Uma evocação de Carlos Cunha, entre Braga e São Paulo

Quando a Rita (a Professora Rita Patrício) me convidou para participar nesta evocação do Carlos (o Professor Carlos Cunha) vi-me naquela situação de quem não pode dizer que não, embora muito desejasse fazê-lo. Não podia dizer que não pois sempre guardei do Carlos a melhor impressão pessoal, ainda que os nossos contactos não fossem muito frequentes. Mas sabia que, vindo à Universidade do Minho, o reencontraria, naquele gesto de avançar para nós, sorriso rasgado, aperto de mão forte, prolongado num meio abraço acolhedor – tudo isso que comecei por conhecer em Coimbra, quando o Carlos lá frequentou a parte curricular do Mestrado. Obviamente, não é Coimbra que está em causa nessa cena primitiva do nosso encontro mas sim o Professor Aguiar e Silva – uma outra razão para não poder dizer que não. A minha relação com a Universidade do Minho, que é uma relação próxima, sempre foi mediada pelo prof. Aguiar e Silva, e o Carlos sempre foi para mim o Minho (não apenas a universidade), o Prof. Aguiar e Silva e a Teoria da Literatura, tudo isso num compacto peculiar mas reconhecível.

Há um momento na nossa vida em que a morte se torna familiar – e nada volta a entrar realmente nos eixos. Passamos a viver no regime um tanto póstumo de quem ficou para trás, sem perceber porquê, face àqueles que se adiantaram e desapareceram, mais ou menos subitamente. E vemo-nos na situação de quem tem de aceitar o inaceitável e recuperar do passado tudo aquilo que nos permita continuar («Il faut continuer», como dizia, a respeito de outra coisa, ou talvez não, Theodor Adorno). Lembro-me, por exemplo, cada vez mais, do Carlos, da Rita e do José Cândido em Ponta Delgada, no colóquio de homenagem ao Professor Aguiar e Silva, lembro-me das brincadeiras maliciosas (minhas e dos outros) sobre Teófilo Braga, sobretudo numa caminhada noturna, após um jantar, e um tanto por acaso, até ao monumento ao grande positivista e historiador da literatura, no Forte de S. Brás. O pretexto era obviamente o estudo, verdadeiramente impressionante, que o Carlos dedicara, na tese de doutoramento, à obra de Teófilo – e o Carlos ria e entrava no jogo, ao mesmo tempo que garantia que já tinha a sua dose de Teófilo. Mas lembro-me também do tempo longuíssimo que o Carlos teve de esperar pela saída do nº 1 da Revista de Estudos Literários, do Centro de Literatura Portuguesa, um número organizado por António Apolinário Lourenço e por mim, sobre os estudos literários em Portugal no século XX. Tudo se atrasou para lá do previsível e até do aceitável – mas o Carlos nunca protestou e nunca retirou o seu texto, o que seria até compreensível neste tempo de publicação em regime histérico. E, contudo, fora o primeiro a entregar o texto solicitado.

E lembro-me do Carlos na última vez em que estive com ele em Braga, quando vim fazer uma aula-conferência no então muito recente Doutoramento em Modernidades Comparadas, com o título «O que são as materialidades da literatura?» Foi o Carlos a convidar-me e a tratar da minha vinda. Por mais que eu insistisse que não precisava que ele me fosse esperar à estação, pois para isso é que há táxis, ele fez questão e foi esperar-me, levando-me depois ao hotel e à universidade. No dia seguinte, era sábado, ele fez de novo questão de me ir levar à estação. Quando chegou ao hotel havia um grande espetáculo popular na praça em frente, que metia um Outlet de uma estilista bracarense e uma emissão de rádio em direto. Cantava ao vivo uma artista pimba, uma rapariga alta e de formas generosas que, devo admitir, me causou um certo efeito. Fomos comentando a atuação e a cantora e, no fim, disse ao Carlos que esperasse um pouco pois ia pedir um autógrafo. Havia fila, composta por velhotas muito fãs, e por fim eu. Passei à cantora o livro de Boris Groys que andava a ler e pedi para autografar na última página – e cobrei os beijinhos da praxe. O Carlos ria-se, quando voltei e lhe mostrei o autógrafo, que é este e reza assim: «Com muito carinho para o Osvaldo. Beijo, Liliana Maria». Não é difícil perceber, suponho, por que razão essa dedicatória é agora, para mim, um vestígio oracular do Carlos e do sorriso divertido, mas ainda assim algo renitente, com que encarou o meu pedido de autógrafo, e o outro sorriso, já rendido, com que leu o autógrafo de Liliana Maria. Quando alguém morre, tudo serve para resistirmos ao seu desaparecimento – e tudo funciona metonimicamente (oracularmente) para esse efeito.

O convite da Rita Patrício apanhou-me numa fase de nomadismo académico intenso, que me levou, na primeira quinzena de Novembro, ao Brasil. Volta e meia ocorria-me (afligia-me) esta sessão e a necessidade de falar sobre o Carlos. Sabia que não podia deixar de abordar a tese de doutoramento dele e tudo o que faz a importância e singularidade dela no nosso panorama académico. Uma tese ambiciosamente panorâmica – e a nossa geração foi a última a cometer tais teses, coisa de que, contudo, pessoalmente nunca fui capaz –, recorrendo a fontes nunca lidas ou então citadas por sistema em segunda mão, e com uma bibliografia esmagadora. O Carlos falava da história literária portuguesa do século XIX mas de facto falava da grande obsessão romântica e pós-romântica, cultural e política, e em todo o caso moderna (demasiado moderna para o nosso gosto, hoje, ou antes, para o nosso incontido revisionismo): a nação, ou melhor, o Estado-Nação e o seu casamento aparentemente indissolúvel, e afinal de contas danoso, com a Literatura. Na «Conclusão», de uma forma perfeita, resumia o seu tópico:

Ao longo deste trabalho, norteou-nos a ideia de que o discurso da história literária oitocentista se centrou na história nacional e se desenvolveu a partir da ideia de nação (étnica ou cívica), numa espécie de transferência metonímico-metafórica do conceito territorial da geografia ou do ‘imaginário nacional’ para a esfera do literário (457).

A história literária, lembrava o Carlos, «narrava a história do espírito nacional e permitia aceder à ‘identidade nacional’» (459), pelo que escrever a história da literatura portuguesa era o mesmo que narrar o percurso do espírito português na sua demanda de um lugar e de um corpo históricos. E é aí que entra Teófilo e a sua prodigiosa imaginação mitográfica, que não hesita em subordinar e dobrar factos e dados a uma interpretação identitária, inspirada na valorização da latinidade por Comte, interpretação essa que, nas palavras do Carlos, «’inventou’ uma genealogia lusa para a nação (e uma tradição nacional), transformando a visão disfórica da literatura e da cultura portuguesas até aí prevalecente» (460). Esta análise era então desdobrada, no plano institucional, no estudo das entidades que, da esfera pública ao sistema de ensino, contribuíram para tornar performativo este projeto do discurso (e a acentuação deste termo em toda a tese mais evidencia a sua consciência da performatividade envolvida) da história literária em Portugal.

Depois, como se sabe, chegou o tempo da crise da história literária, isto é, o tempo da teoria da literatura. Sobre esse ocaso, que, numa formulação feliz, o Carlos define como o tempo em que, ao contrário do passado, se teoriza muito sobre história literária mas se escreve muito pouca história literária (uma ocorrência mais daquela figura hegeliana da coruja que levanta voo ao entardecer), gostaria de citar um parágrafo fundamental da «Conclusão»:

Com efeito, o conjunto de práticas discursivas relativas ao que há dois séculos e meio foi designado como literatura viveu antes num espaço discursivo dominado pela Poética e pela Retórica e numa esfera ahistórica. Por outro lado, por si só, a existência de obras e de escritores não garantem a necessidade da história literária. No entanto, a história literária no século XIX exerce ainda uma forte influência no campo dos estudos literários, pelo menos em termos escolares (463).

No fundo, o Carlos manifestava aqui a sua perplexidade perante a resistência, já não em sede teórica mas didática, da história literária, esse cadáver adiado que procria. E não surpreende que na última nota da tese se abone em palavras esclarecedoras do Prof. Aguiar e Silva (alguém que de facto está no princípio e no fim do que ambos fizemos): «Não é com o ensino da história literária – e, sobretudo, não é com o ensino de uma esquelética, esquemática e dogmática história literária – que se seduzem e formam leitores e que se educa o gosto estético-literário». Se a memória não me atraiçoa, o Prof. Aguiar e Silva gostava de insistir que a teoria da literatura é uma disciplina anti-romântica, o que (suponho) quereria dizer que o tempo da teoria da literatura é o tempo da questionação do vínculo local e nacional das literaturas – anunciando antes, ou coincidindo com, a radicalização do projeto goethiano, e em seguida marxista, e mais tarde soviético, da Weltliteratur. Sempre me impressionou que uma das mais ressoantes definições do projeto da Weltliteratur pertencesse a um grande filólogo e romanista, Erich Auerbach, que afirmava, no ensaio que dedicou à questão, em 1952, ensaio traduzido nos anos 60 para inglês por Edward Said e tão usado por ele em tantos pontos da sua obra, que «A nossa pátria filológica é a Terra: a nação já não pode sê-lo». O mesmo Auerbach, contudo, dando logo a seguir uma demonstração de como se opera filologicamente, afirma que «Temos de retornar, em circunstâncias diferentes, ao que a cultura pré-nacional da Idade Média já possuía: à consciência de que o espírito não é nacional». Retornar, «em circunstâncias diferentes», ao passado, para que ele nos ilumine o presente: é assim que leio o trabalho gigantesco do Carlos na sua tese, e pude confirmá-lo em Ponta Delgada, nas várias conversas que tivemos sobre a Weltliteratur, que naquele momento o interessava, e também a mim.

Na minha recente estadia no Brasil encontrei-me com dois doutorandos meus, ambos muito inteligentes, ambos pessoas cuja falta muitas vezes sinto, o Matheus de Brito, na Unicamp, que em breve apresentará a sua tese em materialidades da literatura e, em São Paulo, a Rinah Souto, que tem quase concluída uma tese sobre questões pós-coloniais. Levava no portátil as teses de ambos e ia lendo e anotando no Word. Um dia constato que a Rinah citava um ensaio de Carlos Cunha – A questão da especificidade do pós-colonialismo português –, de 2010. Carreguei no link e li o texto, que consiste numa discussão crítica das teses famosas de Boaventura Sousa Santos sobre o pós-colonial, tal como foram expendidas no seu ensaio «Entre Próspero e Caliban». O Carlos discute aí, em particular, a tese de Boaventura segundo a qual, face ao colonialismo britânico, que funcionaria como o metro-padrão do verdadeiro colonialismo, o colonialismo português seria um colonialismo subalterno, tal como Portugal seria um país periférico no sistema capitalista mundial. As debilidades do ensaio de Boaventura são convincentemente recenseadas, e recordo uma frase esclarecedora:

Nessa ótica, a sua hipótese [de Boaventura] acaba por inviabilizar qualquer análise pós-colonial, quer pelo facto de a colonização ter sido débil (o que impediria a reação do colonizado), quer porque a miscigenação e o hibridismo se deram no próprio processo de colonização» (2).

Encontrei-me com a Rinah na Avenida Paulista e fomos almoçar e discutir a tese numa transversal da Paulista. A certa altura, chegados ao ponto em que se citava o Carlos, falei do ensaio e aí ela lembrou que tinha estudado um ano na Universidade do Minho, antes de voltar ao Brasil, indo depois para Coimbra. Perguntei se fora aluna do Carlos. Sim, disse ela. Percebi então que tinha de fazer uma coisa muito desagradável e perguntei se sabia o que tinha acontecido. A Rinah não sabia e ficou interdita com a notícia. Confessei-lhe que tinha ficado como ela, quando soube. Falámos do Carlos e depois, como quem não quer a coisa, mudámos de assunto.

Nós, académicos, gostamos de supor que a existência de uma obra (um texto, um conjunto de textos) permite que a memória do seu autor (ou seja: de nós mesmos) não se perca. Trata-se, seguramente, de uma ilusão caritativa, própria de quem se habitua a viver entre livros e, em rigor, dentro de livros (um belo sítio para se viver, de resto). Nada assegura, porém, a sobrevivência do timbre particular da memória de alguém – a inflexão da voz, o olhar, o sorriso, o jeito do corpo – senão a nossa própria memória dessa pessoa, uma memória irredutível, dificilmente transmissível, falível, mortal. Naquele momento, naquele restaurante manhoso próximo da Avenida Paulista, em São Paulo, senti que a memória do Carlos viveria comigo e com a Rinah, tal como a memória de um professor vive, num estranho regime persistente, no coração de um estudante tocado, de algum modo, mais ou menos contingente, pela sua lição. Mas senti também a verdade profunda do verso de Ruy Belo em «A mão no arado»: «Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã».

É, porém, para combater as limitações da memória pessoal que existem as instituições e o seu trabalho, incessante, na longue durée, de produção de uma memória coletiva. Porque nós somos também obra, vestígio, inscrição e indexação. Somos aquilo que deixamos, e que necessariamente se liberta de nós. Não duvido que a Universidade do Minho saberá cuidar daquilo que Carlos Cunha deixou.

[Texto lido a 1 de dezembro de 2015, assinalando o primeiro aniversário da morte de Carlos Cunha, em cerimónia realizada no Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho]

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