Considerações demasiado pessoais sobre o poeta bissexto Manuel Resende

Creio que o meu primeiro contacto com Manuel Resende foi telefónico. Já o conhecia de livro, quer como poeta quer como tradutor, e de blog, na época da grande explosão desse meio, quando todos os dias nasciam novos blogs, novos autores e novas versões do que seja um autor – e uma dessas versões dava pelo nome, por vezes um tanto agreste, de Manuel Resende. Tínhamos tomado a decisão, o Américo Lindeza Diogo e eu (na altura, sócios maioritários da Angelus Novus, Editora), de tentar editar um volume de poesia de Manuel Resende e fiquei encarregado de o contactar. Falei com Manuel António Pina sobre o assunto e ele manifestou de imediato o seu entusiasmo com a ideia, uma vez que nutria um grande apreço pelo Resende Poeta, a seu ver insuficientemente valorizado. Da conversa, ou não fosse Pina um conversador sem igual, começou a surgir o perfil lendário de Manuel Resende, o revolucionário de mil episódios de abril (e de antes de abril) ou o poliglota sem par (que, jurava Pina, aprendera alemão lendo O Capital, de Marx, com dicionário ao lado, coisa que o próprio desmente, embora sem me convencer; digamos que prefiro acreditar no Pina).

A estes dois Resendes fui depois acrescentando outros, a partir do momento em que comecei a frequentá-lo em presença: o tripeiro com um gosto perverso por acentuar o sotaque e o vernáculo saboroso, sobretudo se em contexto cosmopolita ou “sulista”; o leitor obsessivo do primeiro Wittgenstein, pela via da sua paixão por lógica e matemática, que o levou ainda a Quine e outros (não me lembro de ter discutido com o Manuel a questão do místico no Tractatus, quando me apercebi, na casa de Santarém, da sua longa leitura da obra, e bem me arrependo disso: fica para a próxima, em Cascais); o fã do “cigano”, isto é, de Ricardo Quaresma, na altura em que ele fazia miséria na ala esquerda do ataque no Dragão, suscitando às vezes telefonemas entusiásticos; o palestiniano com o qual raramente consegui discutir o direito de Israel a existir enquanto Estado; o filólogo, isto é, a pessoa com amor pela linguagem e, antes disso, pelos muitos idiomas do mundo, com quem mantive pequenas e grandes discussões, sempre proveitosas, ou sobre palavras ou sobre filosofia da linguagem, e que sempre me pareceu, enquanto pessoa, a ilustração mais aproximada da temível ambição contida na frase com que Erich Auerbach encerrou o seu grande ensaio “Filologia da Weltliteratur”: “A nossa pátria filológica é a terra inteira”.

Mas queria concentrar-me num outro Manuel Resende, que conheci assim que liguei para o número que o Manuel António Pina me cedeu, naquele verão já longínquo. O Manuel estava de férias e, como o português tão de gema que é, estava no Algarve. O Pina já lhe tinha falado do nosso interesse em editá-lo e o Manuel, quando atendeu, disse-me, meio a rir, meio a gritar (ou não fosse já meio surdo), que não ligava grande coisa a isso de editar livros, embora agradecesse muito o interesse. Não tenho a certeza de que a expressão tenha sido usada, mas ia jurar que se autodescreveu como “poeta bissexto”. Quem mais jura mais mente, e não me importaria nada de mentir neste caso, uma vez que ao invocar a condição do “poeta bissexto” estou a trazer a este texto a pessoa que criou a expressão e lhe deu dignidade literária e teórica: Manuel Bandeira, o poeta sobre quem tantas vezes falei com este outro Manuel, o Resende. Lembro-me, aliás, de uma vez em que, andava eu às voltas com um texto de J. M. Coetzee sobre a ideia de clássico para um capítulo da minha tese (e que depois retirei da tese), o Manuel lembrou, para a tradução da experiência da epifania estética que Coetzee descrevia, a palavra que Bandeira gostava de usar a esse propósito: alumbramento. Uma palavra perfeita, por ser uma palavra portuguesa em tradução (do espanhol), ou não se tratasse do Manuel, um poeta e um tradutor, ou melhor, um tradutor a dobrar. Mas a razão porque trago Bandeira a este texto não é tanto o seu culto da experiência do “alumbramento”, ou a versão miniaturizada que produz dele, de que reconheço ecos na poesia de Resende, mas sim a questão do “poeta bissexto”, que sempre me pareceu fundamental para falar do Resende poeta. Faço notar que o desinteresse de Resende por editar livros não impediu que viéssemos a editar um dos mais belos livros produzidos pela Angelus Novus, o volume O Mundo Clamoroso, ainda, de 2004. Um livro pode falhar pelo título, mas é manifesto que este título é o contrário de um falhanço: fica connosco, ressoa em nós para lá da leitura e do livro, exatamente como o mundo que clama, por nós, quando nos deixamos subjugar, ou mesmo contra nós, para lá da nossa desaparição. Também eu clamei, ou reclamei, em regime persuasivo, quando o Manuel me disse ao telefone que pouco escrevia e ainda pensava menos em editar; clamei que ambos, o Américo Diogo e eu, fazíamos muita questão de editar um livro dele, pois gostávamos muito dos dois anteriores e nos parecia que havia alguma coisa na poesia dele que não batia certo com o curso principal da poesia portuguesa de hoje, o que era ótimo. A conversa, a primeira de muitas, em voz bem alta, como sempre, terminou com o Manuel a dizer que sim, que iria reunir uns poemas e enviar e que nós então decidiríamos. O que fizemos, sem problemas e com todo o gosto.

Faço, pois, questão de invocar o signo do “poeta bissexto” no momento em que este poeta bissexto que é Manuel Resende reúne a sua obra (a bem dizer, por injunção de vários amigos, e permitam-me que, por todos eles, refira o nome do Rui Manuel Amaral). Mas não o faço pelo gosto perverso, muito de certos críticos, de apontar supostas incongruências ou incoerências. Pois o “poeta bissexto” não é o avesso do poeta publicado ou a recusa dialética da publicidade do impresso. O bissexto é, antes, uma figura da descrença na Obra e no princípio de produtividade que a anima – mas descrença também na recusa radical da produtividade ou do trabalho. Como no verso final, um comentário cético a uma máxima situacionista, do poema “A um revolucionário europeu (Molinier)”, de O Mundo Clamoroso, ainda: “Ne travaillez jamais, isso é viável?” O “poeta bissexto” é aquele que pratica a dúvida pouco metódica sobre a viabilidade, não da poesia mas da Obra. Por outro lado, e esse é o ponto em que a Obra impende sobre a poesia, “Não trabalhar nunca” torna-se rapidamente o mandamento de uma vida de recusa que, enquanto tal, anularia o princípio de produtividade mínima que a poesia exige para ser mais do que gesto ou alumbramento (ou seja, para ser inscrição material e texto). Vejamos um exemplo maior, o poema “Kolymbítria” do livro Em qualquer lugar:

O absoluto não é ter muitas coisas juntas,
Mas o quase nada que vibra no fim da tarde,
Quando as pedras se iluminam de dentro,
Com já saudades do sol que vai partir.

Podemos aproximar o poema do universo do “poeta bissexto”, que seria aquele que renuncia ao absoluto de “ter muitas coisas juntas”, isto é, uma Obra Completa. E que o faz em nome de um “quase nada que vibra no fim da tarde”. Mas não é bem assim, pois também o “poeta bissexto” sabe que, para ser poeta, ainda que em regime escasso, necessita de transformar o alumbramento do “quase nada” num poema de 4 versos. Admitamos que o faz só quando lhe apetece, sem uma injunção superior, como seria a do Belo, da Poesia – ou, noutra versão, a da Comezaina. É a que ocorre num verso do poema “Esparsos”, de O Mundo Clamoroso, ainda: “Há os que nem por um beijo interrompem a comezaina.” O bissexto seria então o poeta que prefere o beijo à comezaina, o pequeno alumbramento à barrigada do museu. Mas sobretudo seria aquele que pratica o desinteresse, seu modus operandi por excelência, que faz com que vá juntando coisas sem grande convicção de que daí resulte uma coisa maior. Como no tão belo poema “Casas”, do mesmo livro, em que se diz, a abrir:

É óbvio que estas casas têm um desígnio:
Não ir a lado nenhum.

O poema reescreve toda uma temática heideggeriana – a casa, o abrigo, o caminho que não leva a lado nenhum –, para nos falar de um “sítio onde se recebem os amigos”, casas ou poemas, ou simplesmente uma mesa,

Como quem espera que alguém
Grave nela algum desleixo,
Uma marca de cigarro esquecido.

Talvez possamos contrapor esta inscrição em forma de desleixo e de marca de cigarro esquecido àquela versão do poeta e da obra que surge no poema “Arte Poética” do primeiro livro de Manuel Resende, que abre assim:

O poeta compareceu em peso
Alvo impoluto na sua obra completa
Sonetos caíam das nuvens e a ilha arqueada da noite abria ali uma boca
Imputrescível

O “poeta bissexto” seria, um tanto ao invés, aquele que comparece em regime relutante, resistindo à Obra, sem, contudo, desistir de uma ideia de obra – uma ideia para a qual é mais importante a interrupção ou a suspensão, enquanto figuras do desinvestimento, do que a completude. Seria interessante confrontar este poeta relutante com outras das pessoas de Manuel Resende, uma delas antes apresentada: o investigador da estrutura lógica da linguagem, o tradutor batalhador e inventivo, o encarniçado criador de uma horta biológica em terreno infértil. Resende comparece em peso no tempo longo da pesquisa e do trabalho, verbal e agrícola – ao contrário do modo relutante com que comparece na poesia. Gostava, pois, de propor que o bissexto exprime em Resende o valor crítico da poesia enquanto relutância em relação a todos os modos de comparecer em peso no mundo: a lógica, o trabalho, sem esquecer, claro, a política. O que não é negação nem desistência, mas pé atrás, eleição do improdutivo, culto do silêncio e privilégio do descaso. Tudo coisas que muito lhe agradeço.

[Os três livros de poesia de Manuel Resende acabam de ser reunidos num volume dos Livros Cotovia. O volume inclui um posfácio meu, com o título “A r(e)alidade e as cerejas”]