua não tem país / O meu nome é alguém / E vou daqui para o lugar de além / Meu corpo é tronco sem raiz”. A questão que estes versos enunciam é a do cosmopolitismo, e daí o caráter insatisfatório de qualquer figura e mito da raiz e da nação, propondo na sua vez essa estranha figura de um corpo que é “tronco sem raiz”: uma versão contratual do corpo político, que não cessa de se emancipar da sua origem.

Esta formulação tardia não é a única que a questão encontra em António Variações. A mais popular, e também mais mítica, é aquela que, em versões nem sempre coincidentes, o cantor teria transmitido a Ricardo Camacho, produtor do seu primeiro disco, para enunciar o lugar estético em que situava a sua música: «Entre a Sé de Braga e Nova Iorque». A frase não sugere um ponto de equilíbrio que seria, aliás, impossível de garantir, entre a Sé de Braga e o Empire State Building (ou entre o folclore minhoto e os Velvet Underground ou os New York Dolls); pelo contrário, parece enunciar uma pulsão de desequilíbrio ou de fabricação, não garantida por uma estabilidade identitária prévia – seja ela a da «cultura tradicional» ou a do «cosmopolitismo» –, para qualquer projeto de criação de uma versão moderna do popular. Nesse sentido, o percurso biográfico de Variações parece pressupor uma demanda, mas uma demanda de algo que se produz, fabrica e falsifica pelo caminho, sem ceder a qualquer ilusão de um «encontro pleno com a alma» da cultura portuguesa ou do sujeito com as suas «raízes» e com a sua «verdade profunda», verdade essa também objeto de uma encenação queer no limite do kitsch ou do camp, dando assim a ver, em modo espetacular, a identidade como recodificação. Continue reading


Uma evocação de Carlos Cunha, entre Braga e São Paulo

Quando a Rita (a Professora Rita Patrício) me convidou para participar nesta evocação do Carlos (o Professor Carlos Cunha) vi-me naquela situação de quem não pode dizer que não, embora muito desejasse fazê-lo. Não podia dizer que não pois sempre guardei do Carlos a melhor impressão pessoal, ainda que os nossos contactos não fossem muito frequentes. Mas sabia que, vindo à Universidade do Minho, o reencontraria, naquele gesto de avançar para nós, sorriso rasgado, aperto de mão forte, prolongado num meio abraço acolhedor – tudo isso que comecei por conhecer em Coimbra, quando o Carlos lá frequentou a parte curricular do Mestrado. Obviamente, não é Coimbra que está em causa nessa cena primitiva do nosso encontro mas sim o Professor Aguiar e Silva – uma outra razão para não poder dizer que não. A minha relação com a Universidade do Minho, que é uma relação próxima, sempre foi mediada pelo prof. Aguiar e Silva, e o Carlos sempre foi para mim o Minho (não apenas a universidade), o Prof. Aguiar e Silva e a Teoria da Literatura, tudo isso num compacto peculiar mas reconhecível.

Há um momento na nossa vida em que a morte se torna familiar – e nada volta a entrar realmente nos eixos. Passamos a viver no regime um tanto póstumo de quem ficou para trás, sem perceber porquê, face àqueles que se adiantaram e desapareceram, mais ou menos subitamente. E vemo-nos na situação de quem tem de aceitar o inaceitável e recuperar do passado tudo aquilo que nos permita continuar («Il faut continuer», como dizia, a respeito de outra coisa, ou talvez não, Theodor Adorno). Lembro-me, por exemplo, cada vez mais, do Carlos, da Rita e do José Cândido em Ponta Delgada, no colóquio de homenagem ao Professor Aguiar e Silva, lembro-me das brincadeiras maliciosas (minhas e dos outros) sobre Teófilo Braga, sobretudo numa caminhada noturna, após um jantar, e um tanto por acaso, até ao monumento ao grande positivista e historiador da literatura, no Forte de S. Brás. O pretexto era obviamente o estudo, verdadeiramente impressionante, que o Carlos dedicara, na tese de doutoramento, à obra de Teófilo – e o Carlos ria e entrava no jogo, ao mesmo tempo que garantia que já tinha a sua dose de Teófilo. Mas lembro-me também do tempo longuíssimo que o Carlos teve de esperar pela saída do nº 1 da Revista de Estudos Literários, do Centro de Literatura Portuguesa, um número organizado por António Apolinário Lourenço e por mim, sobre os estudos literários em Portugal no século XX. Tudo se atrasou para lá do previsível e até do aceitável – mas o Carlos nunca protestou e nunca retirou o seu texto, o que seria até compreensível neste tempo de publicação em regime histérico. E, contudo, fora o primeiro a entregar o texto solicitado. Continue reading




Ferreira Gullar: dossiê na ‘Texto Poético’

Já disponível há algum tempo, o último número da Texto Poético, revista do Grupo de Trabalho em Teoria do Texto Poético da ANPOLL, dedica um dossiê, coordenado por Paulo Franchetti e por mim, a Ferreira Gullar. O dossiê inclui 8 ensaios que cobrem um número considerável de áreas da produção lírica de Gullar.

Na secção não-temática da revista, inclui-se um ensaio meu sobre A poesia e a condição pós-média. O caso de ‘Monodrama’ de Carlito Azevedo.


Conferências do Cinquentenário da Teoria da Literatura: discurso de abertura

[Discurso lido na abertura das Conferências do Cinquentenário da Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva, na Sala de S. Pedro da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra]

Reunimo-nos hoje aqui, e de novo no próximo dia 15 de dezembro em Braga, para celebrar os 50 anos de um livro cujo título coincide com uma disciplina definidora das Humanidades novecentistas, quer as tomemos no sentido estrito de estudos literários e filológicos, quer no sentido lato de disciplinas que estudam textos, formas de escrita, inscrição, disseminação de sentido e leitura, já que todas elas sofreram o impacto da Teoria da Literatura. O livro que aqui nos traz teve a grande virtude de saber ser mais do que um livro (e muito mais do que um manual) ao longo destas cinco décadas, mudando pela própria exigência e pressão das circunstâncias de produção e circulação de conhecimento, mas também pela insatisfação permanente e pelo espírito de inquirição que sempre animaram o seu autor, um académico dividido entre a vertigem do acesso às fontes e a consciência de que a ciência, em particular a ciência normal, exige também a capacidade, ao alcance apenas de alguns raros, de produzir terraplanagens para assim abrir panoramas que nos permitam contemplar e situar todo um campo do saber. Mas a Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva foi mais do que um livro, não apenas por ter evitado cristalizar na sua primeira versão – e sim por ter coincidido, em grande medida, entre nós mas não apenas (lembro o impacto da obra no Brasil e na Espanha e na hispano-América), com a disciplina a que foi buscar o nome, e de que se tornou, no mundo universitário que referi, metonímia. Por isso mesmo, é difícil falar deste livro sem falar de muitas coisas que se situam além dele, mas de que ele participa, ao menos em parte: o devir dos estudos literários em geral; o devir da Teoria da Literatura no seu transcurso já secular; a relação entre a Teoria da Literatura, como disciplina moderna, e o seu ascendente clássico, a Poética; a relação entre a Teoria da Literatura e as Humanidades; a epistemofilia que se apoderou dos estudos literários na esteira da Teoria da Literatura; o reforço das exigências da disciplinaridade e, ao mesmo tempo, o imperativo da interdisciplinaridade; as grande ambições (e, acima de todas, as da semiótica e do estruturalismo) e a humildade de quem sabe que no início, e no final de tudo, há sempre um texto e um leitor em luta com ele; enfim, a experiência da sala de aula, o verdadeiro locus do humanista, e o impacto da Teoria no Ensino. Continue reading


Vítor Aguiar e Silva: 50 anos depois

Tem hoje lugar, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a primeira sessão das “Conferências do Cinquentenário” que assinalam os 50 anos de publicação da Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva. Transcrevo o texto de referência do evento:

Em 1967 e, numa primeira ocorrência, em fascículos, foi editada em Coimbra, pela Livraria Almedina, a Teoria da Literatura, de Vítor Aguiar e Silva. Reeditada desde então, profundamente repensada a partir da 4ª edição, de 1981, editada no Brasil e traduzida para espanhol, a obra, que viria conhecer um significativo impacto no Brasil e no mundo hispânico, confunde-se com a história da disciplina introduzida nos curricula universitários portugueses com a reforma de 1957, vindo também a produzir efeitos no ensino da literatura nas Escolas Secundárias do país. Embora o seu autor tenha publicado depois uma série de obras de referência, quer no domínio da teoria da literatura, quer no dos estudos camonianos, dos estudos sobre o maneirismo e o barroco, ou sobre as humanidades, a Teoria da Literatura permanece a obra à qual o seu nome é de imediato associado.

As universidades de Coimbra e do Minho associam-se numa comemoração, que aspira a ser um momento de exigente reflexão académica, dos 50 anos da 1ª edição da Teoria da Literatura, de Vítor Aguiar e Silva. As Conferências do Cinquentenário, distribuídas por duas sessões nas duas universidades, a 16 de novembro em Coimbra e a 15 de dezembro em Braga, discutirão as grandes questões colocadas pelo livro e pela obra de Vítor Aguiar e Silva no domínio da Teoria da Literatura e da sua relação com as Humanidades. O temário a explorar será o seguinte:

1) A Teoria da Literatura entre os livros de Vítor Aguiar e Silva

2) As várias Teoria(s) da Literatura de Vítor Aguiar e Silva

3) A Teoria da Literatura hoje

4) A Teoria da Literatura ao longo destes 50 anos

5) Os estudos literários depois da Teoria da Literatura

6) A Teoria da Literatura e as Humanidades

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Carlos de Oliveira e a ideia do Moderno: colóquio na Casa Pessoa

Na próxima sexta-feira, 15 de setembro, terá lugar na Casa Pessoa, em Lisboa, o colóquio “Carlos de Oliveira e a Ideia do Moderno”. Inserido na programação paralela à exposição do espólio do autor no Museu do Neo-Realismo, o colóquio é uma organização da Casa Pessoa, do Museu do Neo-Realismo e do Centro de Literatura Portuguesa. O texto de referência do colóquio é o seguinte:

A inscrição do Moderno na obra de Carlos de Oliveira ganha a sua formulação talvez mais reveladora no poema que, em 1971, integra Entre duas memórias: «Descrição da guerra em Guernica». Ou seja, uma descrição de uma tela emblemática do pintor emblemático da pintura moderna (Picasso), escolhida décadas depois da sua produção para um exercício que convoca e, ao mesmo tempo, questiona o realismo como prática representacional. Mas o moderno ganha em Oliveira rostos diversos, de Gomes Leal a Cesário Verde, Camilo Pessanha, Maiakovski ou o Nouveau Roman, sem esquecer Fernando Pessoa, objeto de um tratamento muito particular, entre a rasura e a presença cúmplice e silenciosa. Sobre tudo isto, bem como sobre a presença dos novos meios (fotografia e cinema) em Carlos de Oliveira, se falará neste colóquio. Continue reading


Livros & Companhia: sessão 5, com Paulo Franchetti

A sessão 5 teve como convidado Paulo Franchetti, professor na UNICAMP, editor (dirigiu por cerca de 10 anos a editora da sua universidade), ensaísta e poeta. Paulo elegeu, como livro a apresentar, o clássico de R. H. Blyth, Haiku. Eastern Culture, nunca editado em português, e falou da sua longa aprendizagem do Haikai (e do japonês), de que viria a resultar a importante antologia Haikai, editada em 1990, de sua autoria e de Elza Taeko Doi – mas também um livro como Oeste, todo ele preenchido por haikais da autoria de Franchetti. Falou-se, claro, da sua longa dedicação a Camilo Pessanha, patente na sua edição crítica da Clepsydra, e em tantos estudos sobre o autor, e na sua produção ensaística, desde a dedicação inicial à teoria da poesia concreta até ao interesse recorrente pelo romantismo brasileiro ou pela literatura portuguesa do século XIX, em particular. Continue reading


Sobre Daniel Jonas

Se não erro (se não erramos, eu e os motores de busca), o texto que aqui se republica, sobre Daniel Jonas, encomendado em 2011 pela Direção Geral do Livro e das Bibliotecas e em seguida editado online, em tradução em inglês, numa espécie de dicionário de poetas da nova geração, não se encontra já disponível (desconheço as razões). Os livros subsequentes de Jonas tornaram-no talvez o caso mais sério da sua geração na poesia portuguesa, e condenaram o texto ao reconhecível destino de «tentativa de ensaio sobre as primícias de um poeta». O que é simplesmente o preço a pagar pelo trabalho de sondagem do presente, que na altura me mobilizava – tanto quanto me mobiliza o anacronismo, que é também parte do mundo de Jonas. Por exemplo, no teatro de que é também autor: ainda em 2011 escrevi sobre a sua peça Estocolmo, para o Teatro Nacional S. João (o link encontra-se na página Publicações, deste site, secção Outros).



Daniel Jonas
(Porto, 1973) publicou até ao momento quatro livros de poesia – O Corpo Está com o Rei (1997), Moça Formosa, Lençóis de Veludo (2002), Os Fantasmas Inquilinos (2005) e Sonótono (2007, Prémio PEN de Poesia 2008) – e uma peça de teatro, Nenhures (2008). Tem actividade vasta e significativa como tradutor, destacando-se naturalmente a sua tradução do Paraíso Perdido (2006), de John Milton. A «irrupção» de Daniel Jonas na cena literária portuguesa foi retardada pelo facto de os seus dois primeiros livros terem sido editados em circuito restrito, pelo que a sua «revelação» ocorreu apenas com a edição de Os Fantasmas Inquilinos pela editora Livros Cotovia. Se esse facto não faz (ou não fez) justiça à qualidade sobretudo de Moça Formosa, Lençóis de Veludo, por outro lado permitiu que o autor viesse a público já com uma obra maior, embora o perfil da sua poesia, pouco coadunável com o devir maioritário da poesia portuguesa recente, suscitasse estranheza e alguma resistência.

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Livros & Companhia: sessão 4, com José Maria Vieira Mendes

Foto de João Duarte

A sessão 4 teve como convidado José Maria Vieira Mendes, dramaturgo, tradutor e agora ensaísta. O ‘agora’ reporta-se à recente edição do livro Uma coisa não é outra coisa (Livros Cotovia), sua tese de doutoramento, um livro que rima com o segundo volume da sua obra dramática, Uma coisa (Livros Cotovia), de edição também recente, volume que faz de José Maria Vieira Mendes o mais importante dramaturgo português da atualidade.

José Maria escolheu Undoing Gender, de Judith Butler, como livro da sua eleição, e relacionou as teses da autora com o seu trabalho no teatro e com a questão do género na cultura e política contemporâneas. Em seguida falámos longamente do seu ensaio, que no fundo defende uma posição algo intempestiva, na atual cena dos estudos teatrais: basicamente, o seu direito a ser lido como autor de “literatura dramática” e o direito a que os textos dramáticos sejam considerados como algo que não se destina apenas à cena (teatral) mas também à (cena da) leitura. Esta reivindicação, que a cultura dos estudos teatrais em Portugal facilmente recodifica em “conservadorismo”, depara-se, no caso de José Maria, com o problema da inserção do seu trabalho numa companhia tão experimental como o Teatro Praga. Continue reading


Gândara e cultura popular em Carlos de Oliveira: colóquio

Foto de Carlos de Oliveira, Gândara, 1949-1952

No próximo dia 17, sábado, decorrerá em Cantanhede, no Auditório do Centro Social e Paroquial de S. Pedro, um colóquio intitulado ‘Gândara e cultura popular em Carlos de Oliveira’. O colóquio, que integra a programação em torno da exposição do espólio de Carlos de Oliveira no Museu do Neo-Realismo, tentará explorar as questões formuladas neste texto:

Carlos de Oliveira escreveu, em O Aprendiz de Feiticeiro, que a Gândara o tinha «tatuado», e daí a «pouca distanciação» com que dela falava. Qual o alcance dessa «tatuagem» e quais as dimensões da Gândara, e da cultura popular (a local e a não local), que é possível rastrear na obra de Carlos de Oliveira?

O programa do colóquio é o seguinte:

15h
Ida Alves (Universidade Federal Fluminense, Brasil), “Tocar a terra para criar”.

15h30
Rui Mateus (Centro de Literatura Portuguesa), “Representações da Gândara na poesia de Carlos de Oliveira. Um percurso de despojamento”.

16h
Sonia Miceli (Centro de Estudos Comparatistas), “Sinais de chuva. O pensamento da paisagem de Carlos de Oliveira e Ruy Duarte de Carvalho”.

16h30
Pausa para café Continue reading


Carlos de Oliveira na Colóquio-Letras: espólio e ensaios

Saiu recentemente o nº 195 da revista Colóquio-Letras, que inclui um dossiê temático sobre Carlos de Oliveira. Fui o coordenador do dossiê, que contém ensaios, inéditos e depoimentos. A secção de ensaios inclui três relacionados com o espólio – o meu, intitulado ‘A poesia póstuma de Carlos de Oliveira’, sobre a questão do arquivo, o de Rui Mateus, ‘Reescrever o definitivo’, sobre as traduções de poesia realizadas pelo poeta, e o de Ricardo Namora, ‘Uma outra Finisterra para Carlos de Oliveira’ -, e ainda dois sobre aspetos diversos da obra do autor: o de José Geraldo, ‘Dizer a poesia de Carlos de Oliveira: Maria Barroso e Manuela Porto’, e o de Clara Rowland, ‘Quadros do mundo’, uma aproximação de Finisterra. Paisagem e Povoamento a O sol do marmeleiro, do cineasta espanhol Victor Erice.

O dossiê inclui ainda inéditos – um texto sobre João José Cochofel e cartas a Benjamin Abdala Júnior e Giulia Lanciani – bem como depoimentos.

O volume foi objeto de um lançamento no Museu do Neo-Realismo, a 6 de maio do ano corrente, com a presença de Nuno Júdice, diretor da revista, e a minha. Na ocasião foi exibido o filme «Cinema», de Fernando Lopes, produzido para a Porto Capital Europeia da Cultura, em 2001. Filme muito raramente visto, sobre o Teatro Sá da Bandeira, no Porto (que a câmara percorre em panorâmicas e travellings inesquecíveis), mas também sobre Aurélio Paz dos Reis, conclui com a leitura, por Isabel Ruth, em cima de uma grua, e a meio do palco, do poema ‘Cinema’, de Carlos de Oliveira.


Livros & Companhia: sessão 3, com António Costa

A sessão 3 de Livros & Companhia teve António Costa como convidado. Com um trabalho já longo na Medeia Filmes e, com maior visibilidade, no Lisbon and Estoril Film Festival, António Costa integrou a Assírio & Alvim durante muitos anos e foi responsável pela programação cultural da Feira do Livro do Porto durante década e meia. António escolheu para a sessão o romance de Paul Bowles The Sheltering Sky (1954), em Portugal editado com o título O céu que nos protege (Assírio & Alvim, fora de mercado). Falou da sua descoberta do romance e da obra de Bowles, nos anos 80, da edição portuguesa e do seu encontro com Bowles em Tânger, do qual resultou uma entrevista memorável. Lemos excertos do livro e falámos do perfil de Bowles, o comunista, o músico, mas sobretudo o viajante, apoiando-nos noutros livros de Bowles, sobretudo as suas memórias, editadas em Portugal com o título Memórias de um Nómada.

Falámos depois da recente edição de Tenho cinco minutos para contar uma história, de Fernando Assis Pacheco (Tinta da China), um livro um tanto “caído do céu”, pelas particularidades que rodeiam a sua publicação, e do que faz a singularidade do autor na literatura portuguesa. Ouvimos um excerto de um programa de Mariana Oliveira na Antena 3, com João Pacheco, filho do escritor, e li uma inesquecível crónica sobre os sábados. Continue reading


Carlos de Oliveira: a parte submersa do iceberg

Foi inaugurada no dia 18 de março, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, a exposição do espólio de Carlos de Oliveira, de que sou curador. O título da exposição provém de um texto de Carlos de Oliveira, “O iceberg”, incluído no volume O aprendiz de feiticeiro. Nesse texto, o autor fala de tudo aquilo que a falta de liberdade, durante o salazarismo, o inibiu de viver e de escrever, denunciado desde logo na sua frase inicial: «Pensando bem, não tenho biografia». A sequência do texto esclarece essa afirmação:

Melhor, todo o escritor português marginalizado sofre biograficamente do que posso denominar complexo do iceberg: um terço visível, dois terços debaixo de água. A parte submersa pelas circunstâncias que nos impediram de exprimir o que pensamos, de participar na vida pública, é um peso (quase morto) que dia a dia nos puxa para o fundo. Entretanto a linha de flutuação vai subindo e a parte que se vê diminui proporcionalmente.

A imagem da parte submersa do iceberg adapta-se bem àquilo que define um espólio: um conjunto de papéis e documentos que acompanha, ao longo do tempo mas longe da vista do público, uma obra publicada. Contudo, tratando-se de um espólio bastante rico, foi necessário selecionar drasticamente o material a exibir, bem como distribuir tarefas, para o que contei com a ajuda de uma equipa que integra duas doutorandas do Programa em Materialidades da Literatura, Ana Sabino e Manaíra Athayde, além dos Professores Ricardo Namora e Rui Mateus, membros, como toda a equipa, do Centro de Literatura Portuguesa. Rui Mateus tratou a poesia, Ricardo Namora o “caso” Finisterra. Paisagem e Povoamento, obra tardia e maior, Ana Sabino explorou o espólio gráfico do autor, Manaíra Athayde estudou a questão do arquivo em Carlos de Oliveira. A exposição combina, pois, um percurso biobibliográfico, mais completo no caso da poesia, única área da obra percorrida na íntegra, com a eleição de núcleos temáticos fortes: a interação fotografia-texto no percurso que vai do “trabalho de terreno” levado a cabo pelo casal Carlos e Ângela de Oliveira na Gândara, no início dos anos 50, até à edição, em 1953, de Uma Abelha na chuva, às fotos produzidas por Augusto Cabrita para a edição ilustrada da obra na D. Quixote no final dos anos 60 e, por fim, ao filme de Fernando Lopes sobre o romance (1972); a contextualização do campo literário, cultural e político português no final dos anos 60, recorrendo-se para tal aos 8 volumes publicados dos diários de José Gomes Ferreira, Dias Comuns; o espólio de Finisterra, que revela a existência de uma “versão” abandonada de uma obra que não era ainda Finisterra, mas de que se viria a aproveitar alguma coisa para esse romance; e o trabalho de alguns grandes designers que desenharam capas e coleções para a obra de Carlos de Oliveira, bem como os textos, éditos e inéditos, que revelam uma aguda consciência do livro como objeto e suporte no autor. Continue reading


Livros & Companhia: sessão 2, com Adriana Calcanhotto


A segunda sessão de Livros & Companhia, a 11 de março de 2017, teve como convidada Adriana Calcanhotto. Dentro do protocolo da sessão, Adriana elegeu A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector, e falou do impacto do livro na sua formação, em criança, lendo alguns excertos. Falámos em seguida de vários livros de Adriana, sobretudo as suas antologias: a Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira para crianças de qualquer idade, a de Haicai do Brasil e a recentíssima É agora como nunca. Antologia incompleta da poesia brasileira contemporânea, entretanto publicada em Portugal, nos Livros Cotovia. Falou-se ainda de Saga Lusa, por razões (lusitanas) óbvias, e da também muito recente antologia, levada a cabo por Eucanaã Ferraz, das letras de Adriana, Para que é que serve uma canção como essa?, antologia da qual li o poema “Negros”, sobre o qual em seguida falámos.

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Variações sobre António: um colóquio em dezembro

Vai ser em dezembro, nos dias 7 e 8: a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra acolherá um colóquio dedicado à obra e legado de António Variações. Com o título “Variações sobre António: um colóquio em torno de António Variações”, o colóquio é uma organização do Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura e da área de Estudos Artísticos da FLUC, com apoio de várias entidades, das quais se destacam o Centro de Literatura Portuguesa, o Teatro Académico de Gil Vicente, o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, o Salão Brazil e a Rádio Universidade de Coimbra.

Como se afirma no texto de referência do colóquio, “Com apenas dois LP’s, editados em 1983 (Anjo da Guarda) e 1984 (Dar & Receber), António Variações – nascido em 1944, com o nome de António Joaquim Rodrigues Ribeiro, e falecido em 1984 –, tornou-se um caso de estudo na música popular portuguesa. (…) Falar de António Variações é, pois, falar sempre de muito mais do que apenas das suas canções, já que não custa ler na sua obra e na forma como performatiza a sua identidade (pessoal e coletiva) algo que nos ajuda a ler Portugal na segunda metade do século XX, da música e da poesia à cultura, à sociedade e ao estado do «corpo político»”.

O colóquio será acompanhado por um espetáculo musical, no TAGV, em que se recriará a música de Variações, para o qual foram convidados músicos da cena rock de Coimbra, e ainda por uma série de performances em torno do compositor e performer.

Todas as informações sobre o colóquio, cuja Comissão Organizadora coordeno, podem ser encontradas no seu site oficial. A imagem do colóquio é da autoria de Maria Cecília Magalhães.


Livros & Companhia: sessão 1, com João Rui (A Jigsaw)

Livros & Companhia é uma sessão sobre livros que tem lugar no Salão Brazil, uma vez por mês, na qual converso com um convidado.

Na sessão 1, a 11 de fevereiro de 2017, o convidado foi João Rui, compositor e vocalista da banda A Jigsaw. João Rui escolheu, para a sessão, o livro Burning Bright, de um dos seus heróis literários, John Steinbeck. No meu caso, escolhi o livro de David Nolan, I Swear I Was There, sobre os dois lendários concertos dos Sex Pistols no Lesser Free Trade Hall, de Manchester, em 1976, que cruzei com as memórias do renegado Mark E. Smith, dos The Fall, ou as de Morrissey, e ainda a autobiografia de Miles Davis. Para a secção de “Livros Raros e Usados”, uma secção fixa das sessões, reservei As Dioptrias de Elisa, de António Gancho.

Uma boa surpresa chegou alguns dias depois, na forma de uma reação escrita à sessão, por Vitalino José Santos. Para ele e para todos os presentes, muito obrigado. [Na foto, os dois participantes compenetram-se da gravidade do momento, antes do início da sessão. A foto é de Raquel Gonçalves.]

Hoje ocorre a sessão 4, a concorrência é de peso mas o convidado vale a pena, pois José Maria Vieira Mendes é seguramente o maior dramaturgo da sua geração em Portugal (pelo menos).


A distribuição matutina

do pão, do leite, dos jornais e dos princípios universais podia ser o programa deste blog. E que melhor programa? O mundo, porém, desregulou-se a um ponto tal que já ninguém usa a antemanhã para comprar pão, leite ou jornais. E os empregos que essa distribuição criou foram entretanto laminados pelo progresso, essa bela besta. Ou estão a sê-lo, como no caso dos jornais. Restam os princípios universais. Mas será que restam?

Num poema famoso, «Elegia 1938» (de Sentimento do Mundo, 1940), Carlos Drummond de Andrade fala antes de gestos universais: «Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, / onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo. / Praticas laboriosamente os gestos universais, / sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual». Os gestos universais, com os quais se edifica laboriosamente a ordem social que contudo não nos livra da carência ou, pior ainda, da natureza que também somos, são em rigor prévios aos princípios universais. A verdade, porém, é que a relação entre gestos e princípios não parece ser sequer necessária: tal como o gesto matutino de comprar o jornal, que se harmonizaria com o jornal enquanto «princípio universal», não garante de facto a transição de gestos a princípios (abundam, de resto, os jornais que são bons exemplos de maus universais). É talvez porque o princípio não está garantido que Drummond parece concluir o poema pelo gesto. No caso, um gesto de aceitação não-resignada: «Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição / porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan». Continue reading