Variações sobre António: um colóquio em torno de António Variações

A culpa de estarmos aqui hoje é da vontade, como cantaria António Variações. A vontade de retribuir um pouco daquilo que António nos deixou, na sua música, na sua versão da cultura portuguesa, na sua ideia larga de mundo, no exemplo de quem não se deixa aprisionar pelo destino, na energia de quem se reinventa até ao fim. Porque António Joaquim Rodrigues Ribeiro poderia ter sido apenas mais um dos portugueses da sua geração que fizeram o percurso da aldeia para a capital, de “Mala nova na mão / Feita de madeira e papelão / Dentro um fato de cotim”, o diploma da quarta classe, “um terço e um santinho”, olhando para trás mas com o pensamento em frente – e, mais tarde, da metrópole para o então ultramar em guerra e, por fim, do Portugal da ditadura para o mundo novo, mas nunca suficientemente novo, da democracia. Mas tudo isso, que era já muito, e para muitos foi ou bastante ou demasiado, era demasiado pouco para António, que foi ver mundo pela Europa, pela América e por onde calhava, regressando sempre português e, contudo, cada vez mais cidadão do mundo. Recordo aqui as fulgurantes palavras que dedicou a esta questão, na canção “Minha cara sem fronteiras”: “Venho da terra de ninguém / E a minha língua não tem país / O meu nome é alguém / E vou daqui para o lugar de além / Meu corpo é tronco sem raiz”. A questão que estes versos enunciam é a do cosmopolitismo, e daí o caráter insatisfatório de qualquer figura e mito da raiz e da nação, propondo na sua vez essa estranha figura de um corpo que é “tronco sem raiz”: uma versão contratual do corpo político, que não cessa de se emancipar da sua origem.

Esta formulação tardia não é a única que a questão encontra em António Variações. A mais popular, e também mais mítica, é aquela que, em versões nem sempre coincidentes, o cantor teria transmitido a Ricardo Camacho, produtor do seu primeiro disco, para enunciar o lugar estético em que situava a sua música: «Entre a Sé de Braga e Nova Iorque». A frase não sugere um ponto de equilíbrio que seria, aliás, impossível de garantir, entre a Sé de Braga e o Empire State Building (ou entre o folclore minhoto e os Velvet Underground ou os New York Dolls); pelo contrário, parece enunciar uma pulsão de desequilíbrio ou de fabricação, não garantida por uma estabilidade identitária prévia – seja ela a da «cultura tradicional» ou a do «cosmopolitismo» –, para qualquer projeto de criação de uma versão moderna do popular. Nesse sentido, o percurso biográfico de Variações parece pressupor uma demanda, mas uma demanda de algo que se produz, fabrica e falsifica pelo caminho, sem ceder a qualquer ilusão de um «encontro pleno com a alma» da cultura portuguesa ou do sujeito com as suas «raízes» e com a sua «verdade profunda», verdade essa também objeto de uma encenação queer no limite do kitsch ou do camp, dando assim a ver, em modo espetacular, a identidade como recodificação.

Falar de António Variações é, pois, falar sempre de muito mais do que apenas das suas, aliás extraordinárias, canções, já que não custa ler na sua obra e na forma como performatiza a sua identidade (pessoal e coletiva) algo que nos ajuda a ler Portugal na segunda metade do século XX, da música e da poesia à cultura, aos média e à sociedade, na qual produz uma espécie de incisão, tão cirúrgica quanto festiva. Mas falar de Variações é falar também de uma singularidade não domesticada por preconceitos de classe, de gosto ou sexo, e de uma voz tão surpreendente hoje como no início dos anos 80.

Não escondo que o evento a que demos o nome “Variações sobre António: um colóquio em torno de António Variações”, foi concebido como uma ‘experiência de pensamento’, um desafio lançado em primeira instância à instituição que é a nossa casa – a universidade – e a essa versão compacta da universidade que é o colóquio ou congresso. Neste segundo caso, o experimento levou-nos a alargar o evento à performance e ao concerto, que gostaríamos de propor como modalidades ainda desse livre exame que define a prática universitária, deslocado agora para o território da recriação artística. No primeiro caso, a proposta de dedicar um colóquio a António Variações é um teste à universidade portuguesa no século XXI, à sua capacidade para acolher e pensar, de modo livre e crítico, um objeto não canónico e que exige uma abordagem multidisciplinar. A posição segundo a qual certos objetos são à partida mais dignos de estudo do que outros não é uma posição defensável, ou sequer estimulante, em sede teórica, já que na verdade o que se pretende assegurar com ela é que os tópicos de conversa nunca mudem. Mas se a universidade é sobretudo um regime liberal de conversação, então temos de admitir que os objetos dessa conversação mudem, quando mudam os conversadores ou quando mudam os pontos de vista. Aquilo que confere dignidade a um objeto não é uma suposta qualidade essencial sua, predicável como eterna e imutável, mas antes a nossa capacidade para o descrever de modo denso e para o usar de forma inteligente, relacionando-o com outros objetos, sobretudo aqueles com os quais ele não parece poder relacionar-se. Porque, supostamente, “não se compara com eles”, como reza o discurso repressivo da doxa. Na verdade, as comparações não são função dessas supostas propriedades fixas dos objetos, são, sim, função da nossa imaginação e do nosso desejo, como se aprende lendo esse clássico do pensamento emancipador que é Alice no país das maravilhas, por exemplo no momento em que o chapeleiro-louco faz a Alice a pergunta que resume tudo o que tenho estado a tentar dizer: “Em que é que um corvo se parece com uma escrivaninha?” Deixem-me tentar estar à altura desta pergunta: Em que é que António Variações se parece com Fernando Pessoa? Em que é que António Variações se parece com Almada Negreiros? Em que é que António Variações se parece com um leitor de cassetes? Em que é que António Variações se parece com um galo de Barcelos?

Eu não faço ideia, mas confio que as pessoas que apresentam comunicações a este colóquio nos ajudem a tentar perceber todas as coisas com que podemos comparar António Variações. Porque, como ele escreveu, julgo que a este respeito, “a vida é sempre uma curiosidade / que me desperta com a idade / interessa-me o que está para vir / a vida, em mim é sempre uma certeza / que nasce da minha riqueza / do meu prazer em descobrir”.

Quero, por fim, agradecer a todas as entidades apoiantes e parceiras deste colóquio, da FLUC, da UC e da cidade de Coimbra; aos conferencistas convidados e a todos aqueles que apresentarão comunicações; aos performers que atuarão mais logo, no Edifício das Caldeiras e na Casa das Artes da Fundação Bissaya Barreto; aos músicos de Coimbra que atuarão amanhã no TAGV, e a Luís Ribeiro, irmão de António, que também subirá ao palco; à família de António Variações, na pessoa do Sr. Dr. Jaime Ribeiro, pela reação calorosa; à excecional equipa da Comissão Organizadora e às estudantes voluntárias; à Maria Cecília Magalhães, estudante de doutoramento do Programa em Materialidades da Literatura, pela imagem e materiais gráficos do colóquio. Às empresas Meia dúzia, Minerva, Quinta de Jugais e Nutriva; e, em particular, à construtora DST, de Braga, na pessoa do engenheiro José Teixeira, pelo apoio à edição do livro que, no próximo ano, reunirá o essencial das comunicações apresentadas a este colóquio. Muito obrigado a todos por nos ajudarem a ter, durante estes dois dias, uma conversa livre, informada e exigente sobre a obra e o legado de António Variações.

[Discurso lido na abertura do colóquio “Variações sobre António. Um colóquio em torno de António Variações”, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a 7 de dezembro de 2017]

124 thoughts on “Variações sobre António: um colóquio em torno de António Variações

  1. Pingback: çeşme transfer

  2. Pingback: cialis vs tadalafil generic

  3. Pingback: Human Trafficking and Healthcare - Addressing the Victims brand viagra 50 mg?

  4. Pingback: Artificial Pancreas Technology for Diabetes Management dapoxetine 60mg?

  5. Pingback: Quelle maladie rend impuissant viagra prix?

  6. Pingback: What is the organ When a Man Loves a Woman order generic Cenforce?

  7. Pingback: Can I find travel-sized medications at pharmacies where can i buy dapoxetine in uk?

  8. Pingback: Which fruit make sperm fast fildena drug

  9. Pingback: order cheap essay

  10. Pingback: academic essay help

  11. Pingback: essay writing service legit

  12. Pingback: izmir travesti

  13. Pingback: What to do when you are craving for love buy vidalista

  14. Pingback: top 10 essay writers

  15. Pingback: business school essay writing service

  16. Pingback: essay help college

  17. Pingback: i need help writing an essay

  18. Pingback: custom written essays

  19. Pingback: What foods conceive a girl best price viagra uk

  20. Pingback: Is it better to go to the gym in the morning or at night vidalista 20mg

  21. Pingback: albuterol hfa 90 mcg inhaler

  22. Pingback: furosemide 40 mg price

  23. Pingback: online pharmacy reviews

  24. Pingback: porn

  25. Pingback: Benicar

  26. Pingback: pharmacy magazine warfarin

  27. Pingback: ventolin hfa

  28. Pingback: online mexican pharmacy xanax

  29. Pingback: prevacid online pharmacy

  30. Pingback: cialis super active 20mg

  31. Pingback: buy brand viagra canada

  32. Pingback: How does excessive use of certain blood pressure medications impact sexual health??

  33. Pingback: cialis tadalafil dosage

  34. Pingback: mecidiyeköy escort

  35. Pingback: erectalis tadalafil

  36. Pingback: cheapest sildenafil 100 mg uk

  37. Pingback: viagra 20mg

  38. Pingback: cialis available in walgreens over counter??

  39. Pingback: sildenafil cost usa

  40. Pingback: What exercises not to do in the gym??

  41. Pingback: cialis once a day

  42. Pingback: online viagra store

  43. Pingback: sildenafil 1 pill

  44. Pingback: kastamonu escort

  45. Pingback: edirne escort

  46. Pingback: academic programmes

  47. Pingback: mut academic programmes

  48. Pingback: must academic programmes

  49. Pingback: jooust academic programmes

  50. Pingback: tuc academic programmes

  51. Pingback: achats produit tadalafil pour femme en ligne

  52. Pingback: buy cialis cheapest

  53. Pingback: rx pharmacy near me

  54. Pingback: publix pharmacy lipitor

  55. Pingback: porno izleme sitesi

  56. Pingback: hd porno izle

  57. Pingback: cialis promise program card

  58. Pingback: purchase viagra pills

  59. Pingback: viagra sales online

  60. Pingback: cialis buy cheap with master card

  61. Pingback: cialis for sale in toront ontario

  62. Pingback: pharmacy reviewer phentermine

  63. Pingback: purchase viagra online with paypal

  64. Pingback: dapoxetina priligy buy secure canada - What are the effects of chronic use of inhalants on erectile function in young men?

  65. Pingback: datça escort

  66. Pingback: ventolin

  67. Pingback: izmir travesti

  68. Pingback: can you purchase viagra over the counter

  69. Pingback: female viagra pill prescription

  70. Pingback: buy cheap sildenafil uk

  71. Pingback: sildenafil pills buy

  72. Pingback: purchase viagra

  73. Pingback: ingredients in cialis

  74. Pingback: what does a cialis pill look like

  75. Pingback: what does cialis do

  76. Pingback: what can i take to enhance cialis

  77. Pingback: vidalista 60 mg india

  78. Pingback: neurotoxicity metronidazole

  79. Pingback: gabapentin alter

  80. Pingback: sulfamethoxazole-trimethoprim for dogs dosage chart

  81. Pingback: tamoxifen-ratiopharm 20

  82. Pingback: lyrica capsule doses

  83. Pingback: valtrex comparison

  84. Pingback: furosemide apo-furosemide

  85. Pingback: lisinopril/hctz dosage

  86. Pingback: metformin administrare

  87. Pingback: yasam ayavefe

  88. Pingback: pioneer 6 semaglutide

  89. Pingback: rybelsus semaglutide for weight loss

  90. Pingback: rybelsus qualifications

  91. Pingback: buy plaquenil

  92. Pingback: 911

  93. Pingback: kralbet

  94. Pingback: Zithromax 250 mg para que sirve

  95. Pingback: ipratropium-albuterol

  96. Pingback: alternative to zoloft

  97. Pingback: metronidazole teratogenic

  98. Pingback: antidepressant lexapro

  99. Pingback: fluoxetine alcohol interaction

  100. Pingback: weaning off cymbalta successfully

  101. Pingback: buy sertraline online

  102. Pingback: keflex breastfeeding side effects baby

  103. Pingback: is ciprofloxacin the same as cephalexin

  104. Pingback: escitalopram 10 mg price

  105. Pingback: proair hfa uses

  106. Pingback: cialis generico

  107. Pingback: cenforce 200 legaal

  108. Pingback: how much is over the counter viagra

  109. Pingback: gabapentin awp

  110. Pingback: duloxetine cost at walmart

  111. Pingback: androgel gel

  112. Pingback: buy plaquenil

  113. Pingback: tadalista 40

  114. Pingback: which is better viagra or cialis

  115. Pingback: porno izle

  116. Pingback: child porn

  117. Pingback: porn

  118. Pingback: furosemide 10 mg for dogs

  119. Pingback: cephalexin 500 mg para que sirve efectos secundarios

  120. Pingback: ciprofloxacin ophthalmic solution 0.3 for ears

  121. Pingback: plaquenil 200 mg price

  122. Pingback: how long to take bactrim for uti

  123. Pingback: i drank while on bactrim reddit

  124. Pingback: What drugs cause the most liver damage buy hydroxychloroquine 200 mg?

Comments are closed.