Sobre «A Morte sem Mestre», de Herberto Helder

A Morte sem Mestre parece pensado para piorar de vez “o caso Herberto Helder”, naquele ponto em que uma vida que é uma ética, para não ser apenas uma brincadeira mais com palavras, se confunde com a lógica daquilo a que uma certa tradição política gostava de chamar o “inimigo objectivo”: a reincidência na ambígua política da tiragem única (uma boa estratégia de produção de raridades), a passagem à editora industrial, o silêncio da recusa acompanhado do bónus da Voz em CD anexo (muito dispensável, diga-se, ao contrário do sucedido em gravações antigas do poeta). Herberto merece ser pensado fora deste quadro, mas será que podemos eliminar do quadro alguma ambiguidade constitutiva?

De resto, e pese embora ao “estilo tardio” dos últimos três títulos do autor, patente na radicalização de uma “política de língua” que, em A faca não corta o fogo, recuperava com grande pertinência crítica uma ideia lata de português, entre o de cá e o do Brasil, nos ecos insistentes do “rio camoneano” e bíblico, na contundência mais pronunciada sobre o mundo público e, claro, na raiva, de um poeta já ancião, contra o declínio da luz – tudo nestes livros pode ser resumido em versos antigos de Flash: “Sei que toco. / Que há uma combustão nas partes sexuais / da minha morte”. Herberto é um poeta muito legível, na sua insistente lógica interna e no vocabulário que essa lógica elege, e daí a sugestão, muito pertinente, de uma obra que seria um “poema contínuo”. Que contudo, como sabemos do próprio livro com esse título, não exclui um afã auto-corrector e auto-antologiador. A Morte sem Mestre é um momento mais desse continuum em que uma vida e uma escrita se desejam uma só coisa, embrulhada e agónica, no seu combate por uma mútua tradução impossível.

O livro contradiz o título na primeira página, na declaração segundo a qual “Tudo quanto neste livro possa parecer acidental é de facto intencional”. De facto, repetem-se versos (“encerrar-me todo num poema, / não em língua plana mas em língua plena”) e quase poemas inteiros (o poema “tão forte eram que sobreviveram à língua morta”), grafam-se mal nomes próprios, etc. Contudo, logo no poema de abertura, pede-se explicitamente “que um qualquer erro de ortografia ou sentido / seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro”. A diferença entre o acidental e o intencional é, pois, impertinente, na perspectiva da escrita, do livro e da obra, já que autor ou leitor se encarregam de a cada instante reconduzir o erro ao sentido. O mesmo não se dirá da morte, para a qual não há de facto mestre.

Trata-se de um livro mais curto e menos estruturado do que os dois anteriores, e nesse sentido habitado pela urgência de se dar a público num estado que poderia ser o de um caderno de esboços, ou melhor, o do esboço de um livro por vir. O que é mais surpreendente neste livro – por exemplo, o poema sobre Cristo & o comunismo – não é memorável, ainda que nos traga um humor pouco reconhecível no autor (mas com o ónus de ter sido já feito por outros). Quanto aos poemas que dele ficam, e que retomam o melhor dos dois livros anteriores, desde logo na ferocidade da nomeação – “oh Anjo Príapo, oh Nossa Senhora Côna!” –, que aliás regressa à da juventude, ajudam a relançar a eterna questão do lugar do poema no Livro em Herberto, ou seja, da capacidade ou não para os seus poemas funcionarem como tal dentro de uma ideia de macro-livro ou poema contínuo que dispensa as segmentações que cada livro produz nesse todo. Desse ponto de vista diria que este é um livro derrotado pelos seus melhores poemas, ou seja, não é o livro em que Herberto intencionou aprisionar uma ideia de morte que é mais, ou bem menos, do que aquela que arde «nas partes sexuais». Para essa morte sem combustão não há manifestamente mestre nem livro, apenas silêncio.

[Depoimento solicitado por Luís Miguel Queirós, para o suplemento Ipsilon, do Público, quando da publicação do livro de Herberto Helder, em 2014. Foram apenas usadas algumas frases, pelo que se reproduz aqui o texto na íntegra]