A distribuição matutina

do pão, do leite, dos jornais e dos princípios universais podia ser o programa deste blog. E que melhor programa? O mundo, porém, desregulou-se a um ponto tal que já ninguém usa a antemanhã para comprar pão, leite ou jornais. E os empregos que essa distribuição criou foram entretanto laminados pelo progresso, essa bela besta. Ou estão a sê-lo, como no caso dos jornais. Restam os princípios universais. Mas será que restam?

Num poema famoso, «Elegia 1938» (de Sentimento do Mundo, 1940), Carlos Drummond de Andrade fala antes de gestos universais: «Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, / onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo. / Praticas laboriosamente os gestos universais, / sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual». Os gestos universais, com os quais se edifica laboriosamente a ordem social que contudo não nos livra da carência ou, pior ainda, da natureza que também somos, são em rigor prévios aos princípios universais. A verdade, porém, é que a relação entre gestos e princípios não parece ser sequer necessária: tal como o gesto matutino de comprar o jornal, que se harmonizaria com o jornal enquanto «princípio universal», não garante de facto a transição de gestos a princípios (abundam, de resto, os jornais que são bons exemplos de maus universais). É talvez porque o princípio não está garantido que Drummond parece concluir o poema pelo gesto. No caso, um gesto de aceitação não-resignada: «Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição / porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan».

Este blog não visa pugnar pela atualidade da «Elegia 1938». Antes de mais porque essa atualidade entra pelos olhos dentro, sendo redundante proclamá-la. Trata-se sim de recorrer à «injusta distribuição» como figura constitutiva da relação com o idioma e com todo o campo da escrita, do pensamento e da expressão, artística ou não – enfim, com todo o campo do simbólico –, dedicando-lhe a mesma modalidade de aceitação não-resignada de Drummond. Ou seja, escrevendo. Apenas um gesto, seguramente íntimo daqueles que Drummond categorizava como «universais», tão imperativos quanto radicalmente desprovidos de garantia. Um gesto, neste caso particular, pouco dado a ceder às sonoridades da indignação. Que, aliás, tão pouco pode ante a primeira de todas as distribuições injustas, aquela que nenhuma dinamite pode reparar: a do nosso tempo de vida.

O que não significa que não se persista – em comprar o pão, o leite e o jornal matinais. Ou seja, em sair à rua. E em escrever.

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