A Teoria da Literatura no Brasil

A designação deste colóquio, na sua aparente neutralidade descritiva, não foi fácil, já que por um tempo, e mesmo à data dos primeiros contactos, o título final – A Teoria da Literatura no Brasil – conviveu com uma outra versão, A Teoria Literária no Brasil. A certa altura, porém, tendo-me apercebido da confusão, percebi também que nada se ganharia em admitir à discussão a latitude da expressão “teoria literária”, muito embora ficasse claro para mim que essa outra versão estava condenada a funcionar como um recalcado que, mais ou menos fatalmente, regressa para nos assombrar. Em todo o caso, a disciplinaridade do título final tem a vantagem de forçar a uma operação de terraplanagem do campo, exigindo-nos que tomemos decisões (epistemológicas, genealógicas e metodológicas) sobre aquilo que no Brasil foi e é a Teoria da Literatura, enquanto disciplina que, para o bem e o mal, define os estudos literários no século XX. Mas para além disso, um evento sobre teoria da literatura é ainda uma ocasião para pensarmos a função da teoria, razão pela qual o caderno do programa do evento abre com um verso do poeta português António Franco Alexandre, “mas a verdade mais abstrata é a mais prática”, no seu grande poema “Emersoniana”, que agora desejo ler:

a oeste são os planaltos, a vida selvagem
que um céu de água recolhe,
um horizonte de coisas por dizer, por acontecer
mas a verdade mais abstrata é a mais prática:
let him look at the stars. tão longe
do seu próprio quarto como da multidão.

por isso os selvagens, que não têm mais
que o necessário,
conversam em figuras.
esta dependência imediata da linguagem
esta radical correspondência das coisas visíveis
nunca perde o poder de afectar-nos.

devemos ir sós, vivos e sós. i must
be myself.
tudo quanto Adão teve, o céu a terra a sua casa,
tudo podes e tens.
keep thy state; come not into their confusion.
constrói, sim, o teu reino, o teu mundo: natureza.

E agora, o original de Emerson por trás do verso de Franco Alexandre:

“All science has one aim, namely, to find a theory of nature. We have theories of races and of functions, but scarcely yet a remote approach to an idea of creation. We are now so far from the road to truth, that religious teachers dispute and hate each other, and speculative men are esteemed unsound and frivolous. But to a sound judgment, the most abstract truth is the most practical. Whenever a true theory appears, it will be its own evidence. Its test is, that it will explain all phenomena. Now many are thought not only unexplained but inexplicable; as language, sleep, madness, dreams, beasts, sex.” [R. W. Emerson, Nature addresses and lectures]

Já não somos da família dos teóricos que acreditam que a teoria explica todos os fenómenos; somos antes da família daqueles que acreditam que tanto nós como os selvagens conversamos em figuras. E, em todo o caso, enquanto praticantes de teoria da literatura, sabemos que tudo é citação e tudo é tradução, dentro ou fora de cada idioma.

Este colóquio não tem obviamente pretensões de exaustividade histórica e paradigmática. O seu propósito, bem mais modesto, é o de reunir especialistas desta área, ou pessoas cujo trabalho acusa a contaminação da teoria da literatura, para refletir sobre aquilo que a teoria faz com a literatura, mas também, inevitavelmente, sobre aquilo que as humanidades fazem com a teoria. O facto de esta reflexão ter como objeto esse local que é o Brasil é, em primeira instância, função da territorialidade dos objetos de conhecimento, embora não custe admitir que o Brasil de que aqui falamos é, na verdade, o da universidade brasileira, assim como a teoria de que falamos é, por definição, e para recorrer a um tropo de Edward Said, uma teoria em viagem. Esperemos que a viagem que trouxe um conjunto significativo de especialistas a esta sala do Instituto de Estudos Brasileiros da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra seja uma primeira viagem e que este evento se possa replicar noutros locais, suscitando assim um esforço continuado e de conjunto para pensar os efeitos da Teoria da Literatura no Brasil (o que seguramente nos ajudará a pensar nos seus efeitos em vários outros lugares).

Quero agradecer às entidades que permitiram este evento, começando pelo Centro de Literatura Portuguesa, que prontamente aceitou a minha proposta, na pessoa da sua Coordenadora, Professora Maria Helena Santana. À Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), na pessoa do seu reitor, que apoiou a vinda do professor Fabio Durão, ao abrigo do convénio assinado entre as nossas universidades há alguns anos. Ao Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos, que apoiou a vinda do professor Matheus de Brito. À Fundação Eng.º António de Almeida, que contribuiu também com apoio financeiro a este colóquio. À direção da FLUC e ao Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas. Por fim, ao Thales Estefani, responsável pelo trabalho gráfico do colóquio. A todos, muito obrigado.

[Texto lido na abertura do colóquio A Teoria da Literatura no Brasil, no Instituto de Estudos Brasileiros da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra]