Luís Mourão (1960-2019)

Agora que o Luís já não está aqui, apercebo-me de que embora ao longe, por vezes demasiado ao longe, e com longos interregnos, a minha vida teve sempre a companhia dele: na aventura da Angelus Novus (lembro sobretudo, não sei bem porquê, a Zentralpark, cujos dois números dirigimos, com o Américo), no Ciberkiosk, para o qual escreveu regularmente uma “Meia crónica”, no Casmurro, em tantas outras coisas e eventos, sem esquecer os mestres pensadores comuns (Eduardo Lourenço, acima de todos) ou a comum paixão pela música. Uma companhia sempre afetuosa e interessada, nas horas boas como nas más, que as houve e em excesso. O Luís dava um abraço em modo sorridente e, a partir daí, o reencontro decorria como se nos tivéssemos despedido ontem. O Luís falava baixo, às vezes quase sussurrava, mesmo em intervenções públicas, e esse tom conversado e íntimo, que era a sua forma de estar presente, era também a melhor tradução da sua forma de pensar. Um modo de pensar que parecia progredir por meandros ou pequenas derivações anedóticas, mas que guardava sempre o segredo de um fio narrativo, como se o ensaio participasse nele ainda da ficção, a sereia de toda a sua vida.

O Luís é uma das pessoas que mais admirei, e invejei, pela inteligência, pela cultura e, ponto decisivo para o entendermos, pela clareza. Mesmo quando divergíamos nas apreciações literárias (Vergílio Ferreira, desde logo) ou no espírito algo ecuménico com que praticava a crítica, e que por vezes me suscitava reservas que lhe fazia chegar, invejava-lhe sempre a forma como desativava a polémica e apelava à calma (uma calma que, sem entender exatamente porquê, ou talvez por causa do tema da “paragem da história” que atravessa boa parte do seu pensamento, tendo a aproximar daquele apelo do título do primeiro livro de poesia de Manuel António Pina: Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde). Apesar de todos os nomes que balizaram o seu caminho – Raul Brandão, Vergílio Ferreira, Augusto Abelaira, Carlos de Oliveira, Gonçalo M. Tavares, etc. –, creio que, no fundo, antes da literatura enquanto teoria de autores, existiam para ele a escrita e a ficção, na forma de um continuum ou pulsão (ou Manchas, para retomar o título do seu blog) que atravessa e contamina tudo, à maneira de uma máquina desejante. Isso explica talvez o fraco empenho do Luís em questões propriamente teóricas, tal como os estudos literários ou a sua tradução disciplinar as segrega, ou mesmo nas batalhas da crítica. A literatura era para ele uma máquina de fazer mundo e é desse fazer, lento, progressivo, espesso, que ele trata em tudo o que escreveu ou disse, com a densidade que o definia.

O Luís integrava a constelação de amigos que, ao longo dos anos, fui reencontrando em Braga, com o Américo Diogo, o Carlos Mendes de Sousa (e, depois, o Carlos Cunha), a Laura Ferreira dos Santos, por fim a Rita Patrício. Distinguia-se de todos os outros pela forma como naturalizara um regime quase-metafísico e melancólico de viver, atento, a todo o instante, aos sinais do fim – uma metafísica em luta por um módico de sentido mas pronta a admitir o reverso disso ou o pouco que disso nos garante o cair da tarde. E, contudo, também nos divertimos muitas vezes, mesmo na academia. Por exemplo, num colóquio na Universidade do Minho em que nos embrenhámos numa discussão muito séria com o proponente da tese de que num certo autor o sexo anal seria pós-moderno… Saímos da sala a olhar um para o outro, incrédulos, e a rir sem parar.

Em 2017, quando coordenei a primeira exposição do espólio de Carlos de Oliveira no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, ficou decidido que um dos eventos da programação paralela seria um colóquio intitulado “Carlos de Oliveira e a ideia do moderno”, a ter lugar na Casa Fernando Pessoa, em setembro. O Luís foi, obviamente, um dos participantes, já que o tema era muito dele, e, no debate a seguir à sua comunicação, confessou que participar no colóquio lhe tinha exigido regressar à Festa do Avante, como se “reler Carlos de Oliveira” lhe exigisse uma modalidade extensional desse tipo. Foi um belo colóquio mas quando chegou a altura de reunir os textos para a publicação em livro, já ele estava doente. Informou-me por mail da sua impossibilidade de cumprir o que eu lhe pedia, tanto mais que precisava de rever várias partes do texto. Fiz-lhe ver que o texto estava muito bom, dispensando tanta revisão. E disse-lhe que o livro não sairia sem o texto dele. O tempo passou, sem que o texto chegasse, o Luís apareceu de súbito com a Raquel no colóquio sobre Nuno Ramos que organizei em fevereiro-março deste ano no Instituto de Estudos Brasileiros da FLUC, convidei-os para jantar com todos os participantes e foi um momento breve e feliz de reencontro, pois apesar dos sinais externos da doença havia então esperança. Cerca de mês e meio depois, o texto sobre Carlos de Oliveira chegou, num mail curto. Fiquei sem palavras, olhando para aquele texto assim caído do céu e que me permitia manter a minha promessa. Um derradeiro gesto de amizade, naquele modo inenfático que era o dele.

Depois as notícias passaram a ser piores, mas ainda assim falámos algumas vezes por telefone. Num dos últimos telefonemas falou-me de projetos de livros e do seu desejo de reunir em volume tudo o que escrevera sobre Gonçalo M. Tavares. Tinha, aliás, recentemente, assistido, no Porto, a um espetáculo em que Gonçalo lê em palco, e participara depois, em Braga, numa atividade de escrita dirigida pelo mesmo Gonçalo. Incitei-o a fazer o livro e ofereci-me para apresentar o volume no lançamento. “Isso seria ótimo”, comentou ele. E tinha razão, claro: teria sido ótimo estar com ele nesse momento.

Informei colegas e amigos portugueses e estrangeiros da morte do Luís. Como sempre, Alcir Pécora resumiu, em palavras justas, inteligentes e sensíveis, o que senti neste momento: “Com os amigos, vai-se uma parte de nossa história também. Cada um que morre, parece que um vazio vai se instalando na gente. Não é uma morte alheia, é mesmo própria”. O título deste texto, se não tivesse receio de parecer demasiado egocêntrico neste momento, deveria ser, pois, “Luís Mourão (1960-2019), na sua e na minha morte”.